Jerônimo Rodrigues fala em paz, mas Bahia segue com polícia mais letal do Brasil
Jerônimo e Lula prometeram “parceria” na campanha de 2022, mas até aqui a única parceria visível é a da inércia quando se trata de segurança pública
Do Correio
Há uma contradição difícil de sustentar no governo Jerônimo Rodrigues. O governador da Bahia declarou recentemente, em evento no Fórum Ruy Barbosa, que “não é papel do Estado matar e nunca será”. Disse ainda que o Estado tem uma “responsabilidade muito maior” do que transformar “homens e mulheres em sangue”. A fala seria nobre – se não viesse de quem comanda a polícia que mais mata no Brasil.
De janeiro a setembro deste ano, 1.252 pessoas morreram em ações policiais na Bahia, o equivalente a cinco por dia. Um em cada quatro mortos pela polícia no país é baiano. Nos últimos três anos, segundo o Instituto Fogo Cruzado, foram 85 chacinas policiais em Salvador e na região metropolitana, com 324 mortos. Esses números não representam uma distorção: são o retrato da rotina. E é justamente por isso que as palavras do governador soam como um manifesto em conflito com a própria realidade que ele administra.
Esta observação não é – nem deve ser – uma crítica à polícia. Os agentes estão na linha de frente de uma guerra diária, muitas vezes sem estrutura e sem respaldo político. A crítica é à falta de direção. Afinal, qual é o verdadeiro posicionamento de Jerônimo Rodrigues? Ele defende ou não o trabalho da polícia que comanda?
Ao se distanciar do problema e atribuir o modelo policial a uma herança de “200 anos”, o governador tenta proteger seu grupo político de uma política de segurança pública que é, sim, sua responsabilidade. Governar é assumir o ônus das escolhas – inclusive as que custam vidas.
Jerônimo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu aliado político, prometeram “parceria” na campanha de 2022, mas até aqui a única parceria visível é a da inércia quando se trata de segurança pública. Enquanto o governador tenta equilibrar retórica e omissão, Lula dedica-se a temas externos, como a “solidariedade regional” à Venezuela. A diplomacia latino-americana tem seu valor, mas é um equívoco de prioridades quando o país enfrenta uma tragédia interna que sangra diariamente.
A Bahia não precisa só de mais discursos sobre justiça e paz. Como tem dito este jornal, o que precisamos é de políticas públicas sérias, coordenadas, transparentes – e de um governador que não fuja da própria responsabilidade. Porque quando o Estado fala em paz, mas governa com indiferença diante da morte, o discurso, ironicamente, também mata.
























