Xixi e longas horas de sono, você nem imagina tudo o que um bebê faz na barriga da mãe
Ciência revela que os bebês vivem uma rotina intensa dentro do útero, desenvolvendo sentidos, movimentos e até memórias antes do nascimento
Por Moyses Suzart

baby Crédito: Reprodução
Um lugar escuro e quentinho, mais apertado que uma quitinete, com batidas e sons constantes que parecem um ensaio do Olodum, vozes abafadas que você não conhece e líquido para todo lado. Este é o cenário que todos nós, sem exceção, já passamos e garantimos: é mais seguro do que aqui fora. Estamos falando da barriga da mãe, onde todos os bebês ficam armazenados neste mundinho no qual se pode escutar o coração da mãe batendo, dentro de um líquido que conseguimos respirar, entre outras situações bem curiosas no ventre. Mas durante este tempo que estamos lá, o que fazemos, além de dormir 16 horas por dia? O que acontece quando resolvemos chutar a barriga e até que ponto o mundo exterior pode influenciar os bebês no primeiro lar de todo ser humano?
É uma rotina interessante. Até xixi ele faz. “A gente costuma imaginar que o bebê fica apenas “dormindo” dentro da barriga, mas, na verdade, ele tem uma rotina muito ativa. Ao longo da gestação, ele alterna ciclos de sono e vigília, movimenta braços e pernas, boceja, faz movimentos respiratórios, engole líquido amniótico, o que é importante para o desenvolvimento do sistema digestivo, faz xixi, soluça e até leva as mãos ao rosto. Em exames de ultrassom, algumas vezes conseguimos observar expressões faciais, como sorrisos, caretas e movimentos de sucção.”, descreve Tâmile Nader, obstetra da HMD Emec.
A ciência já sabe que a vida dentro do útero é muito mais ativa do que se imaginava há algumas décadas. O termo “esperando a hora de nascer” já está superado. O bebê passa nove meses em intenso desenvolvimento, treinando movimentos, desenvolvendo os sentidos e até criando suas primeiras experiências com o mundo exterior.
É um ciclo constante. Nas primeiras semanas, quando muitas mulheres sequer sabem que estão grávidas, o embrião já trabalha em ritmo acelerado. Coração, cérebro, coluna, membros e órgãos começam a se formar em um verdadeiro mutirão biológico e involuntário. Ao longo da gestação, esses movimentos deixam de ser simples impulsos e passam a ganhar coordenação. É entre a 16ª e a 20ª semana que a maioria das gestantes sente os primeiros chutes.
Esses movimentos têm função importante. Chutar, esticar as pernas, dobrar os braços, abrir e fechar as mãos e até dar cambalhotas ajudam no desenvolvimento dos músculos, das articulações e do sistema nervoso. Em outras palavras, o bebê está literalmente treinando para a vida fora do útero. Outra atividade curiosa é a sucção. Ainda dentro da barriga, fetos levam as mãos ao rosto e chupam o dedo. O comportamento é considerado um treinamento para a amamentação, que será uma das primeiras grandes tarefas logo após o nascimento.
Dormir também ocupa boa parte da rotina. Especialistas estimam que o feto passe entre 14 e 17 horas por dia dormindo, alternando períodos de sono profundo e fases semelhantes ao sono REM, estágio em que, nos adultos, acontecem os sonhos. Ainda não há consenso sobre se os bebês realmente sonham antes de nascer, mas exames mostram intensa atividade cerebral durante esses momentos. Esse longo tempo de soneca muitas vezes assusta as mães, que sentem falta do tradicional chute na barriga.
E não é apenas o corpo que está em formação. Os sentidos também entram em funcionamento gradativamente. Por volta da metade da gestação, a audição já está suficientemente desenvolvida para captar sons vindos de dentro e de fora do corpo da mãe. O coração materno, a circulação do sangue, os movimentos intestinais e a respiração funcionam como uma espécie de trilha sonora permanente. Além disso, vozes, músicas e outros ruídos conseguem atravessar a parede abdominal, embora de maneira bastante abafada.
“A audição do bebê costuma iniciar seu desenvolvimento por volta das 18 semanas, então ele (ou ela) consegue perceber sons ainda dentro da barriga, mesmo que cheguem de forma abafada por causa do útero e do líquido amniótico. A voz da mãe é, provavelmente, o som mais familiar para ele, porque chega tanto pelo ambiente externo quanto pela vibração do próprio corpo materno. Músicas e conversas também podem funcionar como estímulos agradáveis para o bebê”, conta Tâmile Nader, que inclusive está grávida. “Dá um toque a mais ao encanto da vida intrauterina e à interação do bebê com o mundo antes mesmo do nascimento”, brinca.
É justamente por isso que muitos pais criam o hábito de conversar com o bebê durante a gravidez. Os recém-nascidos reconhecem a voz da mãe e podem demonstrar familiaridade com sons ou músicas repetidas diversas vezes ao longo da gestação. Isso não significa que o bebê compreenda o significado das palavras, mas que seu sistema auditivo já é capaz de criar uma espécie de memória sonora.
O paladar também começa cedo. O líquido amniótico, constantemente engolido pelo bebê, muda discretamente de sabor conforme a alimentação da mãe. Alimentos como alho, baunilha, cenoura e anis podem alterar o gosto desse líquido, oferecendo ao feto suas primeiras experiências gustativas. O olfato ainda não funciona da mesma forma que após o nascimento, mas os receptores responsáveis por esse sentido também começam a se desenvolver durante a gestação. Juntos, paladar e olfato ajudam o recém-nascido a reconhecer a mãe logo nos primeiros dias de vida.
Se por um lado o bebê já percebe parte do ambiente externo, o contrário também é verdadeiro: tudo o que acontece com a mãe pode influenciar seu desenvolvimento. Alimentação equilibrada, prática de atividades físicas orientadas, qualidade do sono, consumo de álcool, cigarro e outras drogas, além do controle de doenças como diabetes e hipertensão, são fatores que impactam diretamente a gestação.
Isso não significa, porém, que qualquer susto, estresse ou emoção momentânea cause prejuízos ao bebê. Inclusive, este pequeno ser passou a ser um cliente à parte, separado da mãe, apesar de um não viver sem o outro no período gestacional.
“Enxergamos o feto como um paciente. Isso significa que conseguimos acompanhar seu crescimento e vitalidade, diagnosticar doenças ainda durante a gestação e, em alguns casos, até tratá-las antes do nascimento, ainda mais com o advento da tecnologia para nos ajudar”, conta Tâmile. Ela também reforça que cuidar da mãe é uma das melhores formas de cuidar do bebê. Controlar doenças como diabetes e hipertensão, garantir uma boa alimentação, vacinação, pré-natal adequado, uso correto de vitaminas quando indicadas e hábitos de vida saudáveis impactam diretamente na saúde de ambos.
Para o médico obstetra José Carlos Jesus Gaspar, ginecologista e obstetra do Centro Médico Aliança, a tecnologia agora é crucial para que o tempo do bebê dentro da barriga seja saudável e sem imprevistos. “A obstetrícia evoluiu muito, especialmente com o uso da ultrassonografia para diagnóstico e datação da gravidez. Hoje contamos com o ultrassom morfológico do primeiro trimestre, entre 11 semanas e 13 semanas e seis dias, para avaliação do risco de cromossomopatias e de doença hipertensiva da gestação. Além disso, há os exames laboratoriais preventivos, o acompanhamento nutricional com nutricionista e o trabalho da fisioterapia pélvica, tudo com o objetivo de oferecer uma assistência humanizada ao parto e ao nascimento de um bebê saudável.”
Durante cerca de 40 semanas, o bebê aprende a engolir, respirar em treinamento, ouvir, sentir sabores, movimentar o próprio corpo e até reconhecer a voz da mãe. O útero deixa de ser apenas um abrigo e se transforma na primeira sala de aula do ser humano. É ali, entre chutes, cambalhotas, longas sonecas e um mundo de sons abafados, que começa a preparação para a maior aventura de todas: nascer.

























