“Paradoxo na calçada da história”, por Marcelo Cavalcanti

*Por Marcelo Cavalcanti

Desde o seu surgimento, como uma povoação de pescadores, sua trajetória tem sido de muitos desafios.
Ao contrário de outras capitais brasileiras e, até, de outros países das Américas, o Recife nunca teve, enquanto urbe, a vida facilitada. Cidades como, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Palmas, Cidade do México, nasceram predestinadas a serem capitais e algumas foram guindadas à condição que hoje ostentam, por circunstâncias fortuitas.

Nosso Recife, entretanto, apesar das substanciais modernidades implantadas pela gestão maurícia, teve que roubar um pelourinho, fazer a Guerra dos Mascates, para ser, em definivo, uma cidade. O porto lhe deu o melhor alento cosmopolita, trazendo hábitos e usos europeus, de vanguarda: dos novos ventos filosóficos, passando pelo trânsito de trupes teatrais e desaguando em uma prostituição disseminada, a nossa Calçada do Atlântico formou-se como uma panela de costumes heterogêneos.

Pois é, foi metrópole quando resto das Américas engatinhava construindo vilas e povoados extrativistas. A substituição da cultura autóctone pela civilização europeia foi acelerada pelo conflito luso-holandês. Ali, a guerra foi parteira da História. Muitas foram as controvérsias. Os historiadores, discípulos de Calabar, argumentam, até hoje, que a permanência dos helvéticos seria vantajosa para o futuro recifense. São especulações vãs. A cidade acabou por se impor como centro comercial e sede decisória da província, por construção, tijolo a tijolo, dos elementos econômicos, políticos e culturais que lhe deram o destaque singular.

Todavia, tudo foi erigido com muito esforço, com o caldo grosso de sangue, suor, cal e pólvora.

Cerco a Olinda e Recife em 1630, mapa de Nicolaes Visscher. Olinda foi saqueada e incendiada pelos holandeses, que escolheram o Recife como a capital da Nova Holanda.

Bem, aqui, também, cabem alguns reparos. Um deles é essa história mal contada de que somos assim, por sermos um “polo multicultural” é estultícia ideológica, que beira estupidez e tergiversa obviedades antropológicas. Afinal, que cultura contemporânea não aglutina diversidades culturais nítidas. Nosso jeito mameluco de ser tem evidentes nuances, que mais que amorenam nossa face. Cristãos, pontilhamos de igrejas toda a planície do delta do Capibaribe. Recebemos o ressoar dos tambores dos terreiros de raíz afro atenuada, vindo dos morros e subúrbios periféricos. A quase sempre presente feição acaboclada de muitos de nós, testemunha as sobrevivências genéticas de comunidades nativas, que foram diluídas pela miscigenação progressiva. Tudo sob uma égide de elementos civilizatórios europeus modernos, contemporâneos.

O Recife, deste modo, constituiu sua vocação cosmopolita, adestrada pela função de capital de província, pragmática pela experiência e interesse comercial e de temperamento irredentista pela necessidade de assumir o seu destino histórico.

Consideramos que as diversas contribuições étnicas foram importantes na evolução do cosmopolitismo recifense. Porém, a tradição portuguesa é tijolo angular e esteio, constituindo o principal modelador da feição afável e plácida da cidade. Nossos bairros mais tradicionais são de semblante neolusitano e como tais, carregam as contribuições adjacentes.

A Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, em 1855 e nos dias atuais.

Como facilmente podemos verificar, o paradoxo chamado Recife é evidente e destacado, menos pelos contrastes em convívio, que pela desarmonia cordial (os “politicamente corretos” odeiam esta expressão), que faz amena a umidade morna das tardes primaveris.

Somos a Foz do Capibaribe cantado em versos ásperos por João Cabral, o firmamento azul – particularmente azul – dos sonetos de Carlos Pena; somos as saudades de Antônio Maria e inspiração da eloquência antropológica multidisciplinar de Gilberto Freyre.

A “Calçada Ilustre do Atlântico” simplesmente é, além de ideários fátuos e afirmações frívolas.
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*Marcelo Cavalcanti é sociólogo, ativista social e dirigente de instituição filantrópica.

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