Uauá: Cem anos de resistência no Sertão

Opinião

Há cidades que nasceram à sombra dos grandes rios. Outras floresceram à beira-mar ou sob a proteção de fortalezas. Uauá nasceu do sertão. E, como tudo o que o sertão produz, aprendeu desde cedo que existir é resistir.


Conhecida como a Terra do Vagalume, Uauá completa cem anos de emancipação política celebrando muito mais do que uma data administrativa. Celebra um século de uma história construída pela coragem de homens e mulheres que aprenderam a transformar a escassez em esperança, a seca em perseverança e a adversidade em
identidade. Não por acaso, Euclides da Cunha eternizou uma verdade que parece escrita para estas terras: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”


A história de Uauá, entretanto, começou muito antes de sua emancipação. Suas origens remontam ao avanço da ocupação dos sertões baianos, quando a imponente Casa da Torre, erguida sobre as falésias do litoral, irradiava sua influência para o interior da Capitania da Bahia. Dali, Garcia d’Ávila organizava expedições que abriram
caminhos, implantaram currais e consolidaram uma economia baseada na criação de gado, transformando o sertão em espaço de ocupação permanente.


Graças à sua habilidade política e administrativa, Garcia d’Ávila recebeu da Coroa Portuguesa extensas sesmarias que, ao longo do tempo, formariam um dos maiores domínios territoriais da América Portuguesa. As terras onde hoje se encontra Uauá integraram esse vasto patrimônio, tornando-se parte do movimento de expansão da
pecuária que moldou a ocupação do interior baiano.

À primeira vista, nada parecia favorecer a prosperidade. A caatinga exibia galhos retorcidos, pedras expostas e o leito intermitente do rio Vaza-Barris, compondo uma paisagem severa e desafiadora. Mas o sertão nunca revela seus segredos ao primeiro olhar. Bastavam as primeiras chuvas para que o verde reaparecesse, os riachos
despertassem e a terra voltasse a alimentar homens e rebanhos. O sertanejo não venceu a natureza; aprendeu a compreender seus ritmos. Dessa convivência nasceu uma cultura marcada pela paciência, pela coragem e pela capacidade de recomeçar.

Foi nesse cenário que se estabeleceram as famílias pioneiras responsáveis pelo povoamento da região. Ribeiros, Lopes Guimarães, Dias de Andrade, Peixinhos e tantos outros lançaram as bases sociais, econômicas e culturais da futura vila. Muitos descendiam de D. Quitéria de Santa Rita, proprietária da Fazenda Pedra Vermelha, no
atual município de Monte Santo. A essas ligações familiares somaram-se alianças políticas, matrimônios, relações de compadrio e interesses econômicos que consolidaram uma comunidade capaz de enfrentar as dificuldades impostas pelo sertão.

A verdadeira grandeza dessas famílias, porém, não residiu apenas na posse da terra, mas na capacidade de construir coletivamente uma sociedade. Entre elas destacou-se Belarmino Peixinho, um dos primeiros moradores da região. Sem esperar pela providência distante, reuniu homens, ferramentas e boa vontade para erguer, em
regime de mutirão, uma ponte destinada a proteger a pequena Igreja do Senhor do Bonfim e a população das recorrentes cheias do Vaza-Barris. Mais do que uma obra material, aquele gesto simbolizou uma das virtudes mais profundas do povo sertanejo: quando os recursos escasseiam, a solidariedade torna-se a maior riqueza.

Ao mesmo tempo, lideranças políticas locais, entre elas o Coronel Ribeiro, desempenharam papel relevante na organização administrativa do município, utilizando sua influência para fortalecer as instituições e impulsionar o desenvolvimento de Uauá em seus primeiros anos de vida política.

A história da cidade, contudo, não foi escrita apenas com trabalho e esperança. Também conheceu os tempos da violência. As proximidades de Uauá testemunharam episódios marcantes da Guerra de Canudos, conflito que abalou o Brasil republicano e deixou profundas cicatrizes na memória sertaneja. Décadas mais tarde, a região
conviveu com a passagem de bandos do cangaço, entre eles os liderados por Lampião e Corisco, espalhando temor pelas comunidades do sertão. Também a Coluna Prestes cruzou essas terras, trazendo consigo as incertezas de um país em transformação. Cada um desses acontecimentos acrescentou novos capítulos à memória coletiva de um
povo acostumado a sobreviver sem perder sua dignidade.

Mas reduzir a história de Uauá às guerras seria ignorar sua verdadeira vocação. Sua identidade foi construída, sobretudo, pelo trabalho cotidiano de homens e mulheres anônimos, agricultores, criadores, comerciantes, professores, religiosos e artesãos que fizeram da convivência com o semiárido uma permanente lição de criatividade e perseverança.

Hoje, Uauá é reconhecida muito além de suas fronteiras pela excelência da criação de caprinos e ovinos, pela tradicional carne de bode, pelos derivados do leite, pelo umbu — transformado em doces, geleias e compotas — e por uma culinária que traduz a alma do sertão baiano. À riqueza da gastronomia somam-se as festas populares, a
religiosidade, a música, o artesanato e um patrimônio imaterial preservado na memória de seu povo.

Ao completar cem anos de emancipação política, Uauá não celebra apenas o tempo decorrido desde sua criação administrativa. Celebra a permanência de uma identidade construída ao longo de séculos. Os desafios continuam presentes: a convivência com a seca, a geração de oportunidades para os jovens, a preservação ambiental e a valorização de seu patrimônio histórico e cultural. Mas a própria trajetória do município demonstra que as dificuldades jamais impediram seu povo de seguir adiante.

Talvez seja essa a melhor definição de Uauá. Cem anos depois de sua emancipação política, permanece fiel à vocação que a fez nascer: resistir. Resistiu às estiagens, às enchentes do Vaza-Barris, às guerras, às distâncias, às limitações impostas pelo sertão e às mudanças do tempo. E justamente por resistir, floresceu.

Celebrar o centenário de Uauá é homenagear todos aqueles — conhecidos ou anônimos — que ajudaram a escrever essa história. É reconhecer que seu maior patrimônio não está apenas em suas terras, em suas igrejas, em sua gastronomia ou em suas tradições, mas em seu povo. Um povo que, como os vagalumes que iluminam as
noites sertanejas, continua transformando a escuridão em luz e fazendo da resistência uma permanente forma de florescer.

Frederico Cláudio Peixinho

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