Como um religioso catarinense viu em órfãos espalhados pelas ruas de Salvador um futuro diferente
Livro resgata a trajetória do fundador da Casa Pia, instituição que ensinou ofícios, difundiu contratos de trabalho e participou da construção de um modelo de trabalho livre em um dos principais centros escravistas do Atlântico
Por Mariana Rios

Casa Pia de São Joaquim: instituição pioneira que uniu educação e formação profissional em um Brasil ainda marcado pela escravidão; na foto, alunos de 1965 Crédito: Acervo Casa Pia
Quando desembarcou em Salvador, em 1798, o catarinense Joaquim Francisco da Costa encontrou uma cidade inquieta. Nas ruas circulavam órfãos, pobres e libertos sem ocupação fixa. As autoridades temiam revoltas. A escravidão dominava a economia. Diante daquele cenário, o religioso decidiu fazer algo incomum para a época: criar uma instituição para ensinar crianças abandonadas a ler, escrever e aprender uma profissão. Mais de dois séculos depois, um livro lançado em Salvador mostra como essa iniciativa ajudou a construir algumas das bases do trabalho assalariado no Brasil.
A história é contada em Casa Pia de São Joaquim: História, Patrimônio e Missão Social, obra que será lançada nesta quarta-feira (10), às 19h, no casarão da instituição, e aberto ao público. O livro reconstrói a trajetória de uma das experiências educacionais mais longevas do país e revela como a Casa Pia foi além da assistência a órfãos, participando da formação de trabalhadores livres em uma sociedade que ainda tinha a escravidão como principal motor econômico.
Nascido em 20 de março de 1761, na então cidade de Desterro, atual Florianópolis, Joaquim Francisco da Costa chegou à Bahia em um momento particularmente delicado. Documentos da época mostram que as autoridades luso-brasileiras observavam com preocupação o aumento da população pobre nas ruas de Salvador. Em maio de 1798, relatórios já mencionavam o receio de que pessoas consideradas “desamparadas” se envolvessem em revoltas e desordens.
O temor aumentava porque parte desses jovens circulava entre soldados, milicianos e grupos descontentes com a ordem colonial. Poucos meses depois, em agosto daquele ano, a Bahia seria palco da Conjuração Baiana, uma das mais importantes rebeliões do período colonial, marcada pela defesa da igualdade social e pelo questionamento da escravidão.
Foi nesse ambiente de tensão que o religioso decidiu agir. Em agosto de 1799, reuniu um grupo de órfãos e passou a acolhê-los na Capela de São José do Ribamar, localizada na região onde hoje fica o Barbalho. Nascia ali a semente da Casa Pia.
A proposta era inovadora. Em vez de apenas oferecer abrigo, a instituição buscava preparar aqueles jovens para a vida adulta por meio da educação e do aprendizado de um ofício. A ideia ganharia ainda mais força nas décadas seguintes.
A sede que se tornaria símbolo da Casa Pia já carregava sua própria história. O imponente edifício voltado para a Baía de Todos-os-Santos, na Avenida Jequitaia, foi construído pelos jesuítas para funcionar como noviciado e inaugurado em 1728. Com a expulsão da ordem religiosa dos domínios portugueses, em 1759, o prédio ficou abandonado durante décadas.
A mudança ocorreu em 12 de outubro de 1825, quando o local recebeu seus primeiros 28 órfãos. A partir dali, a Casa Pia consolidou um modelo educacional considerado pioneiro no Brasil ao associar escola, profissão e trabalho.
Sem castigos físicos
Os alunos recebiam inicialmente formação nas chamadas primeiras letras, aprendendo leitura, escrita e aritmética básica. Depois, eram encaminhados para uma segunda etapa, na qual aprendiam um ofício diretamente com mestres especializados.
Esse sistema representava uma novidade importante para a época. Além da formação prática, a instituição introduziu o ensino do desenho, considerado fundamental para diversas atividades profissionais. Também aboliu castigos físicos, prática comum em escolas e internatos do século 19.
No lugar das punições corporais, valorizava-se a disciplina, os exercícios físicos, o treinamento pessoal e as regras de convivência. Os regulamentos ainda exigiam vacinação, higiene bucal, corte de cabelo regular e banhos frios e de mar, medidas pouco usuais para o período.
As profissões ensinadas refletiam as necessidades de uma Salvador que crescia como centro comercial e portuário. Os jovens podiam se tornar carpinteiros, marceneiros, ferreiros, padeiros, alfaiates, caldeireiros, colchoeiros, funileiros, chapeleiros, cabeleireiros e caixeiros.
Alguns seguiam caminhos mais especializados, atuando como tipógrafos, livreiros, relojoeiros, boticários ou músicos.
Mas o impacto da Casa Pia foi além da qualificação profissional. Segundo a pesquisa apresentada no livro, a instituição ajudou a formar categorias profissionais que ganhariam importância ao longo do século 19, como os caixeiros e os trabalhadores fabris. Também contribuiu para disseminar a prática do trabalho remunerado em uma sociedade onde predominava a mão de obra escravizada.
Contratos e salários
Em muitos casos, os aprendizes eram encaminhados para atuar junto a mestres e empregadores mediante contratos que estabeleciam obrigações e pagamento de salários. O modelo ajudava a criar uma cultura de trabalho livre em um período em que a escravidão ainda estruturava a economia brasileira.
Os números ajudam a dimensionar a importância da experiência. Entre 1825 e 1910, a Casa Pia acolheu 1.323 internos.
A instituição, porém, também refletia as desigualdades de seu tempo. As vagas eram destinadas preferencialmente a meninos pobres e órfãos classificados como brancos. Somente em 1854 aparecem referências a mães crioulas, libertas e escravizadas nos registros da entidade. Os primeiros casos documentados de alunos negros surgem em 1858 e 1873.
Com a chegada da República, os critérios raciais tornaram-se gradualmente mais flexíveis. Ao mesmo tempo, o currículo acompanhou as mudanças da economia baiana. Novas disciplinas foram incorporadas, incluindo escrituração mercantil, datilografia e noções de agronomia.
A Casa Pia encerrou suas atividades como orfanato no final do século 20, mas sua história continua atravessando debates bastante atuais. Em um momento em que o país volta a discutir as relações de trabalho, a qualificação profissional e os rumos do mercado de emprego, a trajetória da instituição ajuda a lembrar que parte dessas transformações começou aqui na Bahia e muito antes da industrialização.
E que um de seus protagonistas foi um religioso catarinense que, ao chegar a Salvador há mais de 200 anos, enxergou nas crianças abandonadas algo que a sociedade da época raramente via: futuros trabalhadores, cidadãos e profissionais.
“O livro tem essa natureza: ele é história, mas também é futuro. Sobretudo na dimensão de enfatizar essas três dimensões, que é trabalho, caridade, do ponto de vista cristão, e educação”, explica o historiador Daniel Rebouças, que assina a obra com o colega Rafael Dantas e parceria com a pesquisadora Simone Marya de Moura.
A Casa Pia mantém uma escola que atende atualmente a 200 crianças. A realização de eventos em áreas específicas do conjunto arquitetônico permite a geração de recursos financeiros à manutenção do imóvel histórico e ao financiamento das atividades da escola. A maioria das crianças, matriculadas do grupo 2 ao grupo 5, permanece em tempo integral.
























