Nível de reservatórios preocupa, mas risco de novo apagão é baixo

Especialistas apontam ser improvável que apagões do sistema voltem a acontecer, mas consumidores devem sentir peso no bolso. Nesta semana, Aneel já acionou o patamar mais alto da bandeira vermelha

Apesar da preocupação com o baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas brasileiras, o risco de um eventual “apagão” ainda é considerado baixo. A expectativa é que as chuvas no Sul e no Sudeste comecem, a partir de dezembro, a recompor o armazenamento hídrico dessas regiões, maiores produtores de energia do País. No entanto, o consumidor sentirá na conta de luz o impacto da seca que atinge essas regiões. Como o sistema elétrico brasileiro é interligado, essa alta atinge consumidores de todas as regiões.

Na terça-feira (1º), a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) definiu a bandeira vermelha patamar 2 para dezembro. Esta é a mais alta bandeira tarifária, no valor de R$ 6,24 por 100 quilowatts/hora consumidos. “A bandeira tem duas finalidades, uma é pagar o custo do acionamento das térmicas e o outro é induzir o consumidor a buscar uma maior eficiência no seu consumo”, diz Jurandir Picanço, coordenador do Núcleo de Energia da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec).

Naquele dia, os reservatórios das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que representam quase 80% de toda a armazenagem hidrelétrica do País, estavam com apenas 17% da capacidade. Um ano antes, os reservatórios dessas regiões estavam com 20,4% da capacidade, “A expectativa é que as térmicas atendam à necessidade do País e que não haja necessidade de racionamento no futuro”, destaca Picanço. “A adoção da bandeira neste momento é uma medida preventiva, para que não haja racionamento. E, tão logo a gente tenha uma recuperação boa dos reservatórios, a bandeira vermelha deixará de ser cobrada”.

Risco hídrico

O professor e consultor em energia, João Mamede, diz que ainda é cedo para que haja preocupação com apagões, mas que se a seca no Sul, Sudeste e Centro-Oeste continuar em 2021 e o nível das grandes hidrelétricas da região Norte permanecer baixo, poderá haver risco de desabastecimento. Hoje, os reservatórios do Norte estão com 28% da capacidade. Há um ano, estavam com 33%.

“Se houver escassez de chuvas na bacia que abastece as usinas de Tucuruí, Belo Monte e outras de grande porte, aí sim, poderemos ter uma escassez de suprimento”, ele diz.

Na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, em suas redes sociais, que, diante da seca, se nada for feito haverá risco de apagão. “As represas estão em níveis baixíssimos. Se nada fizermos, poderemos ter apagões. O período de chuvas, que deveriam começar em outubro, ainda não veio. Iniciamos também a campanha contra o desperdício”, escreveu o presidente.

Crescimento econômico

Além da preocupação com os reservatórios, outro fator que pode pressionar a geração é o crescimento da demanda, devido à atividade econômica. Hoje, a geração de energia no Brasil já está nos mesmos patamares dos meses anteriores à crise, e caso essa tendência de recuperação continue, a oferta energética pode não conseguir acompanhar a demanda.

Segundo João Mamede, em geral, é preciso acrescer ao sistema elétrico o dobro do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), de modo que se a expectativa de crescimento do PIB para 2021, estimada em 3,45%, se confirmar, será preciso acrescentar 6,9% de geração à matriz do País.

“Se o PIB aumentar mais do que o esperado, mais energia terá de ser adicionada ao sistema nacional. Hoje temos cerca de 10 gigawatts (GW) de térmicas e quase todas funcionando. As que estão desligadas podem suprir a falta de chuvas, mas se houver uma escassez generalizada, a capacidade dessas térmicas não será suficiente para suprir a demanda”, explica o professor e consultor de energia.

Geração

Em nota técnica do dia 25 de novembro, a Aneel reconheceu as dificuldades na geração de energia que levaram ao acionamento de usinas termelétricas no dia 17 de outubro, mas ainda assim recomendava a retomada das bandeiras apenas em 2021.

Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), o volume de chuvas no período seco de 2020 foi o terceiro pior da série histórica. As afluências (quantidade de água que chega aos reservatórios das hidrelétricas) no Sudeste e no Centro-Oeste registraram o terceiro pior resultado da série histórica entre maio e novembro deste ano, época em que se caracteriza o período seco.

Armazenamento

Mesmo para dezembro, quando tradicionalmente começa o período úmido nessas regiões, as chuvas ainda estão muito abaixo da média. Para esta semana, até sexta-feira (4), o ONS prevê afluências de 37% da média histórica.

Hoje, o armazenamento só está superior aos 15,8% verificados em 2014. No mês seguinte, em 19 janeiro de 2015, o Brasil sofreu um apagão em 11 estados devido a picos de consumo associados ao forte calor. Na época, o governo insistiu que o sistema era robusto.

Para fazer frente a esse cenário, o ONS informou que, desde 17 de outubro, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), órgão presidido pelo Ministério de Minas e Energia (MME), já determinou o acionamento de termelétricas, a importação de energia da Argentina e Uruguai além da flexibilização de restrições para o uso das usinas de Itaipu, Ilha Solteira e da bacia do Rio São Francisco

“Os pleitos relacionados à flexibilização de restrições relativas às usinas de Ilha Solteira e da bacia do Rio São Francisco ainda serão avaliados pela Agência Nacional de Águas (ANA)”, informou o ONS. Nos dois casos, as bacias têm uso misto e por isso precisam de aval da ANA. Sobre os próximos meses, o ONS informou que ainda é preciso aguardar para tomar novas medidas. “É preciso esperar e avaliar como o período úmido, que começa agora e vai até abril, irá se comportar para definir as estratégias de operação”.

Bandeira tarifária

Em maio, durante a quarentena, a Aneel havia decidido manter a bandeira verde até 31 de dezembro, mas, em reunião extraordinária realizada na segunda (30), o órgão avaliou que a queda no nível de armazenamento dos reservatórios e a retomada do consumo de energia justificavam o aumento. Segundo a Aneel, a bandeira tarifária não é um custo extra na conta de luz, mas uma forma diferente de apresentar um valor que já está na conta de energia, mas que geralmente passa despercebido. Criado em 2015, o sistema de bandeiras tarifárias busca recompor os gastos extras com a utilização de energia de usinas termelétricas, mais cara do que a de hidrelétricas. A cor da bandeira é impressa na conta de luz (vermelha, amarela ou verde) e indica o custo da energia em função das condições de geração.

Apesar dos reservatórios das hidrelétricas estarem em baixos patamares históricos, a expectativa é que haja recomposição nos próximos meses, o que deverá provocar a retirada da bandeira vermelha

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