Alguns dos primeiros reis da história podem ter sido, na verdade, rainhas

Reavaliação de antigas descobertas arqueológicas na Mesopotâmia sugere que figuras de autoridade da antiguidade teriam sido mulheres

Giovanna Gomes

Joias do ‘Cemitério Real’ em Ur, Suméria; ao lado, detalhe da lira da rainha de Ur – Crédito: Getty Images

E se algumas das figuras que costumamos imaginar como os primeiros reis da humanidade fossem, na verdade, mulheres? Uma reavaliação de antigas descobertas arqueológicas na Mesopotâmia sugere justamente essa possibilidade.

Há mais de quatro mil anos, florescia nas planícies do sul da Mesopotâmia (região que hoje corresponde ao Iraque) a cidade de Ur. Considerada uma das primeiras grandes cidades da história, Ur era um centro de comércio, religião e poder político, sendo que seus governantes administravam riquezas vindas de lugares tão distantes quanto o atual Afeganistão, Omã e Anatólia. Enquanto isso, monumentos grandiosos se erguiam em homenagem aos deuses. Foi ali que surgiram algumas das evidências mais antigas de monarquia conhecidas pela humanidade.

Um cenário impressionante

Quando o arqueólogo britânico Leonard Woolley escavou o Cemitério Real de Ur entre 1926 e 1934, encontrou um cenário inacreditável, digno de lendas. Lá estavam túmulos repletos de ouro, prata, além de inúmeras pedras preciosas e objetos luxuosos que revelavam a existência de uma elite extremamente poderosa. Em alguns sepultamentos, inclusive, estavam presentes os restos mortais de dezenas de servos e músicos que teriam sido sacrificados para acompanhar seus senhores na vida após a morte.

Mas havia um detalhe intrigante. Acontece que os túmulos mais ricos e impressionantes nem sempre pertenciam a homens. Em vários casos, os esqueletos identificados como femininos estavam cercados pelos mesmos símbolos de autoridade que os arqueólogos associavam aos reis: armas, selos reais, joias extraordinárias, arquitetura monumental e sacrifícios humanos. Ainda assim, durante décadas, a explicação dada foi que essas mulheres eram esposas, consortes ou sacerdotisas ligadas a governantes masculinos cujos restos mortais teriam desaparecido.

Uma hipótese raramente questionada

A hipótese parecia tão natural para os estudiosos do início do século 20, que em raríssimas ocasiões foi questionada. Afinal, a ideia de mulheres governando uma das primeiras civilizações urbanas do mundo parecia incompatível com a visão histórica predominante da época.

Hoje, porém, arqueólogos e especialistas em gênero estão revisitando as evidências com novos métodos científicos e novas perguntas. Assim, em vez de presumir que o poder era necessariamente masculino, eles passaram a investigar se algumas dessas mulheres poderiam ter exercido autoridade política por direito próprio.

A figura mais famosa desse debate é Puabi, uma mulher enterrada em um dos túmulos mais espetaculares já encontrados na Mesopotâmia. Seu corpo havia sido coberto por uma impressionante coleção de ouro, lápis-lazúli, cornalina e prata, além de que um elaborado cocar adornava sua cabeça. Ao seu redor estavam servos sacrificados, músicos, guardas e objetos de luxo em quantidade superior à encontrada em muitos sepultamentos atribuídos a reis.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *