A face excludente da Copa nos EUA

Por Magno Martins

A Copa do Mundo nos Estados Unidos começou longe da imagem de festa universal que a FIFA costuma promover. Em vez da celebração da diversidade e do encontro entre nações, os primeiros relatos do torneio revelaram um país cada vez mais fechado ao estrangeiro, onde o medo, a desconfiança e a seletividade no tratamento de visitantes refletem um ambiente político alimentado pelas políticas migratórias endurecidas do governo do presidente Donald Trump.

Nos aeroportos americanos, jogadores, jornalistas e torcedores de países africanos, árabes e asiáticos relataram abordagens constrangedoras e tratamentos que levantaram acusações de racismo e xenofobia. A recepção hostil contrasta com o ideal de uma Copa sem fronteiras e reforça a percepção de que, sob o discurso de segurança nacional, determinados povos continuam sendo vistos como suspeitos antes mesmo de cruzarem a imigração.

O contexto político ajuda a explicar o cenário. Desde seu retorno à Casa Branca, Trump retomou uma agenda de forte repressão à imigração, ampliando deportações, restringindo pedidos de asilo, endurecendo o controle na fronteira com o México e impondo novas restrições de entrada a cidadãos de 19 países, grande parte deles africanos, árabes ou de maioria muçulmana. A medida foi justificada pelo governo como uma ação de proteção à segurança nacional, mas recebeu críticas por reforçar uma política de exclusão baseada na origem dos estrangeiros.

A contradição se torna ainda maior quando o país que ergue muros e cria barreiras burocráticas tenta sediar o maior evento multicultural do planeta. O futebol, historicamente um espaço de mistura de povos e identidades, encontra nos Estados Unidos de Trump uma realidade marcada pelo nacionalismo, pelo controle rígido das fronteiras e por uma política migratória que transforma visitantes em potenciais ameaças.

Nem mesmo a paixão popular pelo esporte escapou da lógica de exclusão. A cobrança de valores exorbitantes pelos ingressos e o modelo de preços dinâmicos transformaram partidas da Copa em produtos acessíveis apenas a uma elite econômica. Assim, o torneio que deveria representar a universalidade do futebol acaba sendo marcado por duas barreiras: a fronteira para entrar no país e o preço para conseguir entrar nos estádios.

Racismo no aeroporto – A jornalista brasileira Karine Alves denunciou ter sido vítima de racismo ao desembarcar nos Estados Unidos para cobrir a Copa do Mundo. Segundo seu relato, ela foi submetida a uma abordagem diferenciada pelas autoridades de imigração, em um episódio que reforça as críticas à recepção dada a estrangeiros no país. “Quando cheguei nos Estados Unidos, eu não entendi direito, mas pediram que eu levantasse o cabelo de forma ríspida. Eu fiquei sem reação, mas depois entendi e levantei o cabelo, porque muitas mulheres negras passam por isso. Foi algo muito pontual, mas que outras colegas, por exemplo, não passaram por isso aqui”, disse.

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