Pernambuco concentrava estrutura de esquema com bets ilegais investigado pela Operação Conto da Sorte

A Operação Conto da Sorte revelou, nesta quinta-feira (18), uma estrutura de empresas de fachada, fintechs e plataformas de apostas ilegais que tinha Pernambuco como um dos principais pontos de atuação.

Deflagrada pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), com apoio do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Receita Federal e outros órgãos, a operação cumpriu 14 mandados de busca e apreensão, sendo 11 em Pernambuco, nas cidades do Recife, Toritama e Caruaru, dois em São Paulo e um no Ceará.

Durante as diligências, foram apreendidos passaportes, aparelhos eletrônicos, armas de fogo, cerca de R$ 30 mil em espécie e documentos que devem auxiliar no avanço das investigações. Até o momento, ninguém foi preso.

Segundo os investigadores, embora o município de Bodó, no Rio Grande do Norte, tenha sido utilizado como uma espécie de “selo” de legalidade para o funcionamento das plataformas, o núcleo empresarial e operacional do esquema estava em Pernambuco. As empresas eram formalmente registradas no estado, mas parte delas não possuía funcionamento real.

Durante coletiva na sede do MPPE, no Recife, integrantes da investigação detalharam que mais de 30 bets foram credenciadas pela Prefeitura de Bodó por meio da autarquia Lotseridó, criada pelo município. A autorização, segundo o Ministério Público, era irregular, já que municípios não têm competência para regulamentar apostas de alcance nacional.

O promotor de Justiça do MPRN Augusto Lima explicou que o esquema utilizava a estrutura municipal para dar aparência de regularidade a empresas que, na prática, atuavam em todo o país.

“A prefeitura serviu como elemento legitimador dessas bets ilegais. Ela editou uma lei municipal que não poderia ter editado, criou um credenciamento e autorizou mais de 30 bets do Brasil todo. Nenhuma delas tinha relação real com Bodó. Quando declaravam endereço no município, esse endereço era falso ou funcionava apenas como fachada”, afirmou.

Segundo ele, mesmo nos casos em que estados podem autorizar loterias estaduais, a operação precisa seguir limites territoriais. “Não existe uma bet municipal com atuação nacional. Somente a União pode autorizar bets em âmbito nacional”, disse.

Empresas de fachada
A investigação identificou que empresas sediadas formalmente em Pernambuco eram utilizadas para movimentar recursos e ocultar os verdadeiros beneficiários do negócio. Segundo os investigadores, muitas funcionavam apenas como endereços fiscais, sem funcionários ou estrutura operacional.

Augusto Lima afirmou que grande parte das buscas ocorreu em espaços compartilhados, como coworkings, onde diversas empresas estavam cadastradas.

“Nós fizemos muitas buscas de endereços fiscais. Encontramos locais onde existiam registros de várias empresas, mas não havia empresas funcionando de fato, com funcionários e dinâmica empresarial. Eram estruturas usadas para dar aparência de existência a esses negócios”, declarou.

De acordo com o promotor, o esquema tinha diferentes camadas: empresas brasileiras de fachada, plataformas de apostas hospedadas fora do país e instituições de pagamento responsáveis pela circulação dos valores.

A investigação aponta que os sites direcionavam usuários para endereços que dificultavam a identificação dos responsáveis. A suspeita é de que parte significativa dos recursos obtidos com as apostas deixava o Brasil.

Movimentações ocultas
O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou que a investigação também revelou o uso de fintechs como ferramenta para movimentação e ocultação de dinheiro.

Segundo ele, instituições de pagamento digitais passaram a ser utilizadas por organizações criminosas para dificultar o rastreamento dos valores.

“As fintechs foram muito importantes para a inclusão financeira, mas identificamos que algumas passaram a ser utilizadas como instrumento para movimentação de dinheiro ilícito. As chamadas contas-pulsão passaram a funcionar como uma forma de ocultação patrimonial, dificultando a identificação dos reais responsáveis pelos recursos”, afirmou.

Barreirinhas explicou que, após mudanças regulatórias implementadas pela Receita, fintechs passaram a ter as mesmas obrigações de transparência de outras instituições financeiras.

“Nós colocamos luz sobre isso. A partir dessas informações, conseguimos identificar fluxos financeiros que antes ficavam em uma zona de sombra”, disse.

Segundo ele, a Receita já havia identificado o uso desse tipo de estrutura em outros setores e agora amplia o combate às movimentações ligadas às bets irregulares.

Esquema
Durante a coletiva, representantes da investigação afirmaram que a movimentação financeira das empresas pode chegar a dezenas de bilhões de reais. O valor ainda será confirmado após análise dos materiais apreendidos e dados obtidos com quebras de sigilo.

Segundo os investigadores, a cifra não representa necessariamente o total apostado pelos usuários, mas a soma das movimentações realizadas entre empresas, contas e instituições financeiras utilizadas pelo grupo.

A Receita Federal informou que uma das empresas investigadas teria registrado créditos de R$ 4,6 bilhões em 2025. Além disso, a Prefeitura de Bodó afirmou que as empresas credenciadas arrecadaram cerca de R$ 415 milhões em dez meses, com repasse de aproximadamente R$ 8,3 milhões ao município.

A investigação calcula que, considerando o percentual cobrado pela prefeitura sobre a operação, as bets poderiam ter movimentado cerca de R$ 145 milhões no período apenas a partir do credenciamento municipal.

Lavagem de dinheiro
Além da movimentação financeira irregular, os órgãos envolvidos apontam que as plataformas não seguiam regras exigidas para empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda.

Segundo Augusto Lima, as bets investigadas não tinham mecanismos adequados de prevenção à lavagem de dinheiro, controle de publicidade infantil, proteção ao consumidor e medidas relacionadas à saúde mental dos apostadores.

Ele ainda orientou que usuários verifiquem se a plataforma possui autorização oficial antes de realizar apostas.

“O consumidor deve procurar apenas empresas autorizadas. Os domínios terminados em bet.br indicam plataformas reguladas e fiscalizadas. Sites com outros domínios, como .net ou .io, não possuem essa garantia”, afirmou.

A Operação Conto da Sorte contou com a participação de seis promotores de Justiça, servidores dos Ministérios Públicos envolvidos, policiais civis e militares, além de integrantes da Receita Federal e da Secretaria de Prêmios e Apostas.

A investigação continua para identificar outros envolvidos e dimensionar o total de recursos movimentados pelo esquema.

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