Violência é apontada como vilã no afastamento do torcedor dos estádios

Estadual de 2018 teve a menor média de público nos últimos 15 anos de torneio, com apenas 1.709 torcedores por jogo

Clássico das Multidões foi um exemplo das dificuldades enfrentadas pelo torcedor nos estádios / Diego Nigro/JC Imagem

Clássico das Multidões foi um exemplo das dificuldades enfrentadas pelo torcedor nos estádios
Diego Nigro/JC Imagem
Heitor Nery

Os estádios do futebol brasileiro têm presenciado um fenômeno comum nos últimos anos. Triste. O cenário de arquibancadas vazias em várias praças esportivas nos dias de jogos tem sido rotineiro ao longo dos jogos, seja na capital de cada estado ou no interior. Em Pernambuco, a situação não é diferente. O Estadual deste ano levou um total de 93.968 torcedores nos 55 jogos de sua primeira fase, uma média de apenas 1.709 por jogo, uma das piores já presenciadas nos últimos 15 anos do torneio.

 

Um outro número baixo presenciado no Estadual deste ano é o de pagantes. Até o momento, a média do torneio é de 1.218 pessoas. Para se ter uma comparação, o Campeonato Paulista, que também vem sendo criticado pela ausência de público em seus estádios, possui a maior média de público pagante no Brasil, com 7.751. Pernambuco também fica atrás de outros estados no Nordeste, como o Ceará (2.845) e Bahia (2.631).

O processo de esvaziamento dos estádios aqui em Pernambuco possui vários culpados. Questões como a crise econômica, o enfraquecimento dos campeonatos estaduais e de seus clubes, a questão da mobilidade e o fim do programa “Todos com a Nota” são apontadas como causas do afastamento do torcedor. Mas talvez o maior desses motivos tenha dado as caras justamente na última quarta-feira, durante o clássico entre Sport e Santa Cruz na Ilha do Retiro: a violência. O Clássico das Multidões, partida que teve o maior público do Pernambucano, com 13.218 torcedores, foi um exemplo das dificuldades enfrentadas pelas pessoas que ainda querem visitar os estádios, principalmente nos setores destinados aos visitantes.

As cenas da confusão entre a Polícia Militar e a torcida do Santa Cruz, iniciada após um sinalizador, artefato proibido nos estádios pernambucanos, ser aceso por um torcedor coral. A Polícia Militar foi até o local para apagar o objeto. Uma ação resultou em muita correria, fazendo com que alguns torcedores caíssem na arquibancada e ficassem prensados nas grades de proteção da Ilha do Retiro por conta da avalanche humana. Como resultado, dezenas de torcedores ficaram feridos, levados para o gramado, e posteriormente para unidades de saúde para receberem atendimento médico. Objetos foram arremessados em direção a PM, que respondia com spray de pimenta e balas de borracha no meio da torcida do Santa Cruz. Um episódio que ganhou o mundo e chocou quem estava acompanhando a partida, seja pelo estádio ou pela televisão.

Ouvido dias antes da confusão, na partida entre Santa Cruz e Belo Jardim, o pescador e torcedor do Santa Cruz, Carlos Henrique dos Santos, já havia citado a violência como um fator que tira as pessoas dos estádios de futebol. “São muitas coisas que afastam o torcedor do estádio. Violência, torcedor de organizada, são coisas assim que realmente estão tirando as famílias dos estádios e diminuindo o público. Só o amor pelo seu clube justifica um pouco vir até o estádio”, declarou.

A estudante Laís Amorim, que esteve entre as vítimas do episódio, falou que o acontecimento no último clássico fará com que ela nunca mais volte para a Ilha do Retiro. “Em campo eu vou voltar a ir sim, mas para clássico na Ilha nunca mais. Foi desesperador. Todo mundo tentando correr, várias mulheres chorando, uma agonia”, afirmou a torcedora do Santa Cruz.

FPF minimiza influência da violência

O presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho, afirmou que os números estão dentro do esperado pela FPF, e minimizou o efeito da violência no público do torneio. “Nos cinco anos que estou frente da federação, esse é o primeiro acidente que ocorreu em campo. Nós temos uma estrutura e ferramentas de gestão que são comprovadamente eficientes. Este incidente está sendo analisado porque não houve briga de torcida, houve aparentemente um problema de um torcedor e a intervenção da polícia e, em seguida, o acidente. Vamos analisar com calma, ouvir todos os peritos, e detectar o que aconteceu”, declarou. (JC)

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