O país que terminou a guerra com mais judeus do que tinha antes dela
Ao final do conflito, pequeno país dos Bálcãs teve resultado que parecia desafiar toda a lógica daquele período: tinha mais judeus do que possuía antes dela

A Segunda Guerra Mundial produziu incontáveis histórias de destruição, ocupação militar, perseguição e morte. Em praticamente toda a Europa, a população judaica foi reduzida pela deportação, pelo extermínio ou pela fuga desesperada diante do avanço nazista.
Houve, porém, uma exceção tão improvável quanto extraordinária. Ao final do conflito, um pequeno país dos Bálcãs apresentava um resultado que parecia desafiar toda a lógica daquele período: tinha mais judeus do que possuía antes da guerra.
Esse país era a Albânia
Situada na costa oriental dos mares Adriático e Jônico, a Albânia foi ocupada e anexada pela Itália fascista em 1939, transformando-se, de maneira inesperada, em parte do Reino da Itália.
Pouco tempo depois, Benito Mussolini proclamou a criação da chamada Grande Albânia, incorporando ao território áreas que atualmente pertencem a Kosovo, Macedônia do Norte, Grécia e Montenegro. Na prática, para as potências do Eixo, a Albânia deixava de existir como Estado independente.

A situação se agravou ainda mais em 1943. Com a rendição da Itália fascista aos Aliados, a Alemanha nazista decidiu assumir diretamente o controle da região.
Interessava a Hitler dominar a estratégica costa oriental dos mares Adriático e Jônico. Milhares de paraquedistas alemães foram lançados sobre o território, ocupando em poucas horas a capital, Tirana, e impondo às autoridades locais uma declaração de guerra contra a União Soviética.
Em apenas quatro dias, entre 18 e 22 de setembro, os nazistas ocuparam todo o país. Contaram para isso com a colaboração de políticos locais e de grupos como o Balli Kombëtar, o Partido Fascista Albanês e a Organização de Autodefesa.
Essas facções acreditavam que os alemães poderiam ajudá-las a consolidar a independência nacional e impedir o avanço da influência comunista.
A resistência albanesa
Apesar disso, a resistência albanesa foi uma das mais intensas da Europa ocupada.
Os partisans liderados por Enver Hoxha organizaram uma luta clandestina contra italianos e alemães. A resistência acumulou dezenas de milhares de mortos entre combatentes e civis.
Ao final da guerra, em novembro de 1944, a Albânia conseguiu libertar-se dos ocupantes estrangeiros e passou a ser governada pelo Partido Comunista, que implantou um regime marxista-leninista baseado na coletivização agrícola e na nacionalização da indústria.
Mas a história da Albânia durante a Segunda Guerra Mundial não seria lembrada apenas pela resistência armada. Existe um aspecto ainda mais singular.
Segundo relatou à BBC inglesa Shirley Cloyes DioGuardi, da Liga Cívica Albanesa-Americana, a Albânia foi um dos poucos países europeus que terminaram a guerra com uma população judaica maior do que aquela que possuíam antes do início do conflito.
O fenômeno não ocorreu por acaso
Enquanto grande parte da Europa assistia à perseguição sistemática promovida pelo regime nazista, milhares de judeus encontraram refúgio entre famílias albanesas.
Homens, mulheres e crianças que fugiam da ocupação alemã e do Holocausto atravessaram fronteiras em busca de segurança. Na Albânia, encontraram portas abertas.

As famílias locais, predominantemente muçulmanas, esconderam judeus em suas próprias casas, compartilharam alimentos e os protegeram das autoridades nazistas.
Em vez de denunciá-los, como ocorria em muitas regiões da Europa ocupada, decidiram assumir os riscos da solidariedade. O resultado foi extraordinário.
Uma questão de honra
Quando a guerra terminou, havia aproximadamente três mil judeus a mais vivendo na Albânia do que antes do início do conflito. Todos eram refugiados e exilados que haviam escapado da perseguição nazista graças à proteção oferecida pela população local.
Para compreender essa atitude coletiva, é necessário conhecer um dos pilares culturais da sociedade albanesa: o Besa.
A palavra significa algo próximo de “promessa de honra” ou “juramento solene”. Ela integra o Kanun, um conjunto de leis não escritas, transmitidas oralmente durante séculos, criado para orientar a vida social das tribos do norte da Albânia.
O Kanun possui origem antiga e foi influenciado tanto pela tradição ilíria quanto pelo Islã e pelo cristianismo. Entre seus princípios encontram-se a honra, a hospitalidade, o respeito pela palavra dada, a proteção dos vulneráveis, a defesa da família, a integridade pessoal e a união da comunidade.
Dentro desse código moral, a proteção de um convidado ocupa posição central.
Segundo Shirley DioGuardi, o Besa vincula a honra pessoal ao respeito e à igualdade com os demais. Entre seus valores fundamentais está a obrigação de proteger quem busca abrigo, mesmo quando isso exige sacrifícios extremos.
Em determinadas circunstâncias, o dever moral pode chegar ao ponto de colocar em risco a própria vida daquele que oferece proteção. Foi exatamente isso que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.
Muitos albaneses esconderam judeus em suas residências sabendo que poderiam ser presos, torturados ou executados pelos ocupantes alemães. Ainda assim, mantiveram o compromisso com aquilo que consideravam um dever de honra.
Hospitalidade, Justiça e equidade
O livro História da Albânia, de Tajar Zavalani, descreve o Kanun como um sistema baseado na hospitalidade, na justiça, na equidade, na proteção dos vulneráveis e na preservação da palavra empenhada. Durante os anos mais sombrios do século 20, esses princípios deixaram de ser apenas tradição e transformaram-se em ação concreta.
Enquanto o restante da Europa assistia ao avanço do Holocausto, a Albânia ofereceu abrigo. Enquanto milhões eram perseguidos por sua origem, famílias albanesas decidiram proteger desconhecidos.
E enquanto a guerra reduzia comunidades judaicas inteiras à extinção, aquele pequeno país dos Bálcãs produziu um resultado quase impossível: terminou o conflito com mais judeus do que possuía antes dele começar.
Em uma guerra marcada pela barbárie, a Albânia escreveu uma das mais raras histórias de humanidade.

























