A epidemia de varíola e o ‘dia dos mil mortos’

A tragédia provocada pela fome virou calamidade com a disseminação da varíola, que dizimou parte da população cearense em 1878.

A doença foi registrada bem antes na província da Paraíba, a primeira atingida: 74 pessoas morreram entre abril e maio de 1877, de acordo com os documentos citados por Cunniff.

Nos meses seguintes, o vírus foi percorrendo o caminho da procissão dos retirantes.

Subiu à província do Rio Grande do Norte e atingiu especialmente Mossoró, que recebia os sertanejos paraibanos. E entrou no Ceará pelo município litorâneo de Aracati, destino, por sua vez, de levas de migrantes vindas de Mossoró.

Quando chegou a Fortaleza, mais de 100 mil sertanejos já estavam aglomerados em campos e vivendo em péssimas condições de higiene.

Foto de crianças atingidas pela seca em Fortaleza

Fragilizados pela fome e aglomerados em acampamentos, os retirantes foram as primeiras e principais vítimas da epidemia de varíola | Foto: Biblioteca Nacional

Eram os chamados “currais do governo” ou abarracamentos, a solução encontrada pela administração local para lidar com os refugiados.

“(Os abarracamentos) Eram verdadeiras palhoças”, descreve o professor Gleudson Passos. “Umas colunas de pau, geralmente feitas de madeira de carnaúba, e uma cobertura. Esses espaços eram cercados e lá se amotinavam as populações que vinham dos sertões, para que elas não entrassem na cidade.”

Sem saneamento adequado, essas aglomerações foram decisivas para que a varíola explodisse na cidade.

“Os sertões haviam conseguido conter surtos de varíola antes da seca, mas foram eventos isolados e as autoridades não tinham dado importância suficiente a eles a ponto de tomarem medidas efetivas para que fossem eliminados. O deslocamento e a concentração da população afetada pela seca forjou as condições ideiais para o surgimento de uma epidemia”, escreveu Cunniff em The Great Drought.

Apesar do desastre humanitário, os abarracamentos continuariam sendo usados em secas posteriores, sob o nome de “campos de concentração”.

Nos arredores da capital cearense, dez desses currais reuniam cerca de 110 mil pessoas conforme os registros feitos à época pelo farmacêutico Rodolpho Teóphilo.

Em seu livro Varíola e vacinação no Ceará, ele descreveu a situação no pico da epidemia, quando hospitais estavam em ocupação máxima e as ruas, repletas de cadáveres — em dezembro de 1878, Fortaleza viveu o que ficou conhecido como o “dia dos mil mortos”.

Rodolpho Teóphilo | Foto: Fundação Waldemar Alcântara

‘Sombria desolação’

Rodolpho Teóphilo

Entrou setembro de 1878 e a seca tocava ao período mais agudo. O êxodo do sertão para o litoral era incessante e vasto.

A varíola propagou-se como um incêndio ateado na base de uma meda de palhas secas e alimentado por um fole.

No fim de outubro já não havia mais esperanças de restabelecer o serviço hospitalar mais ou menos regular dada a cifra de variolosos.

O pânico já começava a abater o ânimo da população mais agasalhada e domiciliada na área urbana, concorrendo para isso o triste e repugnante espetáculo do transporte dos cadáveres de variolosos pelas ruas mais públicas de Fortaleza.

Imagine-se um cadáver, meio putrefato, vestido apenas de ligeiros trapos, amarrado de pés e mãos a um pau, conduzido por dois homens, ordinariamente meio embriagados, e se terá visto o modo como porque iam para a vala os retirantes mortos de varíola em Fortaleza.

Quantas vezes as famílias chegando às janelas de suas casas entravam horrorizadas porque deparavam com estes esquifes estendidos nas calçadas e ao lado os carregadores, que, excitados pelo álcool, descansavam da carga palrando sem descanso.

Em dezembro, a peste atingiu o período agudo.

Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto estavam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada.

Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou mendigos saídos dos lazaretos com sinais recentes de bexiga confluente que lhes esburacou a cara ou deformou o nariz.

A 10 do mês o cemitério de Lagôa Funda recebia 1.004 cadáveres! Esse assombroso obituário, de um dia, encheu de pânico a quantos dele tiveram notícia.

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