Pintura renascentista esteve no apartamento de Hitler em Munique

Obra ‘Cupido Reclamando com Vênus’, de Lucas Cranach, o Velho, hoje está na National Gallery de Londres; mas antiga fotografia revelou que ela já passou por residência de Hitler

‘Cupido Reclamando com Vênus’, de Lucas Cranach, o Velho, e fotografia de Adolf Hitler / Crédito: Divulgação/National Gallery de Londres / Getty Images

Uma fotografia encontrada em um antigo catálogo de leilões ajudou a esclarecer parte da trajetória de “Cupido Reclamando com Vênus”, pintura renascentista de Lucas Cranach, o Velho que hoje integra o acervo da National Gallery, em Londres. A imagem mostra a obra pendurada no antigo apartamento de Adolf Hitler em Munique, reforçando a ligação entre o ditador nazista e a peça do século 16.

A fotografia em preto e branco foi localizada em um catálogo de móveis publicado em 1978. À primeira vista, trata-se apenas do registro de uma sala elegante, com lustre, lareira e móveis alinhados. No fundo, ao lado de uma porta alta, aparece discretamente a pintura inclinada na parede.

O detalhe ganhou importância porque o imóvel retratado era o número 16 da Prinzregentenplatz, antiga residência de Hitler em Munique, adquirida com apoio financeiro obtido a partir das vendas de seu livro “Mein Kampf”. A historiadora de arte Birgit Schwarz encontrou a fotografia enquanto pesquisava a coleção pessoal de arte do líder nazista, identificando ali a presença de “Cupido Reclamando com Vênus”.

A descoberta é considerada até agora a evidência mais forte da relação direta entre Hitler e a obra de Cranach. Ainda assim, permanecem dúvidas sobre como a pintura foi adquirida pelo ditador e qual foi exatamente seu percurso entre o fim da Segunda Guerra Mundial e sua chegada ao museu londrino, em 1963.

“Continuamos a acolher com agrado qualquer informação adicional relacionada com a pintura, no âmbito desta investigação em curso e de longa data”, afirmou um porta-voz da galeria em comunicado ao The Times, de Londres.

Histórico da obra

A pintura apresenta Cupido, o deus do amor erótico, segurando um favo de mel roubado enquanto reclama das picadas de abelhas à sua mãe, Vênus, deusa do amor. Em vez de consolar o filho, Vênus encara diretamente o observador. Ao fundo, uma macieira remete ao Jardim do Éden e ao simbolismo do fruto proibido.

A obra é considerada uma das peças mais expressivas do pintor alemão. Ela “mostra Cranach no seu melhor, quando trabalhava na corte saxônica”, disse Susan Foister, então diretora de coleções da National Gallery, ao The Guardian em 2008. “Há a bela mulher, quase nua, com seu maravilhoso chapéu emplumado, a fabulosa paisagem ao fundo e a encantadora figura de Cupido em primeiro plano.”

O quadro foi leiloado em Berlim em 1909, mas há poucas informações sobre seu paradeiro nas décadas seguintes. Pesquisadores apontam que Hitler pode tê-lo adquirido por volta de 1935, possivelmente por meio de venda forçada ou apreensão de um colecionador judeu.

O jornalista britânico George Ward Price, que afirmou ter visitado a residência de Hitler, escreveu que o líder nazista havia “recentemente adquirido um Cranach e dois Bruegels para seu apartamento em Munique”. Posteriormente, Schwarz também encontrou um álbum fotográfico da coleção de arte de Hitler contendo uma imagem da mesma pintura.

Após o fim da guerra, em 1945, a trajetória da obra tomou outro rumo. A jornalista americana Patricia Lochridge foi nomeada “prefeita por um dia” de Berchtesgaden, cidade próxima à fronteira com a Áustria. Ela relatou a experiência em uma revista da época e mencionou ter sido responsável pela segurança de obras de arte roubadas armazenadas na região.

Em Unterstein, vila vizinha onde Hitler mantinha mais de mil obras saqueadas — possivelmente destinadas a um futuro museu idealizado por ele — Lochridge escreveu: “Como governador, descobri que também era responsável pela segurança das obras de arte roubadas de Göring, avaliadas em 100 milhões de dólares.”

Segundo o filho dela, Jay Hartwell, essa responsabilidade terminou com uma espécie de recompensa inesperada. “Disseram à minha mãe que ela podia entrar no armazém e escolher qualquer peça que quisesse. Ela então contrabandeou a pintura para os Estados Unidos”, afirmou.

Posteriormente, a obra foi adquirida pela Galeria Silberman, em Nova York, e depois vendida à National Gallery, em Londres. Segundo investigações citadas pela imprensa especializada, a procedência da peça pode ter sido falsificada nesse processo, o que mantém aberta a apuração sobre sua verdadeira história, repercute a Smithsonian Magazine.

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