Sangue sertanejo no tempo do cangaço

A história da vingança de Corisco, o “Diabo Louro”, é um dos episódios mais trágicos e simbólicos da memória sertaneja. Seu enredo nasce da própria violência dos tempos do cangaço, de uma sociedade em que a honra e o poder, a lei e a vingança, se confundiam sob o sol impiedoso do sertão baiano. A origem do conflito remonta à feira de Uauá, onde o jovem Cristino Gomes da Silva Cleto, então um simples mascate, enfrentou a autoridade de Herculano Borges, delegado, homem influente, sobrinho do coronel João Borges de Sá e irmão de Rafael Borges, ambos foram prefeitos de Uauá.
Naquele tempo, a feira era o coração do sertão. Ali se trocavam mercadorias, notícias e desaforos. Acusado de não pagar o imposto de ocupação do solo, Corisco alegou ter quitado a quantia a outro fiscal. O caso, que poderia se resolver em palavras, terminou em desonra. Herculano, sentindo-se afrontado em sua autoridade, mandou prendê-lo e, diante da multidão, humilhou o rapaz com insultos e pontapés. Os soldados completaram o castigo com pancadas e empurrões até o xadrez. O jovem mascate saiu ferido no corpo e na alma, jurando vingança: “Quando eu sair daqui, o sinhô me paga, seu Herculano.”
O cárcere e a humilhação transformaram o homem. Corisco abandonou a vida de mascate, vendeu o pouco que possuía, comprou um rifle e desapareceu nas brenhas, de onde nunca mais voltaria como o mesmo. O que fora um abuso de autoridade plantou a semente de uma fúria que cresceria nas caatingas. Renascia o cangaceiro. Daquele dia em diante, o nome de Herculano Borges passou a figurar entre os marcados para morrer.
Anos depois, o próprio Herculano já não era o mesmo. Deixara o posto de subdelegado e se tornara um pequeno comerciante, levando tecidos e mantimentos em sua tropa de burros pelos caminhos de Jaguarari e Santa Rosa de Lima. Vivendo com simplicidade, talvez acreditasse que o tempo houvesse apagado antigas desavenças. Mas o sertão não esquece. Numa tarde de setembro de 1931, parou à beira de uma cacimba para saciar a sede. O som dos cascos na estrada anunciou o reencontro com o passado. “Levante-se para morrer, que você está com Corisco pela frente”, disse o forasteiro louro, agora temido em todo o Nordeste.
O encontro não teve perdão. Corisco cumpriu a promessa feita anos antes. Herculano foi preso, torturado e morto com extrema crueldade. Ficou a noite amarrado de cabeça para baixo, no outro dia, Corisco pessoalmente tirou a sua pele, arrancou as unhas e dedos, seus homens continuaram o serviço, esquartejaram-no, e espalharam seus restos pelas cercas da Fazenda Bom Despacho. Tempos depois, sua esposa, Dona Ossanta, recolheu os pedaços e lhes deu sepultura digna.
A tragédia de Herculano e Corisco revela dois lados de uma mesma moeda sertaneja. Um homem de autoridade que confundiu respeito com mando e humilhou quem não podia se defender, e outro, que transformou a dor em ódio e respondeu à injustiça com selvageria. Ambos sucumbiram ao mesmo destino, o da violência que alimenta a própria violência.
Na voz dos sertanejos, o episódio ainda é contado como uma lenda. No solo seco das feiras e veredas, a humilhação de um homem pode germinar em tragédia, e o poder, quando se impõe pela força, acaba colhendo o fruto amargo da própria desmedida. A vingança de Corisco não redimiu a injustiça, tão somente a multiplicou. Foi mais um capítulo do sertão onde a lei e a vingança, por muito tempo, caminharam lado a lado.
Texto: Robson Rodrigues
Foto: Arquivo da Família

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