Na manhã de 19 de maio de 1536, uma mulher inocente era morta na Torre de Londres.
Pela primeira vez na história, uma rainha da Inglaterra ia ser decapitada. Mas Henrique VIII não queria plateia. O espetáculo era privado.
Quem estava lá? Thomas Cromwell, o homem que armou a queda dela. O Lorde Chanceler. O arauto Wriothesley.
Os duques de Suffolk e Norfolk, tio de Ana, também estavam. Ele assinou a sentença de morte da própria sobrinha.
Lá estava ainda o duque de Richmond. Filho bastardo de Henrique VIII com Bessie Blount. Assistindo a madrasta morrer para limpar o caminho da coroa.
E um intruso. O espanhol Antonio de Guaras se infiltrou na noite anterior. Cromwell proibiu estrangeiros, mas ele entrou assim mesmo.
E foi ele quem deixou o relato mais perturbador daquela manhã.
No seu “Spanish Chronicle”, De Guaras disse que Ana “mostrou um ‘espírito demoníaco’” enquanto caminhava.
Seguida por quatro damas, ela subiu 50 metros morro acima, do calabouço até o gramado. E parecia “alegre, como se não fosse morrer”.
A historiadora Antonia Fraser tem outra teoria. Talvez não fosse deboche. Talvez fosse alívio. Depois de semanas na Torre, a morte era o fim da agonia.
Escoltada por William Kingston, Ana chegou ao patíbulo. O carrasco de Calais já esperava. Com uma espada, não um machado. Um luxo pago caro.
Ela usava vestido de damasco escuro, manto de arminho e capelo inglês. Subiu as escadas. E falou:
“Bom povo cristão, eu não vim aqui para passar sermão; eu vim para morrer. De acordo com a lei e pela lei fui julgada para morrer, e, portanto, eu não direi nada contra isso.”
“Não vim aqui para acusar qualquer homem […] mas eu rezo a Deus que salve o rei […] pois príncipe mais misericordioso jamais existiu, e para mim ele sempre foi bom, gentil, e senhor soberano.”
“E assim eu me despeço do mundo e de vocês, e cordialmente peço-lhes que rezem por mim”.
Por que ela chamou de “misericordioso” o homem que mandou cortar sua cabeça?
Por Elizabeth. A filha dela tinha 2 anos.
Se Ana gritasse inocência, a menina seria bastarda para sempre. Sem coroa. Sem futuro. Talvez sem vida.
Então ela engoliu a verdade. Morreu em silêncio. Mas não confessou crime nenhum.
“Ana falou firmemente ‘com um sorriso agradável’”, escreveu Eric Ives. No mesmo dia, Londres comentava que ela morreu “corajosamente”.
Depois do discurso, as damas tiraram os adornos dela um a um. Presentes de despedida. O pescoço ficou livre para a espada.
Ana pagou o carrasco com um saco de moedas de ouro. E o perdoou pelo que ele ia fazer.
Vendaram os olhos dela. Ela se ajoelhou, murmurando: “a Jesus entrego minha alma”.
O carrasco gritou para o assistente: “traga-me a espada”. Era um truque. Para ela virar a cabeça. Para o golpe ser perfeito.
Os lábios ainda se moviam quando a lâmina passou.
Num piscar de olhos, a cabeça e o corpo de Ana Bolena estavam separados.
Ele ergueu a cabeça dela para os poucos que assistiam.
Não tinha caixão. Não tinha túmulo digno.
A primeira rainha decapitada da Inglaterra foi jogada numa caixa de flechas. Enterrada sob o chão da capela de St. Peter ad Vincula, na Torre.
Séculos depois, a história fez justiça. Devolveu a coroa. E fez da filha de 2 anos a maior rainha que a Inglaterra já teve: Elizabeth I.