Postos de salva-vidas estão em situação de abandono na orla de Boa Viagem, no Recife
Equipe do Diario percorreu seis postos de salva-vidas entre o Parque Dona Lindu e a Praia do Pina; equipamentos apresentam realidades diferentes, com registros de abandono, depredação e medidas para impedir ocupações
Posto de salva-vidas na Praia de Boa Viagem (RAFAEL VIEIRA/DP)
“Os bombeiros deixaram de frequentar lá em cima porque tem muita sujeira, muito lixo, muito mijo.” A afirmação de um comerciante que trabalha na orla de Boa Viagem ajuda a explicar o cenário encontrado pela reportagem do Diario de Pernambuco em parte dos postos de salva-vidas da praia.
Após a divulgação de um vídeo, em rede social, mostrando pessoas em situação de rua ocupando uma dessas estruturas, a reportagem do Diario percorreu os seis equipamentos existentes entre o Parque Dona Lindu e a Praia do Pina e encontrou desde postos abandonados e pichados até unidades em funcionamento e em processo de requalificação.
As imagens registram uma ação da Polícia Militar realizada na manhã desta quinta-feira (4), quando agentes do 19º Batalhão da PM encontraram três pessoas ocupando uma das estruturas nas proximidades do segundo jardim.
Segundo a corporação, o grupo fazia uso de entorpecentes e apresentava comportamento alterado. No vídeo é mostrado um dos suspeitos no telhado do posto, enquanto outros dois na área interna.
De acordo com a PM, durante a abordagem, houve resistência, desobediência, agressões verbais e arremesso de objetos contra os agentes.
No local, foram apreendidas porções semelhantes a cocaína e maconha, além de materiais relacionados ao consumo de drogas.
A estrutura também apresentava sinais de depredação. Os três envolvidos foram encaminhados à Central de Plantões da Capital (Ceplanc).
Diante da repercussão do caso, a equipe de reportagem do Diario de Pernambuco percorreu a faixa de praia entre o Parque Dona Lindu, nas proximidades da Rua Armindo Moura, e a Praia do Pina, passando pelos seis postos de salva-vidas instalados ao longo da orla.
O primeiro equipamento encontrado foi o Posto 6. A estrutura estava sem escada de acesso, apresentava sinais de abandono e tinha um tecido cobrindo a entrada, dando a impressão de que o local poderia estar sendo utilizado como abrigo. Não havia guarda-vidas no interior e nem nas proximidades do posto.
Ao longo da faixa de areia, entretanto, a reportagem observou profissionais posicionados em pontos estratégicos da praia, sob guarda-sóis e próximos às áreas de maior circulação de banhistas.
Em seguida, no Posto 5, a situação era semelhante. O equipamento também estava sem escada, apresentava pichações em todo entorno, sinais de desgaste e vandalismo. Próximo ao local, havia salva-vidas atuando normalmente na areia.
Um trabalhador de 55 anos, que atua na orla e preferiu não se identificar, afirmou que a estrutura deixou de ser utilizada pelos bombeiros após sucessivas ocupações irregulares.
“No passado, tinha bombeiro 24 horas aí. Depois começaram os maloqueiros, os usuários, a fazer moradia lá em cima. Isso aí fez os bombeiros deixarem de frequentar o local porque lá em cima tem muita sujeira, muito lixo, muito mijo. Eles ficam embaixo, mas lá em cima não sobem mais”, relatou.
Segundo ele, a presença de pessoas utilizando o espaço como abrigo não é recente. “A polícia tirava, os bombeiros limpavam, mas sempre voltavam. Sempre tinha gente ocupando. Hoje está desse jeito, abandonado.”
O comerciante também criticou a falta de manutenção do equipamento.
“Nunca teve reforma, nunca teve melhora nenhuma. Ou revitaliza ou tira. Do jeito que está, em vez de melhorar a estética da praia, está piorando.”
Mais adiante, a equipe chegou ao Posto 4, próximo ao Quiosque 21, onde ocorreu o incidente com o tubarão-tigre e que vitimou a jovem de 19 anos, Marcela Vitória.
Diferentemente dos anteriores, havia presença de bombeiros utilizando normalmente a estrutura. O equipamento também possuía tapumes nas janelas, instalados para dificultar invasões.
Há quase 20 anos trabalhando na região, o comerciante Dionísio Silva, de 52 anos, afirmou que o posto segue funcionando regularmente.
“Ele é eficaz aqui. Sempre funcionou. Nunca vi fechado na minha vida. Chega o horário deles, eles vêm, trabalham normalmente e às vezes ainda tem uma ronda noturna para verificar se está tudo certo.”
Segundo Dionísio, a presença dos guarda-vidas é constante ao longo do dia.
“Eu chego aqui por volta de meio-dia e eles já estão aí. Muitas vezes eu cheguei às nove da manhã e eles já estavam trabalhando também.”
O comerciante contou que o local já registrou tentativas de ocupação, principalmente durante a madrugada, mas medidas foram adotadas para dificultar o acesso.
“Já houve situações de pessoas subirem, mas geralmente durante a noite. Depois começaram a combater isso. Se você observar, tiraram a escada fixa. Hoje é uma escada móvel. Isso dificultou a entrada não só de pessoas em situação de rua, mas também de quem queria se aproveitar da escuridão.”
Ele destacou ainda a atuação dos bombeiros em ocorrências registradas na praia.
“Inclusive, foram eles que atenderam a menina naquele ataque de tubarão. O posto sempre teve uma atuação importante aqui.”
Seguindo o percurso, a reportagem encontrou o Posto 3, nas proximidades do Quiosque 14. A estrutura passava por obras de requalificação.
No Posto 2, onde ocorreu a ação policial registrada no vídeo que circula nas redes sociais, havia guarda-vidas posicionados na parte inferior do equipamento.
Por fim, no Posto 1, próximo à Praia do Pina, a mesma situação foi observada, com profissionais do Corpo de Bombeiros presentes e realizando o monitoramento da área.
Embora a fiscalização e a presença dos guarda-vidas continuem ocorrendo ao longo da orla, o percurso mostrou realidades distintas entre os postos.
Enquanto alguns equipamentos seguem em funcionamento e contam com adaptações para impedir invasões, outros apresentam sinais de abandono, depredação e falta de manutenção.
O que dizem os bombeiros
Por meio de nota, o Corpo de Bombeiros informou que conta com 10 postos de guarda-vidas distribuídos ao longo da orla da Região Metropolitana do Recife.
Ainda segundo a corporação, a Secretaria de Defesa Social (SDS) possui um projeto de requalificação dos postos de guarda-vidas, que contempla melhorias na infraestrutura dessas unidades. Um dos postos, localizado em Jaboatão dos Guararapes, já está passando por reforma.
Na nota, os bombeiros disseram também que as equipes de guarda-vidas “permanecem atuando normalmente nas áreas de banho, realizando o monitoramento das praias e desenvolvendo ações preventivas para garantir a segurança dos banhistas”.
A corporação afirmou que o “serviço é executado de forma ininterrupta, com presença operacional dos militares ao longo da orla, assegurando o atendimento à população e a pronta resposta às ocorrências”’.























