Jejum ajuda mesmo a desinflamar o corpo? Médico explica o que acontece com o organismo
Prática tem ganhado espaço entre quem busca mais saúde e longevidade
Por Perla Ribeiro

Jejum ajuda mesmo a desinflamar o corpo? Médico explica o que acontece com o organismo Crédito: Imagem: Elnur | Shutterstock
O jejum deixou de ser uma prática associada apenas à religião ou a tradições culturais para ganhar espaço nas discussões sobre saúde, longevidade e qualidade de vida. Cada vez mais popular, o método é apontado por especialistas como uma possível ferramenta para ajudar o organismo a controlar processos inflamatórios ligados a doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Mas afinal: ficar horas sem comer realmente pode trazer benefícios para a saúde?
Para o médico intensivista William Rutzen, autor do livro Desinflamar para viver melhor, a resposta é sim — desde que a prática seja adotada de forma consciente e inserida em um contexto mais amplo de hábitos saudáveis. Segundo ele, a inflamação crônica silenciosa está por trás de diversas doenças modernas. Nesse cenário, estratégias que permitam ao organismo regular melhor seus próprios mecanismos ganham relevância.
“O jejum não é uma solução isolada, mas pode ser uma ferramenta potente para dar ao organismo um intervalo necessário para reorganizar funções metabólicas”, afirma. A lógica é simples: durante os períodos sem ingestão de alimentos, o corpo deixa de concentrar energia na digestão constante e passa a ativar outros processos fisiológicos importantes.
O que acontece quando o corpo fica sem comer? De acordo com Rutzen, um dos principais efeitos do jejum é a utilização das reservas energéticas do organismo, o que pode contribuir para melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir marcadores inflamatórios.
Outro mecanismo frequentemente associado à prática é a autofagia, processo natural de renovação celular que ganhou destaque nos últimos anos em estudos sobre envelhecimento e saúde metabólica. “É como se o organismo aproveitasse esse intervalo para fazer uma espécie de manutenção interna, eliminando estruturas danificadas e otimizando o funcionamento das células”, explica o médico.
Apesar do interesse crescente pelo tema, o especialista alerta que o jejum não deve ser encarado como uma fórmula mágica. “Não existe um modelo único que sirva para todos. O que funciona para uma pessoa pode não ser adequado para outra”, destaca.
Nem todo mundo deve fazer jejum
O entusiasmo em torno da prática também exige cautela. Segundo Rutzen, pessoas com condições específicas de saúde, gestantes, idosos e indivíduos que utilizam determinados medicamentos precisam de avaliação adequada antes de iniciar qualquer protocolo. “O jejum precisa ser visto como parte de um contexto maior, que inclui alimentação equilibrada, sono de qualidade e gestão do estresse”, ressalta. Para ele, os maiores benefícios aparecem quando a prática é incorporada de forma gradual e sustentável, sem radicalismos.
Como começar com segurança
No livro, o médico defende uma abordagem progressiva. Em vez de períodos prolongados sem alimentação ou protocolos extremamente restritivos, a recomendação é iniciar com intervalos menores, observando a resposta do próprio organismo. “O objetivo não é impor sofrimento, mas criar um ambiente favorável para que o organismo funcione melhor”, afirma.
Além do período sem comer, o especialista destaca que a qualidade da alimentação continua sendo determinante para os resultados. Entre as recomendações estão manter boa hidratação, evitar exageros após o fim do jejum e priorizar alimentos com potencial anti-inflamatório na rotina.
Segundo ele, a consciência sobre as próprias escolhas também faz diferença. “Mais do que seguir regras, é preciso entender o porquê das escolhas. Quando a pessoa compreende o impacto da inflamação no corpo, passa a tomar decisões mais consistentes no dia a dia”, diz.
No fim das contas, Rutzen reforça que o jejum não deve ser encarado como um atalho para a saúde. “Desinflamar o organismo é um processo contínuo. O jejum pode ajudar, mas os resultados reais vêm da soma de hábitos bem construídos ao longo do tempo”, conclui.
























