Ezequiel Simone: O passado anarquista do primeiro presidente da história do Palmeiras
A fundação do Palmeiras em 1914 foi conduzida por Ezequiel Simoni, gráfico e militante anarquista que viu no futebol um espaço de afirmação operária

A historiografia oficial do futebol brasileiro, muitas vezes higienizada por décadas de elitização, costuma apresentar a fundação dos grandes clubes como atos de puro civismo ou lazer associativo.
No entanto, o nascimento do Palestra Italia — hoje Sociedade Esportiva Palmeiras — em 26 de agosto de 1914, carrega em sua certidão de nascimento uma carga ideológica profunda: o anarquismo.
No centro dessa questão está Ezequiel Simoni, o primeiro presidente eleito do clube, cuja trajetória política é o elo perdido entre o esporte de massas e o movimento operário de São Paulo no início do século 20.
Ezequiel Simoni: O operário intelectual
Para compreender quem foi Ezequiel Simoni, é preciso entender o contexto da capital paulista na década de 1910. Simoni não era um industrial ou um diplomata; era um operário gráfico.
Naquele período, a categoria dos gráficos representava a elite intelectual do proletariado. Eram eles que manuseavam os tipos de chumbo que imprimiam não apenas os grandes jornais, mas também os panfletos libertários que circulavam pelos tradicionais bairros do Brás, Mooca e Bexiga.
A militância de Simoni estava inserida no anarcossindicalismo, vertente que pregava a organização direta dos trabalhadores sem a mediação de partidos ou do Estado.
O historiador e jornalista Fernando Galuppo, uma das maiores autoridades na história do clube, detalha esse perfil em diversas intervenções e em sua obra de pesquisa.
Segundo Galuppo, o nascimento do Palestra Itália respondeu a uma lacuna de representatividade: a classe trabalhadora imigrante não se reconhecia na elite da colônia, representada por instituições como o Circolo Italiano. O clube surgiu, portanto, como um espaço de afirmação do proletariado.
O Palmeiras tem uma raiz étnica profunda, da qual se orgulha e da qual ele mantém essa chama acesa, mas nunca foi excludente”, diz em entrevista ao portal Jornalismo Júnior (USP).
Imprensa Operária
A confirmação da inclinação ideológica de Simoni também reside em outros registros da imprensa operária da época.
Em 1980, a historiadora do teatro Maria Thereza Vargas, em publicação sobre o Teatro Operário, registrou a participação de Simoni em um evento teatral organizado por anarquistas. Na ocasião, ele teria declamado um monólogo em versos intitulado “Digene”.
A informação está presente na edição de 19 de setembro de 1909 do jornal anarquista La Battaglia, editado pelo italiano Oreste Ristori e que tinha circulação pela capital paulista da época.
O La Battaglia era tido como o pulmão das ideias libertárias em São Paulo e servia de ponto de encontro para a comunidade italiana radical.
Simoni e a fundação do Palestra
Quem corrobora com a importância de Ezequiel Simoni é o historiador e professor Micael Zaramella, autor da dissertação de mestrado “O Palestra Italia em disputa: fascismo, antifascismo e futebol em São Paulo (1923-1945)” (FFLCH-USP, 2021) e do livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras”.

Em pesquisa compartilhada com a equipe do Aventuras, Micael resgata relatos da época, como a do jornal Fanfulla, que aponta que Simoni foi o responsável pela condução da reunião de fundação do clube Palestra Italia, ocorrida em 26 de agosto de 1914.
Nesta mesma ocasião, foi escolhido pelos presentes para ocupar a presidência da agremiação, em uma decisão motivada pela ampla experiência associativa prévia de Simoni”, diz Zaramella via e-mail.
Essa tal “experiência” do presidente, segundo apurado por Micael em suas pesquisas, vinculava-se, sobretudo, ao seu envolvimento com atividades culturais do movimento operário e anarquista da época.
A ocupação de Ezequiel Simoni também é descrita por Edgar Rodrigues, outro importante historiador e arquivista do movimento libertário. Em seu livro de 1969, “Socialismo e sindicalismo no Brasil”, o pesquisador aponta que documentos vinculam Simoni a entidades como o Grupo Libertário Germinal e a Federação Operária de Santos.
Nestas instituições, Ezequiel Simoni teria feito apresentações de conferências ao lado de importantes militantes, como Eládio Cesar Antunha, Luiz Lascala, Romão Gens, entre outros.
Palestra proletariado
O jornalista e escritor José Roberto Torero reforça essa origem proletária, apontando que o Palestra não era o clube da colônia rica. O clube da colônia rica era o Circolo Italiano. O Palestra era o clube dos carpinteiros, dos sapateiros e dos gráficos, como Ezequiel Simoni.
Essa distinção é fundamental. Enquanto o Circolo Italiano — que inicialmente negou apoio à fundação do clube — representava a burguesia imigrante que buscava integração com a elite paulistana, Simoni e seus pares viam no futebol uma forma de “associativismo de classe”.
Vale mencionar também, conforme pontuado ao AH por Micael Zaramella, que depoimentos concedidos por Vincenzo Ragognetti — que participou da fundação do Palestra Italia —, que foram recuperados pelo jornalista Nelo Rodolfo no livro “Palmeiras minha vida é você” (2015), citam Simoni como o mais velho e experiente do grupo que participou da fundação do Palestra Itália.
Ezequiel Simoni teria colaborado com orientações práticas sobre como fundar uma agremiação. No entanto, segundo o próprio Ragognetti, o primeiro presidente palestrino não entendia “patavina de futebol”.
Rodolfo, há de se pontuar, apresenta Simoni como anarquista e autor de obras anti-monarquistas, embora não indique referências mais detalhadas a respeito”, pontua Zaramella.
Mandato relâmpago
Ezequiel Simoni ocupou a presidência entre 26 de agosto de 1914 a 25 de outubro de 1914. Sua saída abrupta é, frequentemente, tratada como um detalhe administrativo, mas historiadores sociais apontam para um conflito de princípios.
O anarquismo de Simoni colidia com a necessidade de institucionalização. Para competir na APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), o clube precisava de estatutos rígidos, registros cartoriais e uma hierarquia formal — elementos que feriam a visão libertária de autonomia e horizontalidade.
A transição para Augusto Vaccari (o segundo presidente) marcou uma mudança de perfil: enquanto Simoni representava a “fumaça das fábricas”, as gestões seguintes aproximaram o clube de figuras com maior trânsito institucional e financeiro.
O apagamento histórico
Durante o período da Ditadura de Getúlio Vargas e, posteriormente, no Regime Militar de 1964, a imagem de um “presidente anarquista” não era conveniente. O termo foi, por décadas, sinônimo de “desordeiro” nos registros do DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social).

Somente a partir da década de 1990, com a abertura de arquivos como o Arquivo Edgard Leuenroth (Unicamp), é que pesquisadores puderam cruzar os nomes da fundação do Palmeiras com os registros de militantes sindicais.
O resgate da história de Ezequiel Simoni ajuda a entender que o Palmeiras foi, em sua gênese, um projeto de resistência cultural e política do imigrante trabalhador contra a exclusão social.

























