Neste dia, 25 de janeiro de 1981 — há 45 anos — a China encerrava simbolicamente um dos capítulos mais traumáticos de sua história recente.
A Justiça chinesa condenava Jiang Qing (“Djiáng Tchíng”), viúva de Mao Zedong, à pena de morte, posteriormente comutada para prisão perpétua. Jiang Qing foi considerada culpada por crimes cometidos durante a Revolução Cultural Chinesa (1966–1976), período marcado por perseguições políticas em massa, expurgos, humilhações públicas e milhões de vidas destruídas.
Figura central da chamada Gang of Four, grupo formado por quatro dirigentes comunistas acusados de liderar e radicalizar a Revolução Cultural, Jiang Qing exerceu enorme influência nos últimos anos do maoísmo. Sem ocupar formalmente os mais altos cargos do Estado, controlava setores-chave da propaganda, da cultura e da censura, promovendo campanhas ideológicas que transformaram arte, educação e vida cotidiana em instrumentos de luta política. Sob seu patrocínio, intelectuais, artistas e dirigentes partidários foram perseguidos como “inimigos do povo”.
O julgamento de Jiang Qing, realizado após a morte de Mao em 1976, serviu para atribuir responsabilidades individuais pelos excessos da Revolução Cultural, ao mesmo tempo em que poupava o próprio Mao de uma condenação direta — preservando sua imagem como fundador do regime. No tribunal, Jiang recusou-se a admitir culpa.
A sentença simbolizou a tentativa do Partido Comunista Chinês de virar a página do radicalismo maoísta e abrir caminho para uma nova era. Já sob a liderança de Deng Xiaoping, a China iniciaria profundas reformas econômicas, abandonando o igualitarismo revolucionário em favor do pragmatismo e do crescimento.
Jiang Qing suicidou-se uma década depois, em 14 de maio de 1991.
Ainda assim, o legado da Revolução Cultural permanece sensível. O julgamento de Jiang Qing não levou a um debate amplo e aberto sobre responsabilidades coletivas, nem a um acerto de contas completo com o passado. Mas, naquele 25 de janeiro de 1981, ficou claro que o regime buscava reconstruir sua legitimidade reconhecendo — ainda que de forma controlada — que a utopia revolucionária havia produzido uma tragédia nacional.