O PT de Pernambuco e a dúvida do voo solo

Por: *Maurício Costa Romão

Grande parte da classe política de Pernambuco dá como favas contadas a união do PT com o PSB na eleição majoritária de 2018. Pesariam aí interesses mútuos, ligados (1) ao pleito para presidente; (2) ao tempo local de rádio e TV; (3) à agregação de votos do eleitorado petista à reeleição do governador e (4) ao espaço da chapa majoritária do PSB cedido a integrantes do PT.

A presumível aliança significaria, naturalmente, entoar o réquiem da candidatura própria do PT ao governo estadual defendida por alguns e já com três pré-candidatos assumidos.

Um dos argumentos dos adeptos da candidatura própria é que ela ajudaria a catapultar votos para as hostes petistas no pleito proporcional. É o conhecido lema de que time que não joga não arruma torcida.

Como exemplo da necessidade de dar atenção à ocupação de vagas legislativas, tais adeptos citam a eleição de 2014 para deputado federal em Pernambuco na qual o partido não conseguiu eleger nenhum dos 8 candidatos (vide tabela abaixo).

VOTAÇÃO DO PT PARA DEPUTADO FEDERAL EM PRENAMBUCO (2002 a 2014)

Ano | Votação | Eleitos | Eleitos (sem coligação) | QE
2002 | 499.231 | 3 | 3 | 152.517
2006 | 676.507 | 4 | 4 | 167.571
2010 | 680.581 | 5 | 5 | 178.008
2014 | 384.699 | 0 | 2 | 179.329

Fonte: TSE e cálculos próprios (MCR)

Não resta dúvida de que candidaturas próprias dão visibilidade aos partidos, mormente quando elas são competitivas. Isso pode contribuir para associar os proporcionais ao postulante majoritário, eventualmente alavancando votos para ambos.

Embora possa vir a ser importante, a questão principal da eleição proporcional, todavia, não é o atrelamento à candidatura própria majoritária, mas sim a decisão de o partido disputar o pleito isoladamente ou em coligação. Neste último caso é preciso saber ainda com quem se coligar.

A tabela que acompanha o texto mostra as votações recebidas pelo PT para deputado federal nas últimas quatro eleições no estado. Em todas elas o partido se coligou. Note-se que em 2002, 2006 e 2010 o número de deputados eleitos pela sigla foi de 3, 4 e 5, respectivamente. Se, entretanto, o PT não houvesse celebrado coligações, o número de eleitos seria o mesmo, o que mostra a força do partido.

Nas eleições de 2014, entretanto, a história foi diferente. O PT fez parte de uma chapa composta por seis partidos: PT, PTB, PDT, PSC, PRB e PTdoB.

Esta aliança conquistou 6 cadeiras, sendo 4 delas alocadas ao PTB, que recebeu 465.366 votos, a maior votação do conjunto. As outras duas cadeiras destinaram-se ao PDT (138.156 votos) e ao PSC (107.856 votos), uma para cada sigla.

O PT teve um terço dos votos da aliança (384.699), mas ficou sem nenhuma vaga porque a votação individual de seus oito candidatos foi menor do que a votação de seus companheiros de aliança mais bem situados (os seis primeiros).

Tivesse concorrido isoladamente, o PT elegeria dois parlamentares, Mozart Sales e João da Costa, e ainda teria uma pequena sobra de votos (0,1452 de uma cadeira) para concorrer a uma vaga adicional.

Fica claro, portanto, que a decisão de se coligar passa não só pela expectativa de votos da coligação (que deve ser sempre superior a que o partido almejaria se disputasse isoladamente), mas também, pelo potencial de votos dos candidatos da aliança.

O quociente eleitoral para deputado federal em 2018 não deve variar muito em relação ao das duas últimas eleições em Pernambuco (vide última coluna da tabela). O incremento vegetativo do eleitorado deve ser compensado por um provável ligeiro aumento da alienação eleitoral (maior abstenção e mais votos brancos e nulos), deixando os votos válidos mais ou menos no mesmo patamar de 2010 e 2014 (aproximadamente 4,5 milhões de votos).

Se o cálculo mais realista de expectativas do PT é ter uma votação, no máximo, próxima da de 2014 para a Câmara Federal, então, saindo sozinho, o partido tem alta probabilidade de fazer dois deputados (um, com certeza, diretamente pelo quociente partidário).

Se for se coligar, há que ficar de olho nas votações dos concorrentes individuais dentro do conjunto. Aí pode eleger dois, um ou nenhum.

A direção partidária do PT local tem, como se vê, uma difícil decisão a tomar. Se for se balizar no exemplo local de 2014 e nas estatísticas gerais do partido no Brasil, o horizonte apontaria para o vôo solo. Isso porque, em 2014, o PT elegeu 69 parlamentares federais, disputando sozinho em alguns estados e se coligando em outros. Não tivesse celebrado coligações, teria elegido nada menos que 102 deputados, 33 a mais!

Pesa contra o vôo solo a história das eleições para a Câmara Federal em Pernambuco: nunca, na redemocratização, nas últimas 8 eleições, um parlamentar federal foi eleito sem ser por uma coligação.

*Maurício Romão é professor e economista.

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