Restos mortais da rainha medieval Elisenda são desenterrados na Espanha

Escavação de sepulturas medievais do século 14 em mosteiro de Barcelona revelou os restos mortais da rainha Elisenda e outros esqueletos; confira!

Sarcófago da rainha Elisenda / Crédito: Divulgação/Instituto de Cultura de Barcelona

Arqueólogos que investigam sepulturas históricas no Mosteiro Real de Santa Maria Pedralbes, em Barcelona, encontraram os restos mortais da rainha Elisenda de Montcada e de outras 24 pessoas durante um projeto que marca os 700 anos da fundação do complexo religioso. A pesquisa revelou detalhes sobre a vida da monarca medieval e trouxe à tona descobertas inesperadas, incluindo esqueletos com ferimentos provocados por armas brancas e os restos de uma mulher que morreu durante a gestação.

Os trabalhos  fazem parte das comemorações do sétimo centenário do mosteiro fundado por Elisenda em 1326. Para aprofundar o conhecimento sobre os primeiros anos da instituição e sobre as pessoas ligadas à sua criação, uma equipe de especialistas abriu oito túmulos do século 14 associados à rainha e às primeiras integrantes da comunidade religiosa.

Ao todo, os pesquisadores identificaram 25 esqueletos distribuídos entre as sepulturas analisadas. Entre eles estavam os restos de Elisenda de Montcada, esposa de Jaime II de Aragão e Valência, um dos governantes mais influentes da Península Ibérica medieval. A rainha tinha cerca de 30 anos quando se casou com Jaime II, então com 55 anos, pouco após a morte da terceira esposa do monarca.

Além de se tornar madrasta dos dez filhos do rei, Elisenda desempenhou um papel importante nos anos finais de seu reinado. Quando Jaime II adoeceu, ela fundou o Mosteiro de Pedralbes para a Ordem das Clarissas, comunidade de freiras enclausuradas. Após a morte do rei, em 1327, a rainha passou a viver em um pequeno palácio ao lado do mosteiro até sua morte, em 1364, repercute o Live Science.

Descobertas

Ao abrir o túmulo de Elisenda, os arqueólogos encontraram uma urna contendo seus ossos posicionada em um dos cantos de uma estrutura localizada entre a igreja e o claustro. O espaço era dividido por um muro baixo, configuração que, segundo os pesquisadores, provavelmente foi concebida para representar os dois papéis exercidos pela monarca: o de soberana, voltado para a igreja, e o de penitente, associado ao claustro.

As análises iniciais indicam que Elisenda morreu por volta dos 70 anos, idade compatível com os registros históricos disponíveis. Os ossos apresentam sinais de osteoartrite relacionados ao envelhecimento. Embora tenha sido enterrada com um hábito monástico simples, os pesquisadores encontraram vestígios de um tecido de seda bordado com fios de ouro, além de restos das plantas aromáticas alecrim e murta.

Outra sepultura examinada foi a de Sobirana Olzet, considerada a primeira abadessa do mosteiro. Os restos encontrados correspondem ao perfil histórico da religiosa, mas chamaram atenção por apresentar um ferimento traumático na região do rosto. Segundo os responsáveis pelo estudo, a lesão ocorreu pouco antes ou no momento da morte e parece ter sido provocada por uma faca. A origem do ferimento ainda está sendo investigada.

Caixa de madeira com os restos mortais da rainha Elisenda (ao centro), e fotografias dos restos mortais de Sobirana Olzet (esquerda) e do túmulo de Francesca Saportella (direita) / Crédito: Divulgação/Instituto de Cultura de Barcelona

As surpresas continuaram em outros túmulos. Em uma sepultura atribuída ao cavaleiro Artau de Foces, os arqueólogos não encontraram qualquer vestígio de um homem. Em vez disso, localizaram os restos de cinco pessoas: duas mulheres adultas e três crianças. Um dos achados mais incomuns foi o cabelo de uma das mulheres, preservado e ainda preso ao crânio.

Já a tumba associada a Francesca Saportella, segunda abadessa de Pedralbes e sobrinha da rainha Elisenda, revelou um conjunto ainda mais complexo de vestígios humanos. No local foram identificados os restos de pelo menos nove indivíduos enterrados em épocas diferentes.

Entre eles estavam quatro crânios masculinos que apresentavam ferimentos causados por faca. Os pesquisadores também encontraram o torso mumificado de uma mulher que morreu grávida, ainda com os restos de um feto entre 20 e 23 semanas de gestação preservados no canal vaginal.

Além dos restos humanos, a equipe recuperou documentos e pergaminhos, incluindo partituras musicais, que agora passam por processos de conservação  e análise.

Segundo o Instituto de Cultura de Barcelona, responsável pela divulgação dos resultados, o estudo oferece uma oportunidade rara para compreender os primeiros anos de funcionamento do mosteiro e seu papel na sociedade catalã medieval.

“O estudo dos túmulos fundamentais oferece uma oportunidade única para aprofundar as primeiras décadas de vida do mosteiro, um período decisivo para a compreensão da sua evolução e do seu papel na sociedade catalã medieval”, escreveu o Instituto de Cultura de Barcelona em comunicado.

Cabeça parcialmente mumificada de mulher do século 14 / Crédito: Divulgação/Instituto de Cultura de Barcelona

As análises realizadas até agora indicam que muitas das pessoas enterradas no mosteiro eram mulheres de alto status social e idade avançada, frequentemente com sinais físicos associados ao envelhecimento, como a osteoartrite. Essas informações coincidem com o que já era conhecido sobre as primeiras ocupantes da instituição religiosa.

Os pesquisadores destacam, porém, que o trabalho está apenas começando. Até o momento, apenas cerca de 6% do genoma da rainha Elisenda foi sequenciado. Nos próximos anos, a equipe pretende utilizar amostras de ossos e dentes para confirmar identidades, estabelecer relações familiares entre os indivíduos sepultados e investigar a presença de possíveis doenças antigas.

Os resultados finais das análises arqueológicas, genéticas e dos materiais encontrados nos túmulos devem ser divulgados até meados de 2027.

“O desafio para o próximo ano será transformar essas primeiras descobertas em uma interpretação histórica completa que nos permita entender melhor não apenas quem eram essas pessoas, mas também como viveram, como morreram e como foram lembradas”, escreveu o Instituto de Cultura de Barcelona.

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