Tchecoslováquia: O país que parou de existir por 6 anos
Do Acordo de Munique ao esquartejamento nazista, a trajetória de uma potência armamentista que foi apagada do mapa

Simples: durante a Segunda Guerra Mundial, a Primeira República da Tchecoslováquia, então sétimo maior fabricante de armas no mundo, como tal e país independente desde 1918, deixou de existir… Por quê? Um ano antes do início do conflito global, em setembro de 1938, durante a crise dos Sudetos, começou seu suplício.
Nesse momento, a Tchecoslováquia foi pressionada pela Alemanha (e pela comunidade internacional) a ceder ao nazismo aquele território fronteiriço entre ambos os países, com uma população majoritariamente de etnia ariana-alemã.
A negativa tchecoeslovaca conduziu ao Acordo de Munique, assinado pelos primeiros-ministros Neville Chamberlain, britânico; Édouard Daladier, francês; Benito Mussolini, italiano; e Adolf Hitler, alemão (vergonhosamente, a Tchecoslováquia não foi convidada a participar…).
Por esse pacto, arbitrária e autoritariamente, permitiu-se à Alemanha anexar os Sudetos, que eram tchecoslovacos, ainda que seja verdade que grande parte dos residentes falava alemão. Esses Sudeten e o Sudetendeutsche Partei – SdP (Partido Alemão dos Sudetos), fundado em 1933, reivindicaram a adesão.
O Desmembramento do País e a Ocupação Nazista
Foi o princípio do fim – transitório – de uma nação que, um semestre depois, em março de 1939, viu o Terceiro Reich ocupar o resto de suas terras, desmembrando-a em pedaços à sua exclusiva vontade.

A parte checa do país (a ocidental) tornou-se o Protetorado da Boêmia e Morávia, sob o presidente Emil Hácha, enquanto na parte da Eslováquia (a oriental) se estabeleceu a recém-separada-criada República Eslovaca, um Estado-fantoche dependente dos nazistas, dirigido pelo sacerdote católico e colaboracionista nazista Jozef Tiso.
Como se não bastasse, a Hungria anexou pedaços do sul eslovaco e da Rutênia, ao mesmo tempo em que a região de Zaolzie foi adicionada à Polônia (onze meses depois também seria anexada à Alemanha, após a invasão aos polacos).
O Governo no Exílio e a Resistência Popular
O governo legítimo da Tchecoslováquia, liderado por Edward Beneš, que havia renunciado à presidência quando, reunidos Aliados e Eixo em sua última conjura antes da guerra, lhe arrebataram os Sudetos, exilou-se em Londres e Chicago, conseguindo que o governo do agora abstrato país fosse reconhecido simbolicamente como “potência aliada”.
No entanto, o povo não se conformou com esse simbolismo e renegou da capitulação governamental, precipitando um surto de indignação nacional. É verdade que Beneš tinha se equivocado, aceitando, ainda que de malgrado, o Acordo de Munique; ele, com alguma lógica, achava que dessa maneira ganharia o apoio dos Aliados se a Alemanha o invadisse mais.
Não o teve, calibrou mal, e era isso que a população repreendia um pouco injustamente nele; mas a culpa era da covardia aliada.
Nas manifestações e comícios, os tchecos e os eslovacos pediram um governo militar forte para defender a integridade do Estado. Instalou-se, então, um governo popular-militar provisório com Emil Hácha na presidência e o general Jan Syrový como primeiro-ministro. Estava fundada, ainda que “amarrada com arames”, a Segunda República da Tchecoslováquia, cuja ideia era repelir os alemães.
Contudo, por não ter ajuda militar concreta dos Aliados naquele momento – outra vergonha –, essa ideia/governo foi abortada (vigorou só 169 dias). A Segunda Guerra Mundial havia começado, e “eles já não eram eles…”.
A Luta Armada e a Operação Antropoide
Não obstante, depois, milhares de tchecoslovacos uniram-se às forças aliadas e lutaram em vários fronts, incluindo a Força Aérea Real Tchecoeslovaca, que desempenhou papel destacado na Batalha da Inglaterra. Além disso, e apesar da ocupação alemã, a resistência tcheca, que incluía tantos grupos militares organizados (Defesa da Nação, ou Obrana Národa, ON, foi o mais relevante) como movimentos civis (o Comitê da Petição Continuamos Fiéis, ou Petiční výbor Věrni zůstaneme, PVVZ, formado por sindicalistas e estudantes, o mais ativo), prosseguiu lutando, tanto quanto o círculo que respondia ao governo exilado, o Centro Político, ou Politické ústředí, PÚ, e a facção dos membros do Partido Comunista da Tchecoslováquia, ou Komunistická strana Československa, KSC. Mas tudo foi insuficiente. O país, de algum modo, havia sido entregue e esquartejado contra sua própria vontade, sempre ignorada internacionalmente.

Esses grupos acabaram se unindo, formando o Ústřední výbor odboje domácího, ÚVOD, ou Comitê Central para a Resistência, que fez muito barulho nos ouvidos nazistas. Um dos atos mais destacados de resistência guerrilheira foi sua Operação Antropoide (macaco semelhante ao homem), de 1942, na qual foi assassinado Reinhard Heydrich, talvez o mais cruel nazista. O último gesto ativo foi o Levantamento de Praga, que ocorreu na capital, em 5 de maio de 1945, a poucos dias do fim do conflito armado na Europa.
A Libertação e a Cortina de Ferro
Um mês depois, o Exército Vermelho, em sua última operação na Europa ocidental, derrotou os alemães e derrubou o governo fantoche e colaboracionista do padre católico Jozef Tiso na República Eslovaca, e toda a Tchecoslováquia foi liberta.
No entanto, o país, agora chamado Terceira República da Tchecoslováquia, caiu de cara na esfera de influência soviética, ficou atrás da “Cortina de Ferro” tornando-se um Estado socialista sob a influência comunista de Moscou.
Passou a fazer parte do bloco soviético durante a Guerra Fria, um período de pós-guerra marcado por repressão política e controle totalitário por parte do governo do Kremlin.
A Revolução de Veludo e a Divisão Definitiva
Em 1989, após a chamada Revolução de Veludo, voltou a ser Tchecoslováquia, a marca restaurada de sua primeira vez, quando assim se chamou, após a independência do Império Austro-Húngaro, em 1918. Durou pouco, até 1º de janeiro de 1993, data em que foi novamente dividida em dois países diferentes por decisão parlamentar e por vontade popular; surgiam a República Tcheca (Tchéquia) e a República Eslovaca.
Durante esse nefasto período, cerca de 80 mil judeus tchecos foram assassinados pelos nazistas; não no gueto de Theresienstadt, porque esse foi estabelecido pelas SS na vila de Terezín, localizada no Protetorado da Boêmia e Morávia, deveria ser um falso “campo modelo” a exibir à Cruz Vermelha e a outras organizações humanitárias que queriam saber como se vivia nos campos de concentração.
De todo modo, há um episódio que descreve como o medo tomava as pessoas até em circunstâncias propícias para se desembaraçar dele. Em 23 de junho de 1944, três inspetores, dois da Cruz Vermelha Internacional e um da Cruz Vermelha Dinamarquesa visitaram, por seis horas, o Campo de Terezin ou Theresienstadt que os alemães gostavam de expor; infelizmente, os prisioneiros entrevistados deram a eles relatórios positivos sobre as condições de vida, conforme foram instruídos pela administração do campo, sob óbvia ameaça. Esse falso show não ajudou os detentos, pelo contrário, continuaram padecendo seu cotidiano, como sempre, e sem que o mundo conhecesse a verdade… .
O Pós-Guerra e a Expulsão dos Alemães Étnicos
No final da guerra e antes de serem incorporados à órbita da URSS, os tchecoslovacos tiveram sua pequena revanche. Eles apresentaram, na Conferência de Potsdam (integrada por Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética), planos para uma “transferência humana e ordenada” da população alemã dos recuperados Sudetos, que iam e vinham como uma bola de tênis. Historiadores qualificam essa “transferência” como a devolução da “limpeza” étnica alemã em grande escala.
E de fato foi. Os tchecos tomaram a legislação nazista aplicada sobre os judeus e a replicaram com os alemães étnicos: os obrigaram a usar um grande “N” de nemec (alemão), estampado em suas roupas. A maioria teve sua propriedade confiscada e o acesso bloqueado a parques e serviços públicos.
Até aí, tudo bem… Infelizmente, houve excessos, vilas alemãs centenárias nos Sudetos foram incendiadas com seus moradores dentro, ou eram queimadas nas ruas; outros foram pendurados em árvores. Os germânicos sobreviventes de Brno, como coletivo, foram os que pior passaram, a cidade deveu ser evacuada por completo e seus residentes marcharam a pé até a fronteira com a Alemanha.
O recente campo de concentração/vila de Terezin, aquele “gueto modelo” alemão, levantado como cenografia teatral para iludir a opinião pública estrangeira, mostrando para a Cruz Vermelha e o mundo um suposto trato digno aos judeus passou a ser um dos lugares de aniquilamento preferido dos tchecoslovacos; ali, diariamente levavam centenas de alemães étnicos nos trens nos quais eles tinham sido levados e os encerravam em condições semelhantes às padecidas em Auschwitz e outros campos de extermínio; poucos desses teutônicos saíram com vida e isso tudo acontecia já em (supostos) tempos de paz…
O Legado de uma Nação Extinta
Estima-se que, ali, na época havia 3 milhões de alemães étnicos e mais de 700 mil tenham sido deportados entre maio e agosto de 1945, data na qual se registraram perto de 250 mil execuções, conforme o testemunho de moradores locais, inclusive de alguns desses vingadores que não tiveram escrúpulos em reconhecer sua sede de revanche.
Mas também houve exceções: outros 244 mil que atendiam a algum dos seguintes critérios não foram expulsos: antifascistas, especialistas essenciais para a indústria e aqueles que já eram casados com tchecos étnicos. Hoje, 40 mil deles vivem na Tchéquia, um legado da extinta Tchecoslováquia, que teve uma existência breve, mas disputou duas finais de Copa do Mundo de futebol, incluindo uma contra o Brasil, no Chile. Ainda assim, muitas crianças desconhecem sua história. Também não sabem que deixou de existir ou, se se prefere, hibernou no congelador da Segunda Guerra Mundial durante seis anos, entre 1939 e 1945.

























