A impressionante biblioteca medieval da Abadia de St. Gallen, na Suíça
A impressionante Biblioteca da Abadia de St. Gallen é um salão barroco com registros antigos valiosos, que sobreviveu por 1.300 anos; confira!

No leste da Suíça, a Biblioteca da Abadia de St. Gallen atravessou 1.300 anos de história e permanece como um dos mais notáveis repositórios de conhecimento da Europa. Instalada em um salão barroco ricamente ornamentado, a biblioteca reúne globos terrestres e celestes, manuscritos medievais, gabinetes de curiosidades e milhares de volumes encadernados em couro. Ao longo dos séculos, sobreviveu a convulsões religiosas e políticas que devastaram outras instituições monásticas no continente.
A chegada à abadia revela a monumentalidade do conjunto arquitetônico: torres imponentes, janelas em arco, claustros de mármore e amplas escadarias que conduzem ao interior. Logo na entrada da biblioteca, uma inscrição em grego chama a atenção: “Psyches Iatreion”, lê-se no frontão rococó acima da porta — expressão que significa “Lugar de cura da alma”. A frase, associada à antiga biblioteca e ao scriptorium do rei Ramsés II em Tebas, no Egito, sintetiza a vocação espiritual e intelectual do espaço.
EXPLORANDO A BIBLIOTECA
No interior, o visitante é envolvido por um ambiente de penumbra controlada, sob um teto adornado por afrescos elaborados. Entre estantes e galerias com varandas, surgem múmias egípcias, fósseis, conchas, moedas e objetos vindos de diferentes partes do mundo. Facas de prata em bainhas de couro da Turquia e sapatos em miniatura da Indonésia convivem com obras dos padres da Igreja, livros litúrgicos e biografias de santos. Também há textos sobre direito, música, medicina, astronomia, gramática, aritmética, retórica e poesia secular, evidenciando a amplitude temática do acervo, repercute a BBC.
“Incrível, não é?”, disse Albert Holenstein, diretor do Centro de Patrimônio Cultural Eclesiástico da Biblioteca da Abadia de St. Gallen. “É impossível não se maravilhar com a coleção. É uma fonte abundante de conhecimento. O mosteiro não era apenas um local religioso, mas também uma instituição educacional e um repositório de conhecimento, o que ajuda a explicar a profundidade de nossa coleção.”

As origens da biblioteca remontam ao início do século 7, quando o missionário irlandês São Gallen (que também pode ser chamado de São Galo, em português) fundou um eremitério no local. A construção atual data de 1767, quando o salão barroco substituiu a estrutura original. Ainda assim, a continuidade histórica é considerada notável. Hoje, a biblioteca e dois grandes depósitos subterrâneos guardam cerca de 160 mil manuscritos e obras impressas antigas. Entre eles, destacam-se mais de 2.100 códices medievais, sendo aproximadamente 400 anteriores ao ano 1000.
A instituição abriga ainda a maior coleção de manuscritos irlandeses da Europa continental, trazida por peregrinos irlandeses na Idade Média. Outro núcleo de grande relevância reúne textos em alto alemão, contendo os primeiros registros escritos da língua. Cada volume carrega uma trajetória própria, compondo um conjunto que expressa o valor espiritual e cultural da palavra escrita.
PASSADO PRESERVADO
A preservação desse patrimônio ao longo dos séculos é vista como um dos aspectos mais extraordinários da biblioteca. Enquanto outros mosteiros tiveram seus bens confiscados — como ocorreu na Inglaterra sob Henrique VIII e durante a Revolução Francesa —, o acervo de St. Gallen permaneceu praticamente intacto. Mesmo entre 1797 e 1805, quando a abadia foi dissolvida, os livros foram protegidos e resgatados pela denominação católica no recém-criado Cantão de St. Gallen.
“Pode-se dizer que St. Gallen teve muita sorte“, disse Holenstein. “Muitos de nossos manuscritos originais ainda estão no local onde foram escritos, estudados e conservados por milhares de anos. Muitos dos nossos manuscritos originais ainda se encontram no local onde foram escritos, estudados e conservados durante milhares de anos.”
A biblioteca integra um conjunto urbano que preserva a atmosfera medieval. A Cidade Velha, exclusiva para pedestres, desenvolveu-se ao redor do mosteiro e apresenta pátios internos, ruas de paralelepípedos e tabernas históricas conhecidas como Erststockbeizen, instaladas no primeiro andar de edifícios antigos. Fora do centro, os lagos Drei Weieren, criados pelo mosteiro no século 17 para suprir necessidades de água, hoje funcionam como áreas de lazer.

Atualmente, cerca de 190 mil visitantes passam anualmente pela biblioteca, número superior ao de peregrinos religiosos. O turismo tornou-se elemento fundamental para a manutenção do espaço, refletido inclusive na loja de lembranças instalada no local.
“O encontro da vida espiritual com a secular gera um conflito em um mosteiro em atividade”, disse ele. “Por sua própria natureza, mosteiros e abadias são lugares restritivos. Mas muitos estão enfrentando dificuldades, e o turismo é uma das soluções para ajudar a manter essas instituições culturais vivas.”
Para preservar o delicado piso de madeira envernizada, os visitantes devem calçar chinelos de feltro disponibilizados na entrada — há apenas 100 pares, limite que também ajuda a controlar o fluxo e proteger o acervo.
Em uma era marcada pela predominância de meios digitais, a Biblioteca da Abadia de St. Gallen permanece como testemunho físico da transmissão do conhecimento ao longo dos séculos. Entre afrescos, códices e globos antigos, o passado continua acessível no coração de uma abadia que atravessou mais de um milênio.



























