Por Larissa Rodrigues
Mal assumiu a presidência da Câmara dos Deputados e o deputado paraibano Hugo Motta (Republicanos) já deu uma bola fora. Disse que não houve tentativa de golpe no Brasil no dia 8 de janeiro de 2023. Segundo Motta, eram apenas “vândalos e baderneiros” criando confusão em Brasília.
A declaração foi dada em entrevista, ontem (7), à rádio Arapuan FM, de João Pessoa, capital da Paraíba, e teve péssima repercussão no meio político e na imprensa, principalmente porque a fala desmoraliza completamente o trabalho da Polícia Federal e ignora o trabalho minucioso da instituição.
“O que aconteceu não pode ser admitido que aconteça novamente. Foi uma agressão às instituições. Foi uma agressão inimaginável, ninguém imaginava que aquilo pudesse acontecer. Agora querer dizer que foi um golpe? Um golpe tem que ter um líder, tem que ter uma pessoa estimulando, apoio de outras instituições interessadas e não teve isso”, declarou Motta.
No entanto, a Polícia Federal (PF) indiciou 40 pessoas no total e imputou a elas os crimes de abolição do Estado democrático de direito, golpe de Estado e organização criminosa. Entre os indiciados, estão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o seu ex-candidato a vice, o general Braga Netto, que segue preso desde dezembro, a pedido da própria Polícia Federal, por suspeita de estar coagindo testemunhas do caso.
Ao contrário do que disse Hugo Motta, as investigações da PF apontaram que havia, sim, um líder tentando o golpe: Jair Bolsonaro. Também havia pessoas estimulando esse mesmo golpe: generais do Exército e um almirante da Marinha, além de outros aliados de Bolsonaro. As instituições do Exército e Marinha como um todo não aderiram à tentativa, mas membros fizeram parte daquele projeto de impedir a posse do governo eleito.
Além de descredenciar publicamente o trabalho da PF, Hugo Motta fez um claro aceno à extrema-direita brasileira e passou a imagem de que estava apenas esperando ser eleito presidente da Câmara, com os votos da esquerda e o apoio do presidente Lula (PT), para começar a dar dor de cabeça ao Poder Executivo, visto que hoje completam apenas oito dias da sua eleição.
QUEM É O VERDADEIRO HUGO MOTTA ? – A declaração do deputado deixou a dúvida de quem é ele verdadeiramente, já que no discurso de posse, há apenas oito dias, o parlamentar lembrou Ulysses Guimarães, defendeu a democracia e exibiu um exemplar da Constituição brasileira. Hugo Motta chegou a repetir a frase de Guimarães “tenho ódio e nojo à ditadura”, sendo aplaudido pelo plenário da Câmara. Mas, uma semana depois, minimizou a maior tentativa de ruptura democrática no Brasil desde a década de 1960.

Ainda estou aqui – Vale lembrar que, também na posse, o parlamentar também fez referência ao filme Ainda Estou Aqui, que conta a história do ex-deputado federal Rubens Paiva, preso e morto pela ditadura, o que certamente aconteceria com outros deputados se um novo golpe fosse dado no País, como queriam os baderneiros os quais ele minimizou as ações. Hugo Motta precisa decidir quem ele é e o que ele defende. Ele defende a democracia ou ele passa pano para golpistas? As duas coisas não dá.
Preparando o terreno – A fala do deputado foi interpretada por alguns como uma tentativa de preparar o terreno na sociedade para um possível projeto de anistia aos golpistas do 8 de janeiro, que conta com a resistência da esquerda. Sobre o assunto, ele disse: “não posso chegar aqui e dizer que vou pautar a anistia semana que vem, ou não vamos pautar. Será um tema que vamos analisando, digerindo”.




























