Por Daniel Leite

Idealizador do Programa Fome Zero e fundador do PT, o escritor e frade dominicano Carlos Alberto Libânio, o Frei Betto, reprovou, ontem, os rumos do governo federal e o resultado da reforma política votada esta semana na Câmara Federal. Em sua palestra, proferida no III Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, no centro de Convenções do Recife, não poupou críticas à forma como a presidente Dilma e o próprio Lula se tornaram reféns do mercado financeiro e do Congresso.

Para o frade, que guarda uma proximidade pessoal com ex-presidente Lula, desde o final dos anos 70, época das greves do ABC Paulista, o PT não conseguiu implementar, com 12 anos no poder, “nenhuma mudança estrutural no País”. “Dilma entregou o poder ao PMDB, que empurrou esta trágica reforma política, enquanto o PT teve anos para implementar uma reforma de verdade, mas não fez. Deveria ter realizado uma reforma política, agrária, tributária e educacional muito antes. Esta reforma daí é uma sem-vergonhice”, analisou.

Apesar de não reconhecer outra força política que possa representar os avanços que a sociedade necessita, Frei Betto acredita que a crise de governabilidade que assombra o governo federal é fruto de erros do próprio partido que ajudou a construir. “O PT deixou de ser o partido dos pobres, da ética e da construção do socialismo no Brasil. Errou no momento em que preferiu segurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso. Ficaram encurralados e não ousaram”, destacou.

Em sua visão, os resultados da falta de legitimidade do PT trarão consequências muito graves. “Hoje, o governo perdeu a confiança no povo e o povo perdeu a confiança no governo. Vivemos um momento de depressão cívica que não favorece ninguém. Em dois anos de Planalto, aprendi que o poder não muda ninguém. Apenas faz com que a pessoa se revele. Precisamos deselitizar o poder no Brasil”, cravou.

SOCIEDADE
Segundo Frei Betto, o aumento da tensão social em torno da política é provocada pela ausência de investimentos em educação. Para ele, a sociedade não dispõe de um sistema educacional que incentive o pensamento crítico com relação à realidade. “Estamos diante de um ódio de classes que passa pela carência de espaços de debate políticos. A minha geração fazia um debate racional. Tínhamos projetos, éramos viciados em utopias. Mas este horizonte se perdeu”, disse.

Como exemplo, usou as manifestações de 2013 para traduzir a ausência de consciência política. “Protestava-se contra um mundo de coisas, mas sem nenhuma proposta concreta. E o pior: Não havia bandeiras, partidos, líderes nem ao menos comícios. Foram para as ruas como se estivessem em luto cívico, mas cadê a luz no fim do túnel?”, finalizou.

Fonte: FolhaPE