Quem vai sentir saudades da autoescola obrigatória?
Sindicato estima que 300 mil trabalhadores dependem da atividade, mas existem mais de 70 milhões de condutores comemorando
Por Donaldson Gomes

Donos de autoescola e profissionais da área dizem que trânsito ficará mais inseguro sem seus cursos Crédito: Arisson Marinho/Arquivo Correio
Algumas centenas de proprietários e profissionais que trabalham em autoescolas baianas se aglomerou na entrada da BYD para tentar apelar ao presidente Lula contra o fim da obrigatoriedade dos cursos de formação para a retirada da carteira nacional de habilitação, na última quinta-feira (dia 9). Os argumentos contrários à mudança vão desde um suposto aumento na insegurança viária a um impacto econômico negativo para mais de 300 mil profissionais e suas famílias, além do fechamento de 15 mil empresas – este último ponto é o que possivelmente levou todos para a porta da montadora.
Até onde se sabe, Lula não deu qualquer bola ao protesto e a tendência é que a mudança entre mesmo em vigor. É muito fácil compreender porque dificilmente o governo federal vai atender o pleito das autoescolas: a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) estima que o custo da CNH deverá ser reduzido em 80%, o que a depender da região do país representa uma economia que pode variar entre R$ 2,5 mil e R$ 3,5 mil. A mesma Senatran calcula que um condutor chega a arcar por até oito meses com os custos da habilitação. Na Bahia, o custo médio é de R$ 3.467,83.
Quando fez a defesa da mudança, o ministro dos Transportes, Renan Filho, afirmou que 20 milhões de brasileiros dirigem sem habilitação. Existe uma consulta pública aberta até o dia 2 de novembro, em que qualquer cidadão pode participar e opinar sobre o assunto, entretanto parece que a consulta é mera formalidade, uma vez que, segundo noticiado em diversos veículos de imprensa, Lula já deu o OK para a mudança. São mais de 70 milhões de condutores no país de um lado – sem contar os 20 milhões não habilitados – e 300 mil profissionais de autoescolas do outro. Dá para imaginar em que direção a balança vai pender.
Na porta da BYD, Cíntia Samara, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Autoescola da Bahia e secretária nacional da União Geral dos Trabalhadores (UGT) para o setor, discursava em um carro de som, dizendo que mais de 300 mil famílias ficarão desamparadas e que o trânsito vai se tornar um ambiente mais inseguro. “Esta medida terá um impacto muito grande na sociedade, é uma violência contra uma categoria essencial. Não se trata só de proteger empregos”, ponderou.
Mas, num contraponto a Cíntia Samara, é importante lembrar que a proposta é que os cursos deixem de ser obrigatórios, não que deixem de existir. E ainda assim, a discussão está focada nas categorias A e B – para condutores de veículos leves e motos. Nada, no entanto, impede que um condutor busque uma autoescola para aprimorar suas capacidades, uma vez que os testes teóricos e práticos continuarão a ser exigidos. Aí, caberá aos centros de formação de condutores se mostrarem necessários e úteis pelo serviço que prestam, e não por uma reserva legal de mercado.
Se a mudança acontecer, não será necessariamente o fim das autoescolas, como o Uber não representou a extinção do serviço de táxis.
Cadê a rodoviária?
A entrega da nova rodoviária de Salvador foi adiada novamente. A conclusão da obra, que deveria acontecer agora em outubro, foi adiada para dezembro. Segundo informações da Casa Civil do governo do estado, o motivo de mais uma frustração no cumprimento da data, foram as chuvas. Parece que ninguém previu a possibilidade de mau tempo nesta cidade tropical. O governo diz que 96% das intervenções já estão concluídas, num avanço de 1% em relação ao estágio em abril deste ano. Pergunta de leigo para os engenheiros de plantão: o que é que há de tão complexo naquela obra? Se não acelerar o ritmo, a entrega, que inicialmente foi prometida para o final do governo Rui Costa, vai acabar entrando em mais um ano eleitoral. Será?
O time de Ancelotti
A goleada do Brasil sobre a Coreia do Sul na última sexta-feira (dia 10) respondeu algumas perguntas sobre o futuro da seleção, mas deixou outras em aberto. O time de Carlo Ancelotti foi implacável e demonstrou em campo a atitude que o treinador pediu dois dias antes: um time unido, comprometido e intenso. “Os jogadores que eu quero no mundial querem vencer, não ser os melhores”, avisou. São de fato coisas diferentes e nem sempre os melhores vencem. A grande pergunta que ficou é onde Neymar se encaixaria neste time? O maior craque brasileiro dos últimos anos enfrenta uma sequência de contusões que o afasta de sua melhor forma física e Carleto já deixou claro o tipo de escolhas que está disposto a fazer.
Olho na arrecadação
Não será desta vez que o governo federal vai enxugar seus gastos para conter o descontrole nas suas contas. Em Camaçari, o presidente Lula avisou que não desistiu de tentar aumentar a arrecadação, mesmo após ter sido derrotado no Congresso Nacional. E o alvo será o setor produtivo, a quem o presidente tratou como “ricaços” em sua fala. “Se o trabalhador pode ser taxado em até 27% no imposto de renda, por que os ricaços não podem pagar 18%. Podem saber que é uma questão de dias”, prometeu.
meme da semana
Dois chefes de estado devem ter ficado inconformados com o Prêmio Nobel da Paz entregue à venezuelana María Corina Machado. O venezuelano Nicolás Maduro, certamente, mas também o americano Donald Trump, que tinha certeza de que ele é quem iria vencer.

“Eu quero meu Nobel”, diz o bebê chorão, numa alusão a Trump, que chegou a fazer alusão à premiação no seu discurso na Assembleia Geral da ONU Crédito: Reprodução
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