DNA de múmia do século 18 revela consanguinidade e tradição xamânica
Estudo realizado na Sibéria revela que a última xamã iacuta era filha de pais parentes e simbolizava a resistência de seu clã contra a cristianização russa

Um novo estudo arqueogenético realizado na Iacútia, no nordeste da Sibéria, revelou que as populações indígenas Iacutos demonstraram uma resistência genética e cultural incomum durante a conquista russa no século 17.
A pesquisa, que analisou o DNA de 122 indivíduos mumificados naturalmente, destaca o papel de uma mulher do século 18 , identificada como uma das últimas xamãs de sua região, cujos pais possuíam um alto grau de parentesco.
Genética e isolamento
Diferente de outros processos coloniais ao redor do mundo, como a ocupação hispânica nas Américas, a conquista da Sibéria não resultou em uma mistura populacional imediata ou em um declínio demográfico drástico. De acordo com informações da Live Science, os dados genéticos mostram que a herança dos Iacutos permaneceu estável desde o século 16 até a modernidade.
Especialistas sugerem que as dificuldades logísticas impostas pelo clima extremo da região impediram uma substituição demográfica por parte dos russos. Além da estabilidade do DNA, os cientistas examinaram o microbioma oral dos remanescentes humanos através da análise de dentes e placa bacteriana.
Embora a introdução de novos produtos pelos colonizadores, como o tabaco e cereais, pudesse sugerir uma mudança biológica, os microrganismos encontrados nas bocas das múmias permaneceram surpreendentemente constantes. Esse dado reforça a tese de que os hábitos e a biologia desse povo resistiram às pressões externas por um longo período.
A última xamã
O caso mais emblemático do estudo é o de uma mulher de aproximadamente 30 anos, chamada pelos pesquisadores de UsSergue1. Sepultada em um caixão feito de tronco de árvore, ela vestia camadas de roupas luxuosas, incluindo um vestido de lã vermelha importada e acessórios tradicionais de xamãs.
A análise laboratorial revelou um detalhe surpreendente sobre sua linhagem, pois seus pais eram parentes de segundo grau, o que aponta para uma união entre meio-irmãos ou tios e sobrinhos. Apesar da consanguinidade ter sido identificada, os pesquisadores esclarecem que essa característica não era um requisito para o exercício do xamanismo.
No entanto, o fato de ela pertencer a um clã poderoso e carregar traços genéticos tão específicos sugere uma tentativa de preservação das linhagens de liderança. A presença de cavalos sacrificados próximos ao seu túmulo confirma seu alto status social e a importância espiritual que exercia em sua comunidade.
Resistência cultural
A existência dessa xamã no final do século 18 prova que as tradições espirituais indígenas sobreviveram muito tempo após o início dos esforços russos para a cristianização da área. Os achados indicam que, enquanto o império tentava impor novos dogmas, grupos locais mantinham seus rituais e estruturas sociais intactos.
Portanto, a descoberta não apenas esclarece aspectos biológicos da história siberiana, mas também funciona como um registro da resiliência dos povos nativos frente à expansão imperial russa. A preservação excepcional dos corpos, permitida pelo solo congelado, possibilitou uma conexão inédita entre os dados biológicos e as tradições orais que já narravam a origem desse povo nos séculos passados.



























