Em rede nacional, Piñera reconhece violações aos direitos humanos durante as manifestações no Chile

A mudança no discurso de Piñera pode ter relação com a chegada ao país nesta segunda-feira (18) de uma missão de observadores da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que analisará os casos oficialmente registrados de abusos cometidos por militares

Sebastián Piñera e Bolsonaro (Foto: Reprodução Rede Globo)

Direto do Chile, especial para a Fórum

Na noite deste domingo (17), o presidente chileno Sebastián Piñera fez mais uma declaração em rede nacional, na qual finalmente admitiu que “houve abusos e atos de inusitada violência” por parte das forças militares e policiais durante as manifestações ocorridas no país nas últimas semanas.

A declaração parece chegar tarde, já que desde o início dos protestos seu discurso consistia em falar de violência somente por parte dos manifestantes, destacar os saques, incêndios e barricadas, além dos policiais e militares feridos durante a repressão.

Após um mês exato de convulsão social, essa é a primeira vez que ele reconhece que existiram abusos, embora não tenha lembrado de nenhuma das cifras oficiais. Segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) há 24 mortos, 37 casos de estupro, 221 pessoas que perderam a visão, centenas de casos de tortura e 26 mil detenções, sendo ao menos um terço delas consideradas ilegais.

A mudança no discurso de Piñera pode ter relação com a chegada ao Chile nesta segunda-feira (18) de uma missão de observadores da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que analisará os casos oficialmente registrados. Também conversarão com os advogados que já movem dois processos na Justiça, na tentativa de responsabilizar o presidente pelos crimes cometidos – muitos deles ocorreram durante o Estado de exceção decretado entre os dias 20 e 27 de outubro.

Em outra iniciativa, um grupo de parlamentares de oposição prepara uma acusação constitucional contra o presidente, na qual ele também é responsabilizado pelos crimes, e que, caso ela seja aprovada, poderia significar sua destituição. As organizações sociais reunidas na Mesa de Unidade Social, principal organizadora das mobilizações no país, também pretende se reunir com os representantes da CIDH, para solicitar um juízo internacional contra Piñera pelos crimes cometidos.

Tentando se mostrar alheio a tudo isso, Piñera apenas afirmou que seu compromisso é o de “garantir que não haverá impunidade aos que cometeram erros”. No entanto, esta é a primeira vez que admite que houve violações, e não foi acompanhada por nenhum anúncio concreto para que tais punições ocorram.

Além disso, dias atrás, foi difundido no país um áudio vazado do comandante-chefe dos Carabineros (polícia militarizada, similar à PM), general Mario Rozas, assegurando aos seus comandados que “ninguém será afastado por realizar procedimento policial, mesmo se eu for obrigado”. O governo chileno não tomou nenhuma medida a respeito desse escândalo.

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