Metralhadora no salão: a execução do cabeleireiro dos famosos que chocou Salvador

Valdir Macário foi surpreendido por homens armados enquanto trabalhava em crime de mando

Por Wendel de Novais

Valdir Macário foi morto no próprio salão de beleza Crédito: Reprodução e Arquivo CORREIO

A rotina de um dos salões de beleza mais tradicionais de Salvador foi interrompida por uma sequência de tiros que transformou um ambiente conhecido pelo movimento constante de clientes em cenário de um dos crimes mais comentados da capital baiana na última década.

Na noite de 12 de novembro daquele ano, o empresário e cabeleireiro Valdir Macário, conhecido por atender artistas, empresários e personalidades da Bahia, foi executado dentro do próprio estabelecimento, localizado na Avenida Vasco da Gama. A ação foi rápida, planejada e deixou poucas dúvidas para os investigadores: os criminosos não entraram para roubar, mas para matar.

Segundo a Polícia Civil, homens armados invadiram o salão por volta das 19h30 e dispararam diversas vezes contra a vítima utilizando uma submetralhadora. Os clientes que aguardavam atendimento e os funcionários correram para tentar escapar dos disparos.

Os criminosos fugiram logo após a execução sem levar dinheiro, celulares, joias ou qualquer outro objeto de valor. A ausência de roubo reforçou, desde os primeiros momentos da investigação, a hipótese de uma execução premeditada.

Investigação

Nos primeiros dias, a Polícia Civil trabalhou com poucas certezas. As imagens do circuito interno de segurança mostravam dois homens armados invadindo o estabelecimento e atirando contra o empresário, enquanto outros comparsas davam apoio do lado de fora. Como nada foi roubado e a ação foi rápida e direcionada exclusivamente à vítima, os investigadores descartaram a hipótese de latrocínio e passaram a tratar o caso como uma execução premeditada.

As primeiras diligências revelaram um detalhe que poderia ser decisivo. Cerca de um mês antes da morte de Valdir, o irmão dele, Reginaldo Manoel da Silva, conhecido como Reginho, havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio na saída do mesmo salão de beleza. Baleado, ele permaneceu internado no Hospital Geral do Estado e relatou à polícia que vinha sofrendo ameaças.

A partir desse episódio, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) concentrou esforços para descobrir se os dois atentados tinham ligação. Familiares, amigos, funcionários e clientes foram ouvidos. Paralelamente, equipes da Polícia Civil analisaram as imagens das câmeras de segurança em busca de pistas que permitissem identificar os executores.

Ainda durante a investigação, surgiu a informação de que Reginaldo teria se envolvido com uma mulher comprometida. Naquele momento, os investigadores tratavam essa versão apenas como uma das linhas de apuração e evitavam confirmar qualquer relação entre o caso e o tráfico de drogas.

Dias depois, a delegada responsável pelo inquérito informou que o atentado contra Reginaldo e o assassinato de Valdir eram investigados em conjunto. Segundo ela, havia indícios de que a tentativa de homicídio contra o irmão do cabeleireiro teria sido motivada por um relacionamento amoroso, mas a polícia ainda buscava confirmar quem seriam os envolvidos e identificar os autores dos ataques.

Suspeitos identificados

Enquanto as investigações avançavam, a polícia utilizou recursos de inteligência para identificar os criminosos que participaram da ação. O trabalho permitiu reconhecer dois dos envolvidos: o traficante Edgar da Silva Santos, conhecido como “Chocolate”, apontado como mandante do homicídio, e Patric Ribeiro Tupinambá, identificado como um dos executores.

Com as provas reunidas, a Justiça expediu mandados de prisão contra os suspeitos. A Polícia Civil também anunciou que os nomes dos investigados passariam a integrar o Baralho do Crime, ferramenta da Secretaria da Segurança Pública da Bahia utilizada para divulgar os criminosos mais procurados do estado.

Poucos dias depois da divulgação das imagens e da identificação dos suspeitos, equipes do DHPP localizaram os dois em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Presos, eles foram conduzidos para prestar depoimento.

Confissões

Durante o interrogatório, Edgar da Silva Santos admitiu ser o responsável por ordenar a morte de Valdir. Conforme o relato apresentado aos investigadores, a motivação do crime estava relacionada ao envolvimento amoroso entre Reginaldo e sua companheira.

O traficante afirmou que descobriu a traição após ter acesso ao celular da mulher e passou a atribuir ao cabeleireiro a responsabilidade por facilitar os encontros entre o casal. Ainda de acordo com a investigação, Chocolate havia contratado criminosos para matar Reginaldo semanas antes, pagando R$ 20 mil pela execução. O atentado, no entanto, fracassou, e o irmão de Valdir sobreviveu aos disparos.

A partir daí, segundo a polícia, o traficante passou a acreditar que Valdir poderia reagir ao ataque contra o irmão. Além disso, sustentou que o empresário sabia do relacionamento e ajudava a escondê-lo. Essa combinação de fatores teria motivado a decisão de eliminá-lo.

Já Patric Ribeiro Tupinambá confirmou que participou da ação criminosa. Em depoimento, afirmou que tinha uma relação de confiança com Chocolate, a quem considerava como uma figura paterna. Conforme a polícia, ele integrou o grupo que invadiu o salão de beleza, embora tenha declarado não ter efetuado os disparos que mataram o cabeleireiro.

O diretor do Departamento de Homicídios informou que outros dois homens também participaram da execução e que as investigações prosseguiriam para identificar todos os envolvidos na ação.

Denúncia e impunidade

Em março de 2017, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) denunciou Edgar da Silva Santos, conhecido como “Chocolate”, e Patric Ribeiro Tupinambá pelo assassinato do cabeleireiro Valdir Macário De acordo com a acusação, a execução foi planejada após uma primeira tentativa frustrada de matar Reginaldo, ocorrida cerca de um mês antes.

Apesar da denúncia e das prisões dos acusados, o processo teve um desdobramento inesperado. Em novembro de 2017, um ano após o crime, veio a público a informação de que Edgar da Silva Santos não seria submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. A decisão judicial entendeu que a denúncia apresentada contra o apontado mandante era inadequada e que não havia elementos suficientes para levá-lo a júri popular.

Não foram localizados registros públicos indicando que Patric Ribeiro Tupinambá ou os demais envolvidos tenham sido efetivamente julgados pelo Tribunal do Júri no caso. Assim, até onde há informação disponível, o processo não resultou em julgamento popular dos acusados, permanecendo sem uma condenação definitiva relacionada ao homicídio de Valdir Macário.

Quem era Valdir Macário

Muito antes de se tornar um dos cabeleireiros mais conhecidos da Bahia, Valdir construiu sua carreira trabalhando de forma simples. Amigos contam que os primeiros cortes eram feitos para familiares e vizinhos. Com talento e dedicação, conseguiu abrir o próprio salão, que, ao longo dos anos, tornou-se referência em Salvador.

O espaço passou a receber clientes de diferentes classes sociais e ganhou prestígio entre artistas baianos e nacionais que visitavam a capital. Entre os frequentadores estavam nomes como Alexandre Pires, Márcia Short, Márcio Victor, Beto Jamaica e outros músicos conhecidos.

Apesar da fama conquistada, pessoas próximas afirmavam que Valdir mantinha hábitos simples e fazia questão de tratar todos os clientes da mesma forma, independentemente da condição financeira. Funcionários descreviam o empresário como exigente no trabalho, mas extremamente generoso com a equipe.

Comoção tomou conta da cidade

A notícia da morte rapidamente se espalhou pelas redes sociais. Artistas, empresários, políticos e clientes publicaram mensagens de pesar. Durante o velório, centenas de pessoas passaram pelo local para prestar as últimas homenagens. O enterro, realizado no Cemitério Campo Santo, reuniu aproximadamente mil pessoas. Familiares precisaram ser amparados por amigos durante a cerimônia. Muitos ainda demonstravam incredulidade diante da forma como o empresário havia sido morto.

Colegas de profissão lembravam que Valdir sempre incentivava novos profissionais da área da beleza e frequentemente ajudava pessoas em dificuldades financeiras. O medo tomou conta dos comerciantes. Após o crime, comerciantes da Avenida Vasco da Gama relataram medo e insegurança. Embora a região registrasse ocorrências policiais, a execução dentro de um estabelecimento comercial, em pleno horário de funcionamento, chamou atenção pela ousadia dos criminosos.

Clientes passaram a evitar permanecer até mais tarde em salões e lojas da região durante as semanas seguintes. O caso também reacendeu o debate sobre a atuação das facções criminosas em bairros de Salvador e a influência desses grupos sobre o cotidiano da população.

Quase uma década depois, a execução de Valdir Macário continua sendo lembrada como um dos homicídios de maior repercussão da história recente de Salvador. A combinação entre a violência do ataque, a popularidade da vítima e a falta de uma resposta definitiva sobre os motivos do assassinato fez com que o caso permanecesse vivo na memória de quem acompanhou o noticiário.

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