Documentário mostra faceta vulnerável de Janis Joplin
Documentário em cartaz no Cinema do Museu, em Casa Forte, rememora a vida da cantora norte-americana que se tornaria ícone do rock, ao morrer de overdose aos 27 anos
Camila Estephania

“Janis: Little Girl Blue”, de Amy Berg, coloca a vida pessoal da artista norte-americana acima de sua música, mostrando como a falta de acolhimento e amor em sua própria família a levou a um caminho trágico
A passagem de Janis Joplin pelo Brasil em 1970 foi um divisor de águas, segundo o documentário “Janis: Little Girl Blue”, de Amy Berg (indicada ao Oscar pelo documentário “Livrai-nos do Mal”, de 2006), que está em cartaz no Cinema do Museu. Após um período usando excessivamente a heroína, a cantora norte-americana aterrissou em solo carioca, onde a droga ainda inexistia, para curtir o Carnaval das escolas de samba e iniciar sua desintoxicação. A missão foi cumprida em parte, porque a cantora aplacava a abstinência com o álcool e, quando teve que cair na estrada novamente, acabou retomando o vício.
O namorado de hábitos saudáveis que conheceu nas terras tupiniquins não se afinou com o ritmo de vida da artista e partiu para o mundo, deixando uma Janis arrasada a se lamentar pelos shows. Motivada pela paixão, a cantora viveu a fase mais otimista da sua trajetória nos seus últimos meses, quando de fato largou os químicos, buscando convencer o amor perdido de que estava “limpa”. Exceto pela recaída fatal que a vitimou em 4 de outubro de 1970, apenas um dia antes do telegrama do amado chegar ao hall do hotel em que estava quando faleceu de overdose, em Los Angeles, avisando que queria reencontrá-la.
Apesar da tragédia, as cartas que Janis enviava à família, habilmente interpretadas por Cat Power no longa-metragem, demonstravam que a cantora vivia um momento realmente feliz, porque ela enfim se sentia realmente amada. A busca pela aceitação da sua personalidade, na verdade, era o que direcionava a vida da artista que se sentia plena no palco diante da resposta positiva da plateia, mas ia ao fundo do poço quando precisava enfrentar a solidão fora dele. Um trauma que a cantora carregava desde a infância, quando absorvia a rejeição dos colegas de escola que faziam bullying com a texana por a considerarem “feia e gorda”.
Fora dos padrões não só estéticos como também comportamentais da pequena Port Arthur, onde nasceu, Janis foi expulsa do coral da igreja ainda criança e só voltou a cantar aos 17 anos, quando descobriu que a sua voz era perfeita para o blues, o canto do lamento. Em 1963, mudou-se para o São Francisco para atuar como cantora de folk, chegando a prenunciar para o ídolo Bob Dylan que seria famosa, recebendo a indiferente resposta do músico: “todos querem ser”. Somente três anos mais tarde, a cantora se aproximaria do seu destino ao integrar o grupo Big Brother & The Holding Company, que estourou no Festival Pop de Monterey, em 1968, com a impactante execução de “Ball and Chain”.
A partir dali, seria inevitável que os holofotes se voltassem para a vocalista, que logo acatou as propostas para engatar a carreira solo. Embora todos enxergassem que a cantora seguiria um caminho mais amplo sozinha, a experiência a colocou no comando de um bonde fora dos trilhos. A proposta primordial de assumir sua identidade sucumbiu à necessidade de assumir a personagem da diva hippie, que a toda custo ela parecia tentar tornar verdadeira quando reportava a maré de boas novidades para a família em suas cartas. Na prática, essa imagem construída pelo sucesso se provava muito frágil quando se estabelecia o conflito entre a necessidade de expurgar os sentimentos no microfone e a vontade de vivê-los mais intensamente na realidade.
Talvez o maior mérito de “Janis: Little Girl Blue” seja trazer à tona essa faceta mais vulnerável da artista. Por não se sentir acolhida pela própria família, Janis Joplin estava sempre tentando encontrar a sua própria casa. Ao contrário do que se possa pensar, a atitude rebelde nunca desmereceu essa instituição, que a cantora enfim acabou ressignificando como música: a família imaterial que lhe coube.


























