Saiba como identificar a violência obstétrica e veja se você também é vítima

[Saiba como identificar a violência obstétrica e veja se você também é vítima]

A violência obstétrica é definida como atos violentos, físico ou psicológico, durante o período de gestação, em situação de abortamento, no parto e pós-parto, segundo definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Dossiê Violência Obstétrica – Parirás com Dor, elaborado pela Rede Parto do Princípio.

A defensora pública Viviane Luchini explica que o grande entrave na discussão sobre o assunto é o desconhecimento. “A gente está tentando levantar essa temática, esclarecer as mulheres o que acontece e apontar isso aí, para elas identificarem e denunciar. O primeiro passo é identificar”.

Pensando nisso, a Defensoria Pública elaborou um material em que dá dicas de como saber se a gestante foi vítima de violência obstétrica em que cita alguns exemplos e explica como proceder para denunciar. A ideia é que o folder seja divulgado nos eventos sobre a temática, em alguns hospitais e lugares em que trabalhem com as gestantes, o público alvo.

Na segunda matéria da série, o BNews traz alguns exemplos de violência obstétrica:

– Não informar sobre os procedimentos que serão adotados pelos profissionais de saúde;

– Raspagem dos pelos pubianos;

– Deixar a mulher de jejum;

– Levar o bebê para longe da mãe após o nascimento;

– Forçar a mulher a deitar de costas durante o trabalho de parto;

– Realizar cesariana eletiva sem indicação clínica;

– Impedir a realização da amamentação;

– Impedir a presença de acompanhante de livre escolha da gestante, desde a admissão até a alta;

– Questionamento, negativa ou demora no atendimento à mulher em situação de abortamento;

– Ameaças, mentiras, piadas, humilhações e desrespeito a seus padrões culturais.

Apesar de serem considerados exemplos de violência obstétrica o uso de ocitocina, a manobra de Kristeller (pressão na parte superior da arriga da mulher para forçar a saída do bebê) e da episiotomia (corte na vagina),  as porcentagens são muito elevadas, 60%, 56% e 86%, nos partos, segundo a pesquisa Nascer Brasil: Inquérito nacional sobre o parto e nascimento, realizado pela Fiocruz.

Mas, a coordenadora da Câmara Técnica de Ginecologia e Obstetrícia do Cremeb, Tatiana Magalhães Aguiar, afirma que alguns dos procedimentos que são considerados violência obstétrica, na verdade, salvam vidas.  Ela explicou que o jejum, por exemplo, para os obstetras não é violência, pois é necessário para não ter conteúdo gástrico, em caso de alguma intercorrência durante o parto normal, e precisar fazer uma cesárea de urgência.

Tatiana afirmou, ainda, que a raspagem dos pelos pubianos também é feita pensando em uma necessidade de cirurgia.  “Sendo necessário um corte vai fazer a raspagem na hora? Existe o risco de infecção”, explicou.

“Isso salva vidas, então o que salva vidas não pode ser violência. A gente aprende na residência, na faculdade, está preconizado e salva vidas”, afirmou a coordenadora.

Já a ginecologista e obstetra, Nádia Souza Castro, explica que a melhor forma de prevenir a violência obstétrica é discutir com o médico sobre o “plano de parto”, em que a gestante decide quais os procedimentos ela quer ser, ou não quer ser, submetida. Além disso, a paciente deve esclarecer todas as suas dúvidas com o obstetra para saber quais os métodos que são necessários.

A obstetra conta que ainda não teve paciente que tenha solicitado o plano de parto, mas ela tem estudado sobre o assunto e oferecido para a gestante. “O plano de parto é uma excelente forma de discutir o parto, as expectativas da paciente e a realidade do parto”.

Diretrizes de assistência ao parto normal

Em março de 2017, o Governo Federal publicou as diretrizes de assistência ao parto normal no Brasil, em que toda mulher tem direito a definir o seu plano de parto. Essas medidas, segundo o Ministério da Saúde, visam o respeito no acolhimento e mais informações para o empoderamento da mulher no processo de decisão ao qual tem direito.


Foto: Reprodução/Kuara Fotografia

Com o documento, os Centros de Parto Normal passaram a ser considerados locais seguro para o parto de baixo risco, e a possibilidade de ser feito pela enfermeira obstétrica ou obstetriz. “As maternidades também deverão incorporar na assistência: liberdade de posição durante o parto, dieta livre (jejum não obrigatório), presença de doulas, acompanhante, respeito à privacidade da família e métodos de alívio da dor como massagens e imersão em água. Outras recomendações são o contato pele-a-pele imediato com a criança logo após o nascimento; e o estímulo à amamentação”.

O Ministério da Saúde afirmou que com as diretrizes pretende reduzir as altas taxas de intervenções desnecessárias como a episiotomia (corte no períneo), o uso de ocitocina (hormônio que acelera o parto), a cesariana, aspiração naso-faringeana no bebê, entre outras, que deveriam ser utilizadas de forma parcimoniosa, apenas em situações de necessidade.

Foto da defensora: Roberto Viana

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