Pedro Castillo é favorito para vencer Keiko Fujimori e se tornar primeiro presidente socialista eleito no Peru

A acirrada disputa tem sido marcada pelo debate de uma nova Constituição, pelo fim do “fantasma” do Sendero Luminoso e pelo conservadorismo na pauta de direitos das mulheres e das minorias

Com todas as suas controvérsias e suas propostas ousadas de refundação do Estado Peruano com uma nova Constituição que derrube a carta constitucional da ditadura de Alberto Fujimori, o professor e sindicalista Pedro Castillo é o favorito para vencer as eleições presidenciais de domingo (6) contra Keiko Fujimori, filha do ex-ditador. É o que apontam especialistas ouvidos pela Fórum.

Assumidamente de esquerda, o candidato do partido marxista-leninista-mariateguista Peru Livre ganhou o primeiro turno de forma surpreendente, principalmente com o respaldo de setores mais populares. Em uma eleição hiperfragmentada, ele alcançou mais de 18% dos votos e ocupou a dianteira na apuração. Logo atrás, surgiu Keiko, da Força Popular.

Se foi azarão no primeiro turno, no segundo ele mostrou que seu apoio popular é real e continuou na liderança mesmo após a união em torno de Keiko formada por grupos midiáticos e pelas elites políticas liberais, incluindo o escritor Mário Vargas Llosa. Pesquisas realizadas durante o segundo turno apontam que a maioria dos peruanos busca uma mudança drástica no modelo de país e isso quem verdadeiramente oferece é Castillo.

Professor na província de Cajamarca, ele ganhou projeção nacional quando liderou a greve nacional de docentes de 2017, que paralisou as aulas por três semanas exigindo melhores condições para profissionais de educação. Entre as suas principais propostas está a de convocar uma Assembleia Constituinte com o objetivo de derrubar a Constituição do ex-ditador Alberto Fujimori. O programa do Peru Livre prevê o abandono do neoliberalismo e a construção de uma “Economia Popular com Mercados”, com um forte papel do Estado, além da estatização de reservas.

Para o sociólogo Raul Nunes, do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL) do IESP-UERJ, “Castillo conseguiu tornar factível o debate sobre a mudança do modelo econômico e mesmo a pauta de uma nova Constituição”. A historiadora peruana Alejandra Bernedo, pesquisadora da Universidade Nacional de San Marcos e editora do portal Politeama.pe, acredita que essas eleições mostram que a população “está farta”, apesar de não saber ainda qual modelo pretende seguir.

Já Anjhela Priale, administradora que foi candidata pelo Peru Livre nesse pleito, afirma que uma vitória de Castillo “representaria uma vitória depois de muitos anos do povo, das classes sociais baixas, dos departamentos esquecidos, do setor explorado e maltratado”.

Sobre a proposta de nova Constituição, Priale destaca que “a orientação básica e elementar é recuperar a soberania sobre nosso país e nossos recursos naturais”. “Não administramos nossos recursos e não temos opção para renegociar os contratos das concessões ou criar estatais. Além disso, essa Constituição foi elaborada pela ditadura Fujimori”, aponta.

Apesar das últimas pesquisas IPSOS, IEP e Datum, divulgadas nos dias 28 e 30 de maio, apontarem uma aproximação entre os candidatos, um levantamento realizado já na semana decisiva, após o último debate presidencial, teria mostrado uma recuperação do socialista. Esse levantamento não pode ser publicado abertamente em razão da lei eleitoral peruana, mas jornalistas do país deram “sinais” do resultado em mensagens cifradas.

Quem vai vencer?

Do outro lado da disputa está Keiko Fujimori. Condenada a 30 anos por corrupção, defensora do regime ditatorial do pai – que foi condenado por crime de lesa humanidade e é investigado por promover esterilizações forçadas contra mulheres campesinas e indígenas – e representante da “política tradicional” peruana, a candidata acumula rejeição e parece não ter conseguido reverter essa tendência mesmo com o amplo apoio de liberais e de alguns veículos de comunicação, como o grupo El Comercio, para “limpar sua barra”. Protestos contra ela – “Fujimori Nunca Mais” – foram mobilizados em todo o país, inclusive na capital Lima, onde Keiko tem grande vantagem.

“A vitória de Pedro Castillo é muito provável. As pesquisas mostram empate técnico, mas vale notar que ao longo de todo o segundo turno ele esteve em primeiro lugar, contrariando o padrão de oscilação dos últimos 10 anos. Além disso, Keiko Fujimori perdeu as duas últimas eleições pela força do antifujimorismo. Dessa vez, conquistou parte desses atores, incluindo a imprensa, mas é denunciada na Lava Jato peruana. Sua imagem é muito negativa”, afirma Nunes.

Bernadeo é um pouco mais cautelosa nessa avaliação. “É muito difícil fazer uma previsão, pois os dois candidatos têm uma rejeição muito alta. É muito provável que muitos definam seu voto no dia da votação, diante da cédula, como costumamos dizer aqui no Peru. Há uma campanha muito forte contra Castillo que pode afetá-lo, mas ela foi acompanhada por tantos elogios a Keiko que essa campanha pro-Keiko poderia jogar contra ela. Chegou-se ao ponto de chamá-la de ‘defensora da democracia’, embora apoie a ditadura de seu pai”, diz a historiadora.

O “fantasma” do Sendero Luminoso

Um fato que parecia ser capaz de reverter o cenário aconteceu no Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro (Vraem). Um atentado que deixou 16 pessoas mortas fez ressurgir o “fantasma” do Sendero Luminoso, um grupo guerrilheiro com afinidade com a esquerda que promoveu uma matança de campesinos durante sua incursão pelo interior do país nos anos 80. As Forças Armadas atribuíram à organização esse atentado, mas o grupo que o teria promovido não possui mais vínculo com o Sendero há, pelo menos, dez anos. Essa falta de ligação e a constante utilização do senderismo para queimar a esquerda, parece que não colaram.

“A associação de qualquer personagem minimamente progressista ao terrorismo é uma constante no Peru, eles têm até nome para isso: terruqueo. Mesmo o presidente Sagasti, um liberal, já foi ‘terruqueado’. O massacre atribuído ao Sendero Luminoso na semana passada abriu espaço para as manifestação de sábado contra o terrorismo, mas parece que a repercussão foi residual. Além disso, acusações muito esdrúxulas contra Castillo não pararam desde que ele se mostrou um candidato viável, então não aparece como novidade para muita gente mais. Talvez o ‘terruqueo’ tenha se desgastado”, acredita Nunes.

Para Bernedo, o desgaste do “terruqueo” é um dos pontos altos dessa eleição. “Algo positivo que pode resultar dessa campanha eleitoral é que o medo do rótulo de ‘esquerda’ está parcialmente perdido.  Os crimes do Sendero Luminoso serviam à direita para vincular qualquer movimento esquerdista/progressista ao terrorismo. Agora que isso foi usado como arma dessa campanha eleitoral e tem sido possível discutir claramente sobre o tema, talvez haja mais espaço para que setores se unam para promover lutas sociais e pensem em criar um movimento constitucional que, no futuro (não no próximo governo), proponha uma nova Constituição”, avalia, comentando sobre a pauta da reforma constitucional.

Priale também falou sobre o terruqueo. “Os lutadores sociais são catalogados como narcos, terroristas, comunistas, revoltados, meliantes, delinquentes, vândalos, ladrões… Uma série de características negativas que se distanciam da realidade”, critica.

Governo Keiko Fujimori?

O cenário eleitoral peruano pressionou a uma Keiko mais “moderada”, tentando se distanciar de uma caricatura de extrema-direita – papel que cumpriu o terceiro colocado, Rafael López Aliaga. Para Nunes, não veremos um governo Bolsonaro peruano. “Keiko não é delirante como nosso presidente. Um governo seu, caso se atenha aos limites democráticos, talvez se aproxime mais dos de Ivan Duque e Sebastian Pinera”, apontou.

“O ultraconservadorismo ganhou uma voz no Peru com Rafael Lopez Aliaga, que conseguiu fazer uma bancada relevante e se manterá na política. Qualquer pauta progressista certamente será brecada por essa pressão. Por outro lado, Fujimori foi levada por Castillo a uma guinada na pauta econômica e não poderia apenas manter o modelo”, afirma.

Alejandra, por sua vez, é mais pessimista quanto a um governo Keiko Fujimori e lembra do golpe parlamentar que o país sofreu em 2020. “Alguns analistas acreditam que a ‘mano dura’ de Keiko seria parcialmente regulada, mas, em novembro de 2020, tivemos um governo de fato, com Manuel Merino, que reprimiu manifestantes e oponentes de uma maneira muito violenta”, aponta.

“Tendo vivido essa experiência tão recentemente, não acho que seja impossível para Keiko aplicar a ‘mano dura’ do jeito que ela diz. Além disso, vemos diariamente que a imprensa e os programas de entretenimento do Peru se uniram para fazer campanha em seu favor, e isso nos lembra o controle da mídia exercido por Alberto Fujimori”, pontua.

A historiadora também não espera uma vida muito fácil para Castillo no governo e destaca o racismo que o professor sofreu durante a campanha. “Se Pedro Castillo vencer, será um governo muito fraco no manejo parlamentar, já que o Congresso tem maioria de direita. A gestão da pandemia será um desafio muito importante, principalmente na prevenção e na vacinação. Além disso, algo inegável é o racismo que terá de enfrentar, que ao longo da campanha eleitoral vimos contra ele e seus seguidores nas redes sociais. Ele fala com sotaque regional e certos elementos de uma variante do quíchua: tudo isso está relacionado ao desconhecimento, ao atraso, aos discursos racistas e classistas”, diz.

Lutas sociais, mulheres e minorias

Fórum questionou ainda sobre a possibilidade de acirramento das lutas populares no próximo período em razão de uma eleição tão radicalizada nesse segundo turno e a questão das lutas de mulheres e minorias, que ficaram praticamente fora da agenda das duas candidaturas que foram ao segundo turno. Apesar de Castillo ter recebido apoio de Verónika Mendoza, líder do movimento Novo Peru, evita se aprofundar nesse debate.

“É bastante provável que haja mobilização social em prol de uma nova constituição nos próximos anos, ganhe Castillo ou não. Do mesmo modo, movimentos de mulheres e LGBT também devem se mobilizar bastante, independente do ganhador. Por fim, a direita ganhou as ruas e pode se radicalizar”, afirma Nunes. “O movimento liderado por Lopez Aliaga vai partir para o ataque em termos de gênero e sexualidade, uma das congressistas do partido é uma pastora aliada de Damares Alves”, pontua.

“Contra o pânico moral, devemos assistir à forte resistência de mulheres e LGBT contra retrocessos. Não consigo ver avanço em demandas relacionadas ao aborto e união homoafetiva, por exemplo, seja pela coalizão conservadora de Fujimori, seja pela recusa de Castillo – embora aliados pressionem para tal”, completa.

Bernedo tem uma visão similar e destaca que “no Congresso, quem apoia a luta das mulheres e da população LGBT terá um grande desafio”. “Os coletivos continuarão trabalhando para colocar na mesa a discussão de uma educação para a igualdade, com perspectiva de gênero, para políticas preventivas contra a violência, contra a maternidade infantil e para um acesso justo à saúde reprodutiva”, diz.

A historiadora aponta que “é muito difícil pensar em exigir isso de ambos os candidatos”, mas há uma diferença entre os dois. “Pedro Castillo diz que em uma assembleia você pode discutir políticas que ele pessoalmente não defende (como casamento igualitário) e sua visão em apoio do trabalhador pode ajudar contra as outras desigualdades que as mulheres enfrentam, como a insegurança no trabalho; Keiko Fujimori, por outro lado, não só demonstrou desconhecimento sobre o assunto, mas também defende a imposição de políticas misóginas e racistas como as esterilizações forçadas, além de prometer uma mão forte contra suas rivais. Serão anos em que o povo peruano terá que ser o promotor de seus governantes”, afirma.

Priale, por sua vez, destaca que as lutas populares sempre foram muito fortes no país e frisa que há uma diferença na postura dos dois candidatos. “A vontade de mudança sempre existiu, o problema foi que as elites políticas trabalhavam em conjunto com entidades e empresas corruptas que manipulavam a opinião pública. As lutas sociais são uma realidade permanente no Peru, mas a imprensa oculta essa mobilização”, diz.

“Pedro Castillo é enfático na inclusão e no apoio ativo às minorias. Keiko sequer os menciona – só fala quando promete bonos financeiros. Castillo sustenta que a nova constituição traga a condenação à discriminação e se priorizem os direitos humanos, o que atualmente não aparece. Além disso, defende a capacitação de mulheres e o crédito a projetos. Por parte de Keiko, há propostas populistas e uma estratégia de vitimização dizendo ‘meu opositor é machista’, ‘mulheres devemos estar juntas’, quando, na realidade, buscou evitar que propostas a favor das mulheres fossem aprovadas no Congresso quando seu partido tinha maioria. A mesma candidata que aceita que seu pai tenha cometido crime ao promover esterilizações forçadas…”, destaca.

Urnas serão respeitadas?

Em um momento político tão conturbado, é possível se questionar se a eleição terá seu resultado respeitado. Tanto Nunes quanto Bernadeo acreditam que há risco de uma mobilização golpista promovida pelo fujimorismo, destacando que Keiko não reconheceu a derrota para Pedro Paulo Kucinski em 2016..

“Depois de 5 anos de instabilidade política, é difícil crer que as disputas terminarão nas urnas dessa vez. Em 2016, o fujimorismo tentou ganhar no tapetão, e agora alguns partidos já denunciam fraude eleitoral. Por outro lado, Castillo tem conquistado muito apoio popular e de diversas organizações de base. Um apoio que não é só anti-Keiko. Derrubá-lo seria comprar briga, por exemplo, com os ronderos, que tomam conta da segurança em muitos locais. Lembremos que em novembro de 2020 os peruanos tomaram as ruas e não saíram até derrubar o presidente que se impôs com por um golpe parlamentar”, afirma o sociólogo.

“Algumas personalidades como Vargas Llosa e parte da imprensa já comentam que uma vitória de Pedro Castillo desencadearia um golpe da direita peruana, como se fosse uma consequência lógica e justificada. É irônico que digam isso logo aqueles que repetiram nesta campanha que são os ‘verdadeiros representantes da democracia’. Esperamos que os resultados sejam respeitados”, finaliza a historiadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *