Desenterro de Franco é fato histórico

Considerado um monumento ao fascismo espanhol, o Valle de los Caidos tem as ossadas de cerca de 33 mil combatentes da guerra civil, mas sempre se considerou que Franco não morreu como combatente e não deveria estar lá.

Por Andre Motta Araujo

Neste blog escrevi seis artigos sobre o tema da Guerra Civil Espanhola, assunto que me interessa há mais de meio século, por sua significância histórica como uma prévia da Segunda Guerra Mundial, pela complexidade dos conflitos que ela representou. O maior historiador do conflito, o inglês Hugh Thomas disse que, para entender a Guerra Civil de Espanha, era preciso conhecer a História da Península Ibérica desde as guerras napoleônicas, porque as sementes da Guerra Civil recuavam a 1806.

Além disso, tenho um laço remoto, mas presente, de meu avô paterno, parente de Franco (cujo sobrenome completo era Bahamonde Salgado y Araujo), da mesma região e cidade da Galícia, e outros parentes que lutaram ao lado do chamado “bando Nacionalista” quando a capital franquista era Burgos.

O conflito espanhol marcou também a América Latina, pelo enorme número de exilados, quase todos os intelectuais da Espanha eram anti-franquistas, nomes destacados na letras, na medicina, no direito, na filosofia como Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno, os que não foram fuzilados emigraram em grande número para o México, Chile, Argentina e Cuba, alguns poucos mas valorosos como Emilio Mira y Lopez, médico, para o Brasil.

A vitória de Franco foi o princípio do obscurantismo, da anti-ciência, do combate à cultura, considerada coisa de esquerdista. Um General franquista (Milan Astray) disse que, ao ouvir a palavra cultura, tinha vontade puxar o revólver. O maior poeta espanhol da época, Garcia Lorca foi executado friamente numa beira de estrada por ser poeta e homossexual. As execuções eram banais e diárias, as perdas humanas entre mortos, feridos e exilados da Guerra Civil Espanhola chegaram a um milhão de cidadãos.

O VALE DE LOS CAIDOS

Muito depois do fim do conflito, o Generalíssimo Francisco Franco resolveu se imortalizar e construiu um Mausoléu de horrendo gosto, no meio de montanhas, chamado de Valle de los Caidos, a 40 quilômetros de Madri, ao lado do Convento de El Escorial, onde enterrou soldados dos dois lados do conflito e onde ele próprio, por sua determinação testada, foi enterrado em 1975.

Considerado um monumento ao fascismo espanhol, o Valle de los Caidos tem as ossadas de cerca de 33 mil combatentes da guerra civil, mas sempre se considerou que Franco não morreu como combatente e não deveria estar lá.

O objetivo evidente era se imortalizar como um vencedor e depois pacificador da Espanha.

Mas os ventos democráticos do pós-franquismo e da reconciliação, que ele não previu, não querem Franco lado a lado com suas vítimas, milhares dos mortos da Guerra Civil não foram mortos em conflito, foram executados depois de presos, civis e militares. Os nacionalistas não faziam prisioneiros, 500 mil se exilaram após a queda de Barcelona e Madri com a vitória de Franco em março de 1939, para não serem fuzilados. Após três anos de batalhas e a destruição da economia e da sociedade da Espanha, que se tornou uma ditadura que durou quase 40 anos, um regime no início considerado pró-nazista e aliado de Hitler.

A FAMÍLIA FRANCO

O ditador Francisco Franco foi casado com Carmen Polo, a “Doña Collares”. A esposa de Franco gostava de ir a joalherias das cidades que visitava na Espanha e escolhia os melhores colares, que levava e esquecia de pagar. O casal teve uma única filha, também Carmen, casada com o Marques de Villaverde, faleceu em 2017 com 91 anos e teve seis filhos.

A mais famosa e estrela das revistas espanholas de variedades é Carmen Martinez-Bordiu, que foi casada com o Duque d´Anjou, primo-irmão do Rei Juan Carlos, com quem teve o filho Luis Alfonso, bisneto de Franco e pretendente ao trono da França pela linha legitimista dos Bourbons. Ele é hoje o Duque d´Anjou, casado com Maria Margarita Vargas, filha do banqueiro chavista Victor Vargas Irausquin e herdeira da maior fortuna venezuelana.

Carmen Bordiu foi capa da HOLA incontáveis vezes, figura carimbada do “high” espanhol, teve vários maridos e romances, que faria o avô se revirar no caixão. Franco e dona Carmen Polo eram católicos rigorosos e não admitiam em sua casa pessoas separadas, enquanto a neta aparecia na HOLA, DIEZ MINUTOS E SEMANA de biquini já na madurez. Carmen Rossi é uma mulher moderna, charmosa, divertida e antenada, não está nem aí para a carolice dos avós.

Franco hoje é uma página virada na Espanha liberal e moderna, coisa de um passado remoto. Essas circunstâncias também estão no pano de fundo da exumação de seu cadáver e readequação de sua persona histórica, malvista pela maioria dos espanhóis de hoje, lembrando que a própria Família Real se afastou da memória e até da família de Franco, apesar do Caudillo ter reinstaurado a Monarquia Borbon no trono de que foi apeada na Segunda Republica de 1929.

Após a morte de Franco e já proclamado o Rei Juan Carlos, a viúva Dona Carmen Polo, continuou a residir no Palácio de El Pardo, nos arredores de Madri, residência oficial do Caudillo. Não se mudava de lá apesar dos discretos recados do Governo. Os recados passaram a ser mais diretos, mas dona Carmen, provavelmente, achava que tinha direito eterno a morar no Palácio.

Foi preciso cortar a água e a luz do Palácio para ela se mudar para um apartamento no centro de Madri, no mesmo prédio da filha.

O DESENTERRAMENTO QUE IRÁ ACONTECER NESTA SEMANA

Por uma lei votada nas Cortes, o parlamento espanhol, foi determinada a retirada do corpo de Franco do Memorial do Vale dos Caidos. E ai começou um processo de idas e vindas, judicialização da lei, a família Franco indo aos tribunais para evitar o que para eles seria uma humilhação pública e histórica.

A Suprema Corte constitucional da Espanha deu ganho de causa ao governo por decisão agora inapelável e determinou a exumação de Franco do Valle de los Caidos até o dia 25 de outubro. O caso teve um processamento complicado, com resistência da família Franco e do núcleo de admiradores de Franco que ainda existe na Espanha de hoje.

Mas a decisão foi tomada pela Corte, sem mais espaço de apelação, o desenterro deve ocorrer ainda nesta semana, devendo o caixão ser enterrado no Cemitério de El Pardo, perto do Palácio do mesmo nome, última moradia de Franco.

O Valle de los Caidos está fechado ao público e a imprensa não poderá cobrir o episódio cuja data exata tampouco será informada para evitar manifestações.

O TEMA FUNÉREO NA ESPANHA E NOS PAÍSES HISPÂNICOS

Os países de cultura hispânica têm um traço específico no tema dos funerais, dos túmulos e dos cemitérios. Há uma estranha fixação nesses símbolos da morte, elevados a uma altura que, felizmente, é muito menor nos lusitanos e ainda menor no Brasil, não herdamos esses traços de nossos irmãos ibéricos.

O Cemitério de La Recoleta, em Buenos Aires, é um dos marcos dessa simbologia macabra, onde o corpo de Eva Peron foi cultuado e depois desenterrado e removido, o tumulo servindo como santuário para seus cultuadores. Os hispânicos dão grande importância a esses símbolos, o caso de Franco se insere nesse contexto de símbolos. O desenterro do Caudillo de España por la Graza de Dios, seu título oficial, é centro de uma crise política na Espanha de hoje, que já tem outras e graves crises para cuidar, como a quase impossível formação de um governo e os distúrbios na Catalunha independentista.

Não é preciso dizer que a retirada do corpo de Franco do Memorial, que ele mesmo mandou construir para si, marca um fecho histórico de um período que hoje a Espanha sepultou, basta ver as sessões do Parlamento Espanhol. Poucos usam terno e gravata, o líder do segundo maior partido usa rabo de cavalo, o antigo formalismo da política espanhola foi para o espaço, o Parlamento está cheio de moços e moças, alguns muito jovens. Talvez seja o Parlamento mais jovem da Europa, com grupos e partidos ultra modernos indo e vindo, a Catalunha se rebelando, uma Espanha onde Franco é peça de museu.

AMA

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