A decapitação de um monarca
Às 10h22 da manhã do dia 21 de janeiro de 1793, um evento de proporções quase inéditas ocorria na França: um monarca absolutista era decapitado em praça pública, diante de uma enorme plateia. As semanas que precederam a execução de Luís XVI, vulgo Luís Capeto, foram bastante tensas para sua esposa, Maria Antonieta, sua irmã, Madame Elisabete, e seus filhos, Maria Teresa e Luís Carlos. Desde o dia 21 de setembro do ano anterior, quando a monarquia foi formalmente derrubada, os títulos de rei e rainha lhes haviam sido tomados.
Na manhã do dia 11 de dezembro de 1792, o rei foi convocado a comparecer à Convenção. Luís seria retirado do convívio da família. Em vão, sua esposa esperou que ele regressasse naquela noite. Enquanto o julgamento durasse, qualquer aproximação seria veementemente negada, exceto no caso do delfim, Luís Carlos. Se fosse da vontade do seu pai, o garoto seria levado até ele, com a condição de não retornar para o apartamento da mãe, o que o rei não concordou.
Por intermédio do valet Cléry, a família trocou votos de “feliz ano novo” no dia 1 de janeiro de 1793. Em algum momento daquele mês, a rainha sabia que a sentença do rei era apenas uma questão de tempo. Às sete horas da noite de domingo, dia 20, finalmente recebeu permissão para vê-lo. Há seis semanas que não se viam. Diante da fisionomia bastante mudada de Luís, Maria Antonieta se preparou para o pior. Apenas quatro dias antes, a pena de morte foi aprovada numa votação bastante apertada.
A família ouviu dos lábios do próprio monarca que havia sido condenado a uma execução pública pela guilhotina. “Diga a ela que a deixo com pesar”, foram suas últimas palavras à mulher com quem compartilhou 23 anos de sua vida. Em seguida, tirou uma mecha de seus cabelos, para que também fosse entregue a Maria Antonieta. Pouco depois das nove horas, o rei partiu para o cadafalso. O rufar dos tambores informou à rainha que ela não veria o marido com vida outra vez. Nenhum dos presos conseguiu tomar o dejejum naquele dia. Instantes depois, a retomada do barulho dos tambores e os tiros de canhão anunciaram a morte de Luís XVI.