Velhinha de Borja vai ganhar dinheiro por destruir afresco

A velhinha espanhola que há um ano destruiu com a melhor das intenções o afresco Ecce Homo, uma imagem de Jesus Cristo pintada no começo do século XX no santuário barroco de Borja, no nordeste da Espanha, vai ganhar dinheiro por sua restauração desastrada, que se tornou notícia mundo afora e vem atraindo turistas para o local.
O retoques de Cecilia Giménez, 82 anos, à obra feita por Elías García Martínez em 1910 foram uma sensação na internet no ano passado, inspirando memes divertidos e uma petição que defendia a conservação da pintura em sua nova versão. “O resultado da intervenção combina inteligentemente o expressionismo primitivo de Francisco de Goya com figuras como Ensor, Munch, Modigliani ou o grupo Die Brücke, pertencente à corrente artística do expressionismo alemão”, dizia o bem-humorado texto assinado por 23.362 personas.
Prova do sucesso, no último ano 57.000 visitantes passaram pelo santuário de Nossa Senhora da Misericórdia para se deixar fotografar junto ao Cristo desfigurado, segundo a fundação que gerencia a igreja e que começou a cobrar 1 euro (1,4 dólar) de cada visitante para financiar a preservação da pintura e suas obras de caridade. Mas lucros ainda maiores são obtidos com os direitos de utilização da imagem em objetos tão variados como canecas e camisetas, uma espécie de licenciação sem autorização da “obra” de Cecilia Gimenez, que agora deve receber uma parte do valor gerado por seu trabalho. Acordo assinado nesta quarta-feira determina que a velhinha de Borja fique com 49% da renda das visitas feitas ao santuário. O restante irá para a fundação que o gerencia, segundo a prefeitura local.
A idosa, que já não é motivo de piada para ninguém, acaba de realizar uma exposição de seus próprios quadros em Borja, mas não tem desejo de ficar rica, explicou seu advogado, Antonio Val-Carreres. “Todos os lucros se destinarão para fins beneficentes”, assegurou. Para Cecilia, agora conhecida como a pior restauradora do mundo, é uma mudança radical. “Agora parece que todo mundo está contente”, comentou a idosa ao jornal local Heraldo de Aragón.
Nem todo mundo, pois os descententes de Elías García Martínez lamentam que a obra desfigurada se conserve intacta invés de ser restaurada para seu estado original. “Esta é a principal discrepência”, explica Ojeda. “Há uma parte que quer a restauração, que certamente agora é impossível, e outra parte que apenas pede que seja retirada de exibição”, explica o advogado. “Eles não querem nenhum benefício econômico, e sim um ressarcimento moral.”
No entanto, a prefeitura de Borja e o advogado de Giménez afirmam estar dispostos a incluir na divisão dos lucros os descendentes do artista original caso um dia eles mudem de ideia. (Veja com France-Presse)



























