Pesquisador acha livro de receitas desconhecido de Clarice Lispector
O especialista Benjamin Moser confirma a autoria de Clarice Lispector em livro de receitas achado por um livreiro no bairro do Bixiga, em São Paulo

Um achado literário surpreendente acaba de movimentar o cenário cultural brasileiro e resgatar uma faceta inusitada de uma grande autora. O pesquisador americano Benjamin Moser teve acesso a um título até então desconhecido da escritora Clarice Lispector.
Trata-se do livro de receitas “Cozinha para Brincar”, localizado recentemente pelo livreiro Gilvaldo Amaral Santos na tradicional feira de antiguidades do Bixiga, em São Paulo.
Notando a assinatura da autora na primeira página, o dono do sebo de raridades O Buquineiro entrou em contato imediato com o biógrafo. Assim, mesmo após anos de pesquisa dedicada, ambos afirmaram desconhecer a existência do exemplar.
Parceria comercial e autoria
De acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo, a publicação foi impressa em 1970 pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica e se assemelha a livretos de supermercado.
O material, que traz ilustrações da artista plástica Odiléa Setti Toscano, reúne receitas lúdicas como “barcos de salsicha”, “omelete tira-prosa” e “bolo peteleco”. Além disso, a empresa confirmou que a distribuição desse formato promocional era uma prática comum na época.
Apesar de o nível de envolvimento da escritora no projeto ser incerto, a obra conta com a assinatura de Clarice Lispector no prefácio. Segundo Benjamin Moser, o tom do texto de abertura remete imediatamente ao estilo inconfundível dos seus clássicos infantis.
Quem conhece a escrita de Clarice a reconhece no livro, porque é algo que não se pode imitar”, destaca o biógrafo.
Distante das panelas
Curiosamente, a intimidade da romancista com o fogão era praticamente nula na vida real. Segundo o próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente, ele não se recorda da mãe preparando nada além do clássico cafezinho. Por isso, Moser especula que a motivação principal para o trabalho de Clarice tenha sido puramente financeira, sobretudo após a sua separação do diplomata Maury Gurgel Valente em 1959.
Ainda que a novidade não mude a compreensão profunda sobre a bibliografia principal da escritora, o documento ajuda a refletir sobre o contexto da mulher de classe média daquele período. Além de que o pesquisador sintetiza perfeitamente o impacto do achado: “O livro não é um ‘A Paixão Segundo G.H.’ e não acrescenta muito ao que já sabemos sobre Clarice, mas ainda assim é uma descoberta emocionante”.
Além disso, o forte odor de mofo do exemplar comprovou sua origem brasileira. O que levou o especialista a alertar para a falta de tradição na preservação de acervos no Brasil, cenário que propicia o esquecimento de raridades pouco prestigiadas.


























