A psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross apresentou, no livro “Sobre a Morte e o Morrer”, um modelo conhecido como as cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Um processo pelo qual alguns torcedores brasileiros têm passado após a eliminação da Seleção na Copa do Mundo. Mas qual o melhor caminho para lidar com a frustração? A derrota pode, de fato, ensinar algo ou apenas fragilizar a confiança e transformar a dor em revolta?
“O ser humano tem um lado competitivo. A questão é que muitos crescem sendo orientados pela família e amigos para considerar a vitória como o único caminho. Quer dizer: se você não é vitorioso, não serve. E, mesmo a derrota não sendo efetivamente da pessoa, mas sim de um time, ídolo ou país, é normal ela se identificar e se ‘transportar’ para esse cenário. Às vezes, isso é tão forte que, se uma equipe é campeã, ela vai dizer ‘eu sou campeã’. Da mesma forma que, em caso de derrota, ela se sente derrotada, ainda que de forma inconsciente”, apontou o psicólogo Ronaldo Rangel Cruz.
Mau exemplo
A dor pela derrota pode, em casos extremos, resultar em ações violentas, como as que foram vistas, por exemplo, em um shopping center de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, com brigas entre torcedores após a derrota do Brasil na Copa. Cenas que se repetiram também em um bar em Boa Viagem.
“É normal ficar triste quando um time perde por alguns dias, mas a vida vem com outras questões, outras prioridades que acabam assumindo o lugar daquela dor no esporte. Mas se você percebe que isso não passou e que está atrapalhando o trabalho ou atividades sociais, então está acima do normal. Chorar um pouco e ter raiva é natural, mas se isso vira algo compulsivo, cometendo ações agressivas, isso extrapola o aceitável. É preciso ficar atento aos sinais com relação ao tempo e a intensidade da frustração”, declarou.
Ciência
A biomédica, neurocientista especialista em trauma e desenvolvimento humano e fundadora da UniNeuroconsciente, Telma Abrahão, explicou que o cérebro pode reagir a uma derrota esportiva de forma semelhante a outras perdas da vida.
“Quando o time vence, o cérebro ativa circuitos de recompensa, liberando neurotransmissores como dopamina, que geram prazer, motivação e sensação de conquista. Já a derrota quebra uma expectativa criada pelo cérebro, e toda expectativa frustrada gera uma resposta emocional. Dependendo da história de vida da pessoa, uma eliminação pode reativar sentimentos antigos de perda, rejeição ou fracasso que nada têm a ver com o esporte em si”, argumentou.
“O cérebro não possui um ‘detector’ que diferencie perfeitamente uma perda simbólica de uma perda concreta. Ele responde ao significado que aquela experiência tem para cada indivíduo. Uma derrota importante pode ativar regiões cerebrais envolvidas no processamento da dor emocional, como o córtex cingulado anterior, além de desencadear respostas fisiológicas do estresse. Há aumento da liberação de adrenalina e cortisol, aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular e alterações no sono e no humor. Para a maioria das pessoas, essa resposta é passageira e faz parte da experiência humana. Mas indivíduos com maior vulnerabilidade emocional ou histórico de traumas podem experimentar reações muito mais intensas, justamente porque o cérebro associa o evento atual a experiências anteriores de sofrimento”, complementou.
Ainda de acordo com a neurocientista, o futebol pode ser um laboratório para desenvolver inteligência emocional e “treinar” a tolerância à frustração.
“O esporte é um dos ambientes mais completos para desenvolver competências emocionais porque expõe continuamente o cérebro a desafios, erros, vitórias, derrotas, pressão e necessidade de adaptação. A tolerância à frustração não nasce pronta; ela é construída pela repetição de experiências nas quais a pessoa aprende que é capaz de sentir emoções difíceis sem ser dominada por elas. Esse processo fortalece circuitos cerebrais ligados à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva”.
Desenvolvimento
As crianças processam frustrações de maneira diferente de um adulto e experiências emocionais como a de encarar a dor de uma derrota podem ajudar no crescimento social.
“O cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, principalmente as regiões responsáveis pelo autocontrole, pela tomada de decisão e pela regulação emocional, como o córtex pré-frontal. Isso faz com que as emoções sejam vividas de forma muito mais intensa. O esporte oferece uma oportunidade extremamente rica para esse aprendizado. Ganhar ensina confiança, mas perder ensina algo igualmente importante: lidar com frustrações, desenvolver persistência, flexibilidade emocional e capacidade de recomeçar”, indicou, fazendo um alerta.
“A forma como os adultos reagem à derrota influencia diretamente o cérebro da criança. Quando pais e treinadores acolhem a frustração sem humilhar, criticar ou pressionar excessivamente, ajudam a construir circuitos neurais de autorregulação. Quando transformam a derrota em vergonha ou desvalorização, podem fortalecer respostas de medo, ansiedade e perfeccionismo”, observou.
Telma explica que o cérebro pode reagir a uma derrota esportiva de forma semelhante a outras perdas da vidaAprendizados
No campo da psicologia, Cruz acrescentou que os pais precisam trabalhar nos filhos o processo de compreensão do “saber perder”.
“Os pais têm como obrigação ajudar as crianças a desenvolverem mecanismos de defesa para a vida nos melhores ou nos piores momentos. Vale para perdas esportivas, mas também de pessoas que amamos, questões de saúde e outros pontos. Quando os pais não conseguem orientar dessa forma e reagem de forma exagerada nos momentos de tristeza, brigando com o vizinho ou discutindo com algum parente, o filho acaba pegando esse exemplo e considerando que esse é o comportamento que faz sentido”, exemplificou.
Conselhos
O técnico Barão Xavier, fundador do CT Barão, local em que passou o atacante da Seleção Brasileira, Matheus Cunha, ressaltou também o papel dos treinadores no trabalho de preparação de jovens em meio ao cenário de frustrações e perdas no esporte.
“Eu digo a eles que a gente não pode vender ilusões e nem brincar com sonhos. Nem tudo que queremos, nós conseguimos, mas também não podemos deixar de lutar para conseguir o objetivo. Poucos vão passar pelo funil do futebol profissional e chegar ao nível de um Matheus Cunha, por exemplo. Também há um peso dos pais dentro dessa questão psicológica. Muitos queriam ser jogadores e não foram, mas querem que o filho seja para ter dinheiro. Isso pode criar um problema. Já vi atletas que ganharam tudo até os 15 anos, mas quando começaram a perder, abandonaram o esporte. Não souberam lidar com a derrota. Eu digo que nem todos podem virar jogador, mas todos podem se tornar um cidadão de bem. Isso é o principal”, salientou.
O jornalista Rembrandt Júnior ponderou que se preparar para o futuro pode ser uma forma de diminuir o peso da frustração. “A perda esportiva pode ser superada rapidamente com o recomeço de novos objetivos. O esporte oferece segundas chances, possibilidades de superar traumas. Não vale a pena remoer o passado. É preciso saber que a frustração passa, não é o fim do mundo. A gente gosta do futebol, se envolve, mas isso não pode trazer prejuízo para a nossa saúde física e mental”.


























