O décimo sexto Mistério: Por que a Igreja que sediou a Revolta dos Malês está abadonada há mais de 30 anos?
Publicado em 22/06/2026
Igreja dos 15 Mistérios, palco de uma das Revoltas mais emblemáticas contra a Escravidão no Brasil, está fechada há uma década | Antonio Dilson Neto / BNews
Por Antonio Dilson Neto
Quem caminha pelo bairro do Santo Antônio Além do Carmo se depara com a fachada de portas pesadas, trancadas e malcuidadas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos 15 Mistérios, templo em estilo neoclássico erguido no bairro há cerca de 200 anos. Atrás das paredes de alvenaria, um acervo de arte sacra apodrece no escuro, sem que ninguém tenha autorização ou segurança estrutural sequer para entrar e avaliar os danos.
O templo, que sobreviveu a quase dois séculos de história, agora agoniza sob o peso de um mistério burocrático: por que o espaço está fechado, interditado e sem nenhuma intervenção para restauro nos últimos 30 anos?
Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
A crise de gestão do patrimônio religioso de Salvador ganhou visibilidade nacional depois do desabamento de parte do teto da Igreja de São Francisco de Assis, em fevereiro de 2025, causando a morte de uma turista e o ferimento de outras cinco pessoas.
Naquele momento, as vistorias na cidade se multiplicaram e outras sete igrejas foram interditadas. Mas a Igreja dos 15 Mistérios já estava ali antes, na fila longa das ameaças conhecidas e das providências adiadas.
Os alertas de degradação aparecem em relatórios da Defesa Civil de Salvador desde 2013. Depois vieram novas anotações, em 2018, 2020, 2022 e 2025. A lista cresceu; a obra, não.
Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
Mistérios
O imóvel da Igreja está em nome da Arquidiocese de Salvador e a transferência aconteceu após o fim da Irmandade que era responsável pelo templo. Ao BNews, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) enviou nota informando que, embora a igreja seja bem histórico tombado, a responsabilidade de manutenção e reformas cabe ao proprietário – no caso, a Arquidiocese de Salvador.
“O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informa que a Igreja dos 15 Mistérios não é tombada individualmente em nível federal, mas está localizada na poligonal de tombamento do Centro Histórico de Salvador, incidindo sobre ele as mesmas regras previstas na legislação federal de patrimônio cultural.
Por se tratar de propriedade privada, seu fechamento, uso e estado de conservação são de responsabilidade de seus proprietários. De acordo com o Decreto Lei nº25/37, cabe primariamente ao proprietário a realização de ações de conservação e reparação do imóvel, podendo esse responder pelos danos provocados em razão de omissão no cumprimento das ações de conservação.
A preservação do patrimônio cultural é realizada de forma colaborativa, pelo seu proprietário, pelo Iphan, pela sociedade civil e por outros entes públicos e privados, conforme as atribuições legais de cada ente”.
Entretanto, a comunidade de Santo Antônio Além do Carmo, incluindo o Santuário ao qual a Igreja dos 15 Mistérios está vinculada, tem feito uma série de denúncias públicas e petições para reformas e melhorias no templo desde o início dos anos 2000. Pe. Jailson, pároco do Santuário, sinaliza que tem procurado as instâncias responsáveis por patrimônio público e não há resposta.
Tudo o que nós temos feito, os apelos aos poderes públicos, ao Ministério da Cultura, ao Iphan e ao governo do Estado não tem surtido efeito”, lamenta o padre
Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
Telhado da Igreja dos 15 Mistérios | Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
365 Igrejas
Salvador carrega a fama de ter uma igreja para cada dia do ano. A história foi imortalizada por Dorival Caymmi no samba “365 Igrejas”, lançado em março de 1946, mas a realidade vai além da canção: são cerca de 495 templos entre igrejas, capelas e paróquias. Na Bahia, o Iphan lista 184 bens tombados, dos quais 51 são igrejas. Em Salvador, 30 desses templos estão sob proteção federal.
A conta mostra uma cidade riquíssima em patrimônio religioso, mas também exposta ao problema da manutenção que não acontece na mesma velocidade em que os danos avançam.
No Santo Antônio Além do Carmo, a cobrança se intensifica porque a Igreja dos 15 Mistérios não concentra apenas valor arquitetônico, mas abriga a memória de uma dos levantes mais importantes da história do Brasil, a Revolta dos Malês.
A revolta
Na madrugada de 24 de janeiro de 1835, cerca de 600 africanos escravizados marcharam pelas ruas de Salvador convocando irmãos de cativeiro a se unirem na luta pela liberdade. O movimento, batizado de Revolta dos Malês, destacou-se das demais rebeliões pela profundidade de organização e pela organização intelectual de sua liderança que eram, em sua maioria, africanos islâmicos escolarizados, capazes de ler e escrever em árabe — o que lhes permitia se comunicar sem que os senhores de escravos compreendessem.
Parte decisiva dessa articulação aconteceu secretamente dentro da Igreja dos 15 Mistérios. O pároco do Santo Antônio Além do Carmo, padre Jailson, ressalta a importância do espaço no episódio:
A revolta não aconteceu de uma hora para outra. Houve um tempo de preparação, mobilização, organização, e tudo isso aconteceu no interior dessa igreja, que mobilizou não só os malês, mas vários africanos, vários negros da cidade de Salvador”.
Duas irmandades marcaram a história do templo. A primeira foi a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Quinze Mistérios dos Homens Pretos, fundada em 1811 e responsável pelo nome do espaço; e a segunda foi a Irmandade de Nossa Senhora da Soledade dos Desamparados, criada em 1852.
“Nesta igreja funcionou um espaço de luta por aqueles que não tinham amparo e por aqueles que viviam em condições de escravidão”, resume o padre.
O sonho do pároco, compartilhado pela comunidade de fiéis e moradores do bairro, é que o templo restaurado se torne um memorial das irmandades negras do Brasil — um lugar onde a memória daqueles que marcharam em 1835 possa ser honrada de forma permanente e acessível.
Mais Mistérios
O nome da Igreja e da praça onde ela se inscreve faz referência aos três grupos de Mistérios tradicionais do Terço católico, os Gozosos, Dolorosos e Gloriosos. Mas muitos outros mistérios cercam esse imóvel.
Padre Jailson registra que o templo está fechado há mais de uma década, mas as condições estruturais da Igreja já eram preocupação desde a década de 1990.
Essa Igreja, infelizmente, está fechada há mais de dez anos e toda a sua obra de arte está comprometida. Em 2001, soubemos que a Igreja seria restaurada e que havia um recurso destinado para isso. Mas depois de 25 anos, a Igreja continua abandonada e em estado pior, porque agora está fechada. De modo que nós não temos nem condição de entrar para avaliar o real estado dela”, lamenta Pe. Jailson.
Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
Acervo/Santuário de Santo Antônio Além do Carmo
Em uma reportagem do Jornal A Tarde, datada de novembro de 2000 lê-se o seguinte: “A Igreja dos Quinze Mistérios será reformada com as verbas do Projeto Monumenta BID, desenvolvido pela Companhia de Desenvolvimento do Estado da Bahia (Conder), órgão ligado à Seplantec.
A Reforma prevista acontecerá somente a partir do 2° semestre de 2001, data prevista para que o projeto de reforma de imóveis do Centro Histórico seja enviado ao Ministério da Cultura (Minc). O projeto é uma parceria entre o BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Estado.
A Igreja dos Quinze Mistérios, cuja praça figura em composições de artistas populares como Gilberto Gil, recebeu este nome por conta da confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Quinze Mistérios dos Homens Pretos, criada em 1811.”
No mesmo texto, uma das zeladoras da Igreja comenta que uma reforma no telhado foi feita no ano anterior (1999), por um mutirão de fiéis e paroquianos. Mas a obra que garantiria a restauração da Igreja ficou apenas nas palavras impressas no jornal e o motivo permanece desconhecido.
Sem resposta
A reportagem do BNews procurou o Ministério da Cultura que, por meio da Coordenação-Geral de Comunicação Institucional do Iphan, disse o seguinte: “O Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) informa que a execução das ações do Projeto Monumenta BID referentes às obras da Igreja dos 15 Mistérios, em Salvador, estão sob responsabilidade da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder).
Sugerimos entrar em contato com o órgão responsável”.
O BNews seguiu a rota proposta pelo MinC e procurou a Conder que, por sua vez, informou não ter localizado nenhum número de processo ou indicação do projeto de restauro da Igreja em seus arquivos. Por fim, a Conder informou que procuraria o MinC e o Iphan Nacional para tentar localizar os arquivos.
Até o momento, não houve resposta.
A reportagem também procurou a Superintendência do Iphan na Bahia (Iphan-BA) para tentar entender o projeto e as razões da sua execução ou não. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.
O espaço permanece aberto para as manifestações de todos os órgãos envolvidos.
Movimentações
Durante a última trezena de Santo Antônio, o pároco aproveitou a grande concentração de fiéis para conclamar a comunidade a pressionar os poderes públicos por uma intervenção efetiva. A mobilização segue ativa nas redes sociais, com apelos que ecoam uma demanda que já completa mais de duas décadas.
Para o Padre e a comunidade do Santo Antônio Além do Carmo, a reforma da Igreja é mais do que apenas estrutural e simboliza o resgate e a valorização do passado do povo negro de Salvador que travou uma das lutas mais fundamentais para a Abolição da Escravatura no Brasil.
Eu peço a todos que amam a cidade de Salvador, a todos que amam a cultura, a história, a memória, que possam se mobilizar para que essa igreja não seja demolida e que a memória negra dela seja apagada da história.”, finaliza.