Milagre do Sol: a profecia divina que previu a queda da União Soviética? Entenda!
Aparições relatadas em 1917 na cidade de Fátima, em Portugal, ganharam dimensão política, influenciaram o anticomunismo e alimentaram mistérios no Vaticano

Em maio de 1917, três crianças portuguesas afirmaram ter testemunhado um episódio que transformaria para sempre a pequena localidade de Fátima, em Portugal, em um dos principais centros de peregrinação católica do mundo e em um símbolo com forte repercussão política ao longo do século 20. Lúcia dos Santos, de 10 anos, e seus primos Francisco e Jacinta Marta, mais novos, disseram ter visto uma aparição da Virgem Maria em um campo onde cuidavam de ovelhas, no dia 13 de maio daquele ano.
Segundo o relato das crianças, a figura luminosa surgiu sobre um carvalho e pediu que elas retornassem ao mesmo local, sempre no dia 13 de cada mês e no mesmo horário, durante os cinco meses seguintes. Além disso, teriam recebido três revelações, que mais tarde ficaram conhecidas como os “segredos de Fátima”.
Duas dessas mensagens foram divulgadas ao público relativamente cedo, enquanto a terceira permaneceu envolta em mistério durante décadas, guardada em segredo pelo Vaticano. A existência desse chamado “terceiro segredo de Fátima” ajudou a ampliar o fascínio em torno das aparições e transformou o santuário em um ponto central não apenas da devoção religiosa, mas também de debates políticos e teorias conspiratórias.

Milagre do Sol
A última das aparições teria ocorrido em 13 de outubro de 1917 e atraiu milhares de pessoas ao local. O episódio ficou conhecido como o Milagre do Sol. Testemunhas relataram ter visto fenômenos extraordinários no céu, além de curas e manifestações consideradas sobrenaturais.
Em entrevista concedida ao programa Newsnight, da BBC, em 1992, Francisco Ferreira Rosa, que afirmou ter presenciado o evento, descreveu a cena: “Tudo o que vi foram os planetas no céu em muitas cores. Foi um milagre”. Ele acrescentou: “Então pareceu haver uma chuva de flores caindo do céu. Era como uma nevasca. E então o Sol começou a girar cada vez mais rápido como uma roda de fogo. Durou cerca de meio minuto. No final, estava girando muito rápido.”
Relatos da época também mencionavam que pessoas doentes teriam sido curadas e que cegos teriam recuperado a visão. Segundo o livro ‘Fátima: o Grande Sinal’, de Francis Johnston, publicado em 1980, o jornal português antirreligioso O Século estampou a manchete “Evento aterrador! Como o Sol dançou ao meio-dia no céu de Fátima”, e ao menos 50 mil pessoas teriam estado presentes.
Até hoje, o episódio divide opiniões entre aqueles que o consideram um milagre, os que o interpretam como uma alucinação coletiva e os que defendem a hipótese de um fenômeno meteorológico incomum. Para muitos dos presentes, no entanto, o impacto foi profundo. “Todos sabem que eu já tinha fé. Mas depois disso, passei a acreditar ainda mais”, disse Rosa à BBC em 1992. “Eu não estava com medo, mas muitas pessoas, quando viram o Sol girando daquele jeito, ficaram com medo. Quando algo assim acontece, você precisa acreditar e ter fé.”
Segredos e anticomunismo
Poucos anos depois das aparições, Francisco e Jacinta morreram durante a pandemia da Gripe Espanhola, deixando Lúcia como a única responsável por transmitir as mensagens atribuídas à Virgem Maria. O primeiro segredo tratava de uma visão do Inferno e foi posteriormente associado a uma suposta profecia da Segunda Guerra Mundial.
Já o segundo segredo, revelado pouco antes da Revolução de Outubro na Rússia, afirmava que, se orações fossem dedicadas à Virgem, o país seria salvo do comunismo. Essa mensagem ganhou força especialmente após a ascensão do regime soviético e, mais tarde, durante a Guerra Fria.
Inicialmente cauteloso em relação à crescente popularidade de Fátima, o Vaticano reconheceu oficialmente as profecias apenas em 1930. Sob a ditadura de António de Oliveira Salazar em Portugal, a antiga aldeia rural consolidou-se como um dos principais santuários marianos do catolicismo no século 20.
A Via Penitencial, caminho de mármore percorrido de joelhos por muitos peregrinos até a Capela das Aparições, tornou-se um símbolo da devoção no local. No entanto, além da dimensão religiosa, Fátima passou a ser associada também a uma forte mensagem anticomunista.
Segundo o teólogo Michael Walsh, em entrevista à BBC em 1992, essa dimensão política alterou significativamente o significado original das aparições. “O verdadeiro problema com Fátima é a mensagem sobre Nossa Senhora, que se desenvolveu na década de 20, sobre o anticomunismo de Fátima… tornou-se quase uma força divisiva na Igreja.”
Essa associação se intensificou durante o pontificado de João Paulo II. Em 13 de maio de 1981 — data que coincidia com o aniversário da primeira aparição em Fátima — o papa foi baleado na Praça de São Pedro, no Vaticano, enquanto estava em seu papamóvel. Ele sobreviveu ao atentado e passou a atribuir sua recuperação à proteção de Nossa Senhora de Fátima.

Em suas memórias publicadas em 2005, João Paulo II afirmou que “alguém mais arquitetou o atentado”, alimentando especulações sobre um possível envolvimento soviético. A liderança da URSS via o papa como uma ameaça, especialmente por seu apoio ao movimento Solidariedade, na Polônia. Documentos recuperados da antiga Alemanha Oriental em 2005 apontaram que a inteligência militar soviética teria iniciado um plano para assassiná-lo, embora os russos tenham negado essa versão.
A ligação entre João Paulo II e Fátima reforçou ainda mais o simbolismo político do santuário. O papa visitou o local duas vezes, e uma das balas retiradas de seu corpo foi colocada junto aos diamantes da coroa de ouro da estátua da Virgem Maria, conforme repercute a BBC.
Terceiro segredo
Enquanto isso, o mistério em torno do terceiro segredo permanecia. Lúcia o escreveu em 1944 e pediu que ele só fosse revelado após 1960. Guardado em um envelope lacrado no Vaticano, o conteúdo tornou-se objeto de intensa especulação.
Teorias apontavam para previsões de uma terceira guerra mundial ou de um grande evento apocalíptico. A demora em sua divulgação contribuiu para greves de fome, protestos e até o sequestro de um avião por um devoto que exigia a revelação.
Somente em 2000 o Vaticano tornou público o texto, descrevendo-o como uma visão relacionada ao atentado sofrido por João Paulo II em 1981, em que um homem “vestido de branco… cai no chão aparentemente morto”.
Na ocasião, cerca de 500 mil fiéis reuniram-se em Fátima para acompanhar o anúncio. Ainda assim, muitos consideraram a revelação decepcionante. O New York Times comparou o momento à confirmação de uma obviedade, e algumas testemunhas classificaram o conteúdo como uma “revelação feita sob medida”.
Mesmo após a divulgação, as interpretações sobre a relação entre Fátima e o colapso da União Soviética continuaram. Alguns apontaram que, após João Paulo II consagrar a Europa Oriental ao Imaculado Coração de Maria, em 1984, Mikhail Gorbachev assumiu a liderança soviética e iniciou a Perestroika.

Joseph Ratzinger, então cardeal e futuro Papa Bento XVI, buscou conter interpretações apocalípticas ao afirmar que “nenhum grande mistério é revelado, nem o futuro é desvendado”.
Já Michael Carroll, autor de ‘O Culto da Virgem Maria: Origens Psicológicas’, destacou que a dimensão política foi construída posteriormente. “Os relatos originais simplesmente diziam que a Virgem pedia às pessoas que rezassem pela ‘conversão do mundo’”, afirma. “Foi somente mais tarde, no final da década de 1920, que Lúcia (então em um convento) revisou a história e sugeriu que a Virgem havia pedido às pessoas que rezassem pela ‘conversão da Rússia’.”
Ele conclui: “Não há dúvida de que a Igreja, especialmente no período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, usou as aparições de Fátima em sua luta contra o comunismo. Isso contribuiu para o colapso da União Soviética? Deixando Fátima de lado, a oposição da Igreja ao comunismo em geral provavelmente desempenhou um papel nesse colapso, mas também é provável que uma série de outros fatores também tenham contribuído.”
Mais de um século depois, Fátima continua reunindo multidões e permanecendo no centro da fé popular e do imaginário político. Após a morte de Lúcia em 2005, aos 97 anos, Portugal decretou um dia de luto e suspendeu a campanha eleitoral; e em 13 de maio de 2025, cerca de 270 mil fiéis voltaram ao santuário para marcar o aniversário da primeira aparição, demonstrando que o impacto daquele episódio de 1917 ainda permanece vivo.

























