O Direito à Preguiça

Por Carlos I. S. Azambuja

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Uma estranha loucura está possuindo as classes operárias das nações em que reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta em sua esteira misérias individuais e sociais que, há séculos estão torturando a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, a paixão furiosa pelo trabalho, levada ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e de sua prole.

Em vez de reagir contra essa aberração mental, sacerdotes, economistas e moralistas tornaram o trabalho sacrossanto. Cegos e limitados, quiseram ser mais sábios que seu Deus, fracos e desprezíveis, quiseram resgatar o que o seu Deus havia amaldiçoado. Eu, que não professo ser cristão, econômico ou moral, rejeito seu juízo em nome do seu Deus, desde as predicações de sua moral religiosa, econômica, livre pensadora, até as conseqüências medonhas do trabalho para a sociedade capitalista.

Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de todas as degenerescências intelectuais, de todas as deformidades orgânicas. Comparem os puro-sangue das cavalariças dos Rothschilds, tratado por uma criadagem bimana, e a pesada bruta das fazendas normandas, que ara a terra, puxa carroças de estrume, carrega as colheitas.Olhem o nobre selvagem que os missionários do comércio e os comerciantes da religião ainda não corromperam com o cristianismo, a sífilis e o dogma do trabalho, e, em seguida, os miseráveis operadores de máquinas.

Quando, em nossa Europa civilizada, quisermos encontrar um rastro de beleza nativa do homem, é preciso buscá-lo nas nações em que os preconceitos econômicos ainda não desarraigaram o ódio ao trabalho. A Espanha, que infelizmente está degenerando, ainda pode gabar-se de possuir menos fábricas do que temos prisões e quartéis, mas o artista alegra-se ao admirar o atrevido andaluz, moreno como castanhas, reto e flexível como uma vara de aço; e o coração do homem estremece ao ouvir o mendigo, esplendidamente envolto em sua “capa” esburacada, chamar de “amigo” duques de Ossuna.

Para o espanhol, em quem o animal primitivo não se atrofiou, o trabalho é a pior das escravidões. Até os gregos da grande época não tinham senão desprezo ; apenas as escravos era permitido trabalhar. O homem livre somente conhecia os exercícios corporais e os jogos da inteligência. Aliás, era uma época em que se andava e respirava em meio a Aristóteles, Fídias, Aristófanes; era uma época em que um unhado de bravos esmagava, em Maratona, as hordas vindas da Ásia, a qual Alexandre logo conquistaria. Os filósofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre, e os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos deuses.

Em seu sermão da montanha, Cristo apregoou a preguiça: Contemplem o crescimento dos lírios nos campos, não trabalham, nem fiam e, entretanto, digo-lhes, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho.
Jeová, o Deus barbudo e rebarbativo, deu a seus adoradores um supremo exemplo de preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, descansou por toda a eternidade.

Em contrapartida, para quais raças o trabalho é uma necessidade orgânica? Os ouvergnats(nascidos na região de Auvergne, no centro da França), os escoceses, esses ouvergnats das Ilhas Britânicas, os galegos, os ouvergnats da Espanha, os pomerânios, esses ouvergnats da Alemanha, os chineses, os ouvergnats da Ásia. Em nossa sociedade, quais classes amam o trabalho pelo trabalho? Os camponeses proprietários, os pequeno burgueses, uns curvados sobre suas terras, outros agarrados às suas lojas, correm como toupeiras em suas galerias subterrâneas e nunca levantam a cabeça para olhar a natureza à vontade.

E, entretanto, o proletariado, a grade classe que  abarca todos os produtores das nações civilizadas, a classe que, ao se emancipar, emancipará a humanidade do trabalho servil e fará do animal humano um ser livre, o proletariado, traindo seus instintos, ignorando sua missão histórica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. E o castigo veio a cavalo. Todas as misérias individuais e sociais nasceram de sua paixão pelo trabalho.
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O texto acima é de autoria de Paul Lafargue (1842-1911), jornalista, escritor e ativista político francês. Genro de Karl Marx. Lafargue e sua esposa, Laura Marx suicidaram-se em 26 de novembro de 1911. O livro – “O Direito à Preguiça” – onde o texto está publicado, foi editado em 2016.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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