Como força-tarefa de cientistas encontrou variante do coronavírus em Sorocaba
Por ora, não há evidências de que mudanças afetem gravidade da covid-19, mas há indícios de que elas podem diminuir a resposta imune e afetar a taxa de eficácia das vacinas
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Uma informação divulgada em entrevista coletiva do governo do Estado de São Paulo na quarta-feira (31/03) pegou todo mundo de surpresa: a vigilância epidemiológica paulista havia acabado de detectar uma nova variante do coronavírus .
“Terminamos a análise do material genético da rede de laboratórios com o Butantan e com universidades que estão fazendo esse trabalho. Em Sorocaba , foi identificada uma variante. É uma variante assemelhada à da África do Sul”, anunciou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.
A falta de mais detalhes sobre a nova linhagem deixou muita gente perdida: ainda não foram publicados estudos que detalham essa versão do coronavírus e o que ela poderia significar do ponto de vista da saúde pública.
A BBC News Brasil consultou cinco grupos de pesquisa nacionais e internacionais que fazem o acompanhamento e o sequenciamento genético do vírus causador da covid-19 , mas nenhum deles estava envolvido ou sabia algo sobre a variante de Sorocaba.
Com a ajuda de alguns especialistas, nossa reportagem localizou cientistas diretamente envolvidos na descoberta. A bióloga Maria Carolina Elias Sabbaga, vice-diretora do Centro de Desenvolvimento Científico do Instituto Butantan , está entre eles.
A especialista conta que o Butantan montou, no início de março de 2021, uma rede de vigilância genômica do coronavírus no estado paulista.
“A ideia é saber como está a distribuição das variantes em São Paulo, se apareceram alterações nos genomas e se os vírus estão mais ou menos problemáticos. Nós iniciamos com a análise de 100 amostras coletadas de pacientes com covid-19 por semana e já ampliamos para cerca de 500 amostras semanais”, relata.
A proposta dessa rede é fazer a detecção precoce de variantes potencialmente perigosas, para que as autoridades públicas possam lançar medidas capazes de contê-las antes que elas se espalhem para outros lugares.
Na prática, o esforço envolve dezenas de instituições públicas e privadas.
“Nós recebemos amostras de todas as regiões do estado e fazemos o sequenciamento genético. A seguir, enviamos os resultados para o Butantan, que tem uma equipe super capacitada para consolidar todos esses dados e fazer as análises necessárias”, detalha o médico geneticista David Schlesinger, CEO da Mendelics, único laboratório privado que faz parte da rede genômica paulista.
Antes mesmo de constituir essa rede de vigilância, o Butantan já era responsável por um enorme esquema de diagnósticos da covid-19 em São Paulo, que atende mais de 20 mil pacientes todos os dias.
Descoberta da nova variante
Sabbaga estima que a amostra de Sorocaba tenha sido coletada nos últimos 15 dias.
“Nosso objetivo é fazer os exames de sequenciamento o mais rápido possível, para que possamos detectar as variantes num intervalo muito curto, de modo que essa informação seja relevante para a saúde pública”, destaca.
O caso já foi descrito em um artigo científico, que acabou de ser submetido ao site MedRxiv e deve entrar no ar nos próximos três dias.
Isso permitirá que outros cientistas que não estão necessariamente envolvidos na pesquisa possam se atualizar sobre o assunto e fazer questões e análises independentes.
O artigo também deve ser divulgado em breve em uma publicação científica, que é revisada e editada por outros especialistas na área.
Mistérios sem resposta
Como adiantado por Covas , a variante encontrada em Sorocaba se assemelha muito à linhagem do coronavírus descrita na África do Sul a partir de outubro de 2020.
Na prática, isso significa que a amostra do interior paulista apresenta mutações genéticas muito parecidas à versão sul-africana , que possui alterações importantes na proteína da espícula, como é chamada a parte do vírus responsável por “invadir” as células do nosso corpo e dar início à infecção.
“A variante foi identificada na Baía de Nelson Mandela, na África do Sul, e tem múltiplas mutações na proteína S, incluindo as K417N, E484K e N501Y”, informa o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos.


























