Crucificação: a abominável humilhação retomada pelo EI
Publicado em 12/07/2015
Punição imposta pelos jihadistas remete às barbáries cometidas nos primórdios das civilizações e funcionam como eficazes propagandas do poder do autoproclamado califado
Por: Edoardo Ghirotto
A Crucificação obra do pintor holandês Pieter Lastman – séc XVII
“Ficarão crucificados o dia todo e serão castigados com 70 chicotadas por romper o jejum do Ramadã”, diz a mensagem estampada nos cartazes que a polícia do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) pendurou nos pescoços de dezessete pessoas que foram crucificadas na Síria. A selvageria foi acompanhada por uma multidão que, não satisfeita com a humilhação das vítimas, zombou dos crucificados e atirou pedras contra eles. É difícil crer que execuções dessa natureza foram perpetradas há poucos dias, e não nos primórdios da civilização.
A crucificação carrega uma simbologia especial no Ocidente por remeter às passagens bíblicas que narram a morte de Jesus Cristo. Mas a punição já era usada em larga escala muito antes do veredicto acatado por Pôncio Pilatos. Historiadores acreditam que os romanos aprenderam a crucificar os prisioneiros em Cartagena, dominada em 149 a.C. A condenação era aplicada principalmente contra pessoas desprovidas de direitos, como os escravos e agitadores políticos e religiosos que ameaçavam a autoridade do Império Romano. Foram crucificados, por exemplo, aproximadamente 6.000 rebeldes que lutaram na rebelião iniciada pelo gladiador Espártaco. A prática também era comum no Império Persa, onde o rei Dario I crucificou cerca de 3.000 oponentes na Babilônia.
Na Roma antiga, o condenado tinha os braços presos a um pedaço de madeira horizontal e era flagelado e ridicularizado por multidões até chegar ao ponto de execução. No local, uma estaca fincada na terra continha as inscrições com o nome e o crime cometido pelo prisioneiro. Mãos e pés eram pregados na madeira e depois de crucificado, o condenado tinha as roupas rasgadas para ampliar a humilhação. O suplício durava, em média, doze horas. A causa da morte geralmente era exaustão ou parada cardíaca. Em alguns casos, as autoridades concordavam em quebrar as pernas do crucificado para acelerar a morte. O corpo, então, ficava exposto até que virasse comida para pássaros e outros animais.
A brutalidade era tamanha que os próprios romanos evitavam deixar registros do uso da crucificação. “Isso é importante porque, embora a crucificação fosse uma prática comum, os escritores não a discutiam em detalhes e não vemos sua representação na arte romana”, diz Felicity Harley-McGowan, especialista no cristianismo antigo e em arte medieval pela Universidade de Yale. “A elite intelectual romana considerava a crucificação uma prática associada aos bárbaros, não a uma sociedade civilizada”, afirma.
Os primeiros retratos da punição na antiguidade remetem justamente à morte de Jesus Cristo e visam à imortalização do episódio. O imperador romano Constantino, o primeiro a se converter ao cristianismo, aboliu a crucificação por volta do século 4 d.C. em respeito à religião. Por mais que a proibição tenha sido respeitada nos anos que se seguiram, a crucificação ressurgiu na Idade Média como uma forma de reforçar o controle das autoridades sobre o comportamento da população.
Barbárie – Séculos de história e evolução da humanidade separam o Império Romano do califado de terror autoproclamado pelo EI na Síria e no Iraque. Mas não são muito diferentes os motivos que levaram ambos a adotar uma forma tão brutal de execução e humilhação. “Sabemos por várias fontes que a crucificação era empregada pelos romanos com objetivo de dissuasão. As pessoas eram crucificadas em espaços públicos, geralmente nos portões das cidades ou na beira de estradas, para maximizar a visibilidade da execução. A prática era uma espécie de espetáculo visual”, afirma Felicity.
À rede CNN, o professor assistente de estudos islâmicos da Universidade Estadual da Geórgia, Abbas Barzegar, disse que esses atos violentos são “parte de uma campanha fundamentalista de retomada de símbolos antigos”. “As punições desse tipo raramente foram vistas no mundo muçulmano nos séculos recentes”, ressaltou Barzegar. Os jihadistas do EI vêm sistematicamente usando as crucificações – visualmente chocantes, fisicamente crueis e moralmente humilhantes – como forma de propaganda para aterrorizar as populações locais e também o Ocidente, pois sabem que as imagens dos corpos crucificados correm o mundo. “O EI precisa anexar um significado às suas mortes. Cometer meros assassinatos em um estado constante de guerra carece de valor. Eles precisam promover uma mensagem de propaganda por trás do que estão fazendo”, conclui Barzegar.
Trajetória do EI após proclamação do califado
1 de 11(Foto: Reuters/VEJA)
O começo – a queda das cidades de Raqqa e Mosul
Apesar de combater desde 2013 no Oriente Médio, o Estado Islâmico (EI) ficou mundialmente conhecido ao assumir o controle completo de Mosul, ao norte do Iraque, e Raqqa, ao norte da Síria. Raqqa é vista como a capital do autoproclamado califado islâmico. Especialistas divergem com relação a data exata em que os terroristas invadiram a cidade, uma vez que o controle geral do município só foi assegurado após combates entre o EI e outras facções extremistas que lutam na guerra civil síria. A última derrota da ditadura de Bashar Assad na região ocorreu em agosto de 2014, quando os jihadistas superaram o último foco de resistência do Exército na província de Raqqa e assumiram o controle da base aérea de Tabqa, localizada a 40 quilômetros do principal reduto dos radicais.
Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, caiu por completo nas mãos dos terroristas em 10 de junho de 2014. As Forças Armadas do país foram tomadas de surpresa com o avanço repentino dos jihadistas e abandonaram seus postos após os extremistas terem controlado o aeroporto local, prédios públicos e da imprensa e prisões. Centenas de milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas após a investida do EI contra a cidade.
2 de 11(Foto: AFP/Welayat Salahuddin)
Atrocidades contra civis apavoram o mundo
Estabelecido o califado islâmico em 29 de junho de 2014, não demoraram a surgir relatos das atrocidades cometidas pelos terroristas contra os civis que se negavam a seguir os radicais. Minorias religiosas e étnicas e muçulmanos que rechaçavam a selvageria dos jihadistas foram vítimas de decapitações, crucificações e execuções sumárias. Nem mesmo as crianças escaparam da brutalidade do EI. Relatórios produzidos por grupos de defesa dos direitos humanos mostram que terroristas estupraram até meninas de 8 anos de idade e as venderam numa espécie de “mercado negro” como escravas sexuais.
3 de 11(Foto: Social Media Website via Reuters/Reuters)
Decapitação de reféns e avanço na internet
James Foley, jornalista americano que estava desaparecido na Síria desde 2012, foi o primeiro refém ocidental executado pelo EI diante das câmeras. Vestindo um uniforme cor de laranja, Foley estava ajoelhado no deserto e responsabilizava o presidente Barack Obama por sua morte. Um radical encapuzado, vestido de preto e fluente em inglês, foi o responsável por decapitar o refém. Posteriormente, o carrasco ganhou o apelido de ‘John’ e foi identificado comoMohammed Emwazi, um rapaz nascido no Kuwait e criado na Grã-Bretanha. Emwazi se tornou uma das figuras de maior apelo propagandístico do EI e decapitou outros reféns americanos, britânicos e japoneses em vídeos divulgados pelo grupo na internet.
Obama é arrastado para o pântano do combate ao EI
A política externa nunca foi o forte da administração de Barack Obama. O presidente, visto como “fraco e hesitante” nos Estados Unidos, foi obrigado a dar uma resposta à população americana após a decapitação do jornalista James Foley. O país já vinha bombardeando o Iraque quando o Obama convocou um pronunciamento para anunciar uma coalizão internacional que focaria nos ataques ao EI. O plano incluía a autorização para bombardeios aéreos na Síria, o treinamento e fornecimento de equipamentos para rebeldes sírios e o envio de consultores americanos para o Iraque. O deslocamento de militares para combate em terra foi rechaçado por Washington. Mais de 10.000 mil terroristas foram mortos pela coalizão em nove meses, mas poucos avanços substanciais foram conquistados até aqui.
Hordas de estrangeiros se unem às fileiras terroristas
O EI despertou os piores temores de governos ocidentais. Um relatório divulgado em maio mostrou que 17.000 estrangeiros deixaram 90 países para combater nas fileiras do grupo terrorista na Síria e Iraque. Entre eles está Brian de Mulder, filho da brasileira Ozana Rodrigues que deixou a Bélgica para se unir aos jihadistas. Autoridades de diferentes países ampliaram o alerta contra o terrorismo em território nacional e intensificaram operações internas para impedir que jovens radicalizados deixem suas casas para lutar no Oriente Médio. Além de evitar o fortalecimento das colunas extremistas, a iniciativa tem o objetivo de impedir o retorno de radicais que poderiam cometer ataques em seus países de origem.
Primeiras derrotas
Com a logística fornecida pela comunidade internacional, tropas curdas conquistaram importantes vitórias contra o EI. Em janeiro, os jihadistas sofreram um expressivo revés após serem expulsos da cidade de Kobani, localizada na região fronteiriça entre a Síria e a Turquia. O comando dos extremistas também se tornou alvo de ataques aéreos e, segundo relatos do jornal The Guardian, feriram gravemente o chefe da organização, Abu Bakr al-Baghdadi. Fontes dizem que ele teria ficado paraplégico após o comboio em que ele viajava ser atingido por um míssil. O vice de Baghdadi, Abu Alaa Afri, foi morto em um ataque aéreo efetuado em maio.
Piloto jordaniano é queimado vivo
Sequestrado no final de dezembro, o piloto jordaniano Moaz Kasasbeh foi brutalmente assassinado em um vídeo divulgado pelo EI no início deste ano. Em retaliação aos ataques aéreos que a Jordânia vinha efetuando contra as posições do grupo, os terroristas trancaram Kasasbeh dentro de uma jaula e o queimaram vivo. As imagens foram divulgadas integralmente na internet pelos radicais. Até então, todos os vídeos da organização extremista com reféns mostravam decapitações.
Califado mantém ritmo expansionista
Os avanços das tropas curdas não diminuíram a ousadia dos terroristas do EI. Pelo contrário. O grupo extremista tomou o controle da cidade de Ramadi, capital da província de Anbar – a maior do Iraque -, e da histórica Palmira, localizada na Síria e considerada a joia arqueológica do Oriente Médio. Conhecida pelo conjunto de ruínas do Império Romano datado de 2.000 anos atrás, Palmira é Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 1980. O EI também cruzou fronteiras e se aproveitou do caos políticos em países como o Iêmen e a Líbia. No país africano, o grupo mantém células de apoio e gravou vídeos com a decapitação de cristãos em duas ocasiões. Outras alianças estratégicas foram firmadas com os jihadistas do Boko Haram, na Nigéria, e com pequenas divisões extremistas da Chechênia.
Destruição de antiguidades
O avanço do EI não representa somente uma grave crise humanitária. Os jihadistas fanáticos consideram uma blasfêmia toda representação de culturas pré-islâmicas e destroem relíquias de valor inestimável para a humanidade. Os radicais explodiram o templo do profeta Jonas, em Mosul, detonaram a cidade história de Nimrod, cujas ruínas do século XIII a.C remetem ao Império Assírio, e destruíram estátuas e artefatos de museus no Iraque. Os radicais também explodiram dois templos de Palmira e ameaçam destruir todas as antigas ruínas romanas da cidade.
EI afoga, carboniza e decapita prisioneiros
Com a proximidade do primeiro aniversário do califado islâmico, o EI voltou a causar repulsa no mundo ao publicar um vídeo em que prisioneiros são carbonizados, afogados e decapitados. As atrocidades foram cometidas na província iraquiana de Nínive, ao norte do país. Os fanáticos islâmicos separaram os prisioneiros em três grupos para aplicar as brutais sentenças de morte. Quatro homens foram presos dentro de um carro e morreram carbonizados após um extremista disparar um morteiro contra o automóvel. Outros cinco reféns foram trancados em uma jaula e foram submersos no que parece ser uma piscina – câmeras foram colocadas no interior da estrutura para registrar o afogamento das vítimas. Mais sete prisioneiros tiveram as cabeças decepadas por um colar de explosivos amarrado pelos terroristas em volta dos pescoços dos reféns.
Terror sem perspectiva de chegar ao fim
Vários são os motivos que impedem um combate mais efetivo o califado do EI. A fragilidade do Exército iraquiano, a impossibilidade de cooperação com a ditadura síria de Bashar Assad e o distanciamento que a comunidade internacional deseja ter do conflito após a custosa guerra do Iraque são alguns dos fatores. Neste cenário, é impossível fazer qualquer previsão para o fim do reino de terror. Jihadistas já postam em fóruns imagens da moeda oficial que o EI tem cunhado para circular nos territórios dominados no Oriente Médio. Revistas produzidas pelos órgãos de propaganda dos terroristas podem ser encontradas à venda até no Amazon. E atrocidades sem precedentes seguem ocorrendo com poucas perspectivas de que os extremistas serão punidos pelos seus crimes.