Produtos da construção civil ficam até 19% mais caros e consumidores reclamam

Quando começou a reformar a cozinha de casa, o motorista por aplicativo Daniel Nascimento, 35 anos, pretendia usar a poupança para comprar o material e pagar a mão de obra, mas os gastos superaram as expectativas em quase 40%. O motivo foi a alta no valor dos insumos. Segundo o Índice de Preços no Consumidor (IPCA), os maiores acumulados dos últimos 12 meses foram da tinta (19,52%), cimento (14,51%), material hidráulico (3,83%) e mão de obra (3,05%).
“Meu pai fez uma reforma parecida na cozinha da casa dele, no ano passado, e gastou quase metade do que eu paguei. Fiz pesquisa de preço, chorei desconto e até consegui uns abatimentos, mas, mesmo assim, paguei mais caro. Já avisei a minha esposa que a próxima reforma só quando os preços baixarem”, contou.
As maiores despesas dele foram com o material de acabamento, como tinta e madeira. Já a professora Márcia de Souza, 44, que está ajudando a filha a construir uma casa, contou que o que mais pesou no orçamento foi o cimento. Segundo o IPCA, índice pesquisado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o cimento teve acumulado de 11,68% esse ano e de 14,51%, nos últimos 12 meses.
“Mesmo dividindo as despesas, a conta ficou salgada. A gente andou, pesquisou bastante e comprou o que era mais em conta e, ainda assim, ficou pesado. Como sobrou um pouco de cerâmica e tem um vizinho construindo aqui perto que comprou cimento a mais, a gente trocou o nosso material com o dele. Mas falta muito até a casa ficar pronta”, disse.
Proprietários, gerentes e vendedores de lojas de materiais de construção também reclamaram dos preços e disseram que alguns produtos quase dobraram de valor se comparado com o período antes da pandemia. Os principais vilões são o cimento e o bloco, insumos indispensáveis na maioria das obras.
Em média, o cimento tem custado de R$ 39,50 a R$ 49,90, dependendo da marca. Antes, era possível encontrar as melhores marcas por R$ 34,50. Já o milheiro do bloco está variando de R$ 850 a R$ 900. Esse produto custava R$ 480 antes da pandemia. José Felipe Ferreira, gerente administrativo da loja Carvalho Material de Construção, na Boca do Rio, frisou que apesar da crise a demanda não diminuiu.
“Na pandemia, tivemos que fazer lista de espera. Os clientes colocavam o nome na lista e ficavam aguardando pela chegada do material, às vezes, por 15 dias. Nesse período os preços dispararam. Um milheiro de bloco chegou a custar R$ 1,5 mil. Houve uma redução, hoje, está saindo por R$ 880, mas a gente esperava que o setor estivesse melhor”, contou.
A advogada Tatiana Carla Ferreira é proprietária da Ferreira Materiais de Construção, em Sussuarana, e contou que cimento e piso ainda são os principais alvos de reclamação. “Houve um pico nos preços durante a pandemia, porque a indústria foi afetada, mas a gente esperava uma diminuição que não ocorreu na mesma proporção. Desde o ano passado, os preços só aumentaram. O piso que custava R$ 24, hoje, está de R$ 38”, disse.
Vendedores no Imbuí e em Pirajá disseram que perceberam queda na demanda e acreditam que ela está relacionada com alta nos preços dos produtos e com a redução dos auxílios oferecidos no auge da pandemia.
Fatores
Apesar do aumento de preço, o vice-presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção do Estado da Bahia (Acomac-BA), Geraldo Cordeiro, afirma que os custos estão voltando ao equilíbrio gradualmente e apenas materiais influenciados pelo alto preço de de insumos como PVC, diesel e energia estão aumentando.
Cordeiro explica que a alta demanda em 2020 e 2021 e a escassez de insumos aumentaram o valor dos materiais no comércio. Durante o isolamento, o tempo em casa influenciou no interesse em fazer “puxadinhos” ou reparos, ampliando procura por produtos básicos, como bloco, cimento e aço. A busca resultou na escassez de materiais no mercado e consequente elevação do preço.
O cenário aconteceu ainda quando as fábricas estavam sem funcionamento e produção. Logo, a alta demanda, que eleva preços ainda foi ao encontro do desabastecimento mundial. O resultado da soma de fatores foi a baixa taxa de compra do consumidor.
Quem sentiu os efeitos nas contas do fim do mês foi Gilberto Cerqueira, gerente da loja de materiais de construção O Fazendão, em Cajazeiras. Ele conta que o estabelecimento está trabalhando no vermelho, com lucro diminuindo desde o início do ano. “Em 2020, começaram os aumentos […], as vendas foram recuando em 2021. Mas 2022, até agora, não disse para o que veio. As vendas caíram de 10% a 15%, não estamos tendo nem lucro porque para vender tem que praticamente colocar preço de custo”, ressalta.
A estratégia tem sido fazer promoções e disponibilizar parcelamento em até 12 vezes, porém, a estratégia não está compensando os gastos. Hoje, Cerqueira diz que está trabalhando apenas para “não fechar as portas”.
Construtores de imóveis, como José Nascimento, 55, também sentiram impacto da oscilação. Ele atua como pedreiro desde que era adolescente e contou que a crise valorizou a profissão ao mesmo tempo em que fez surgir mais amadores no mercado. Nascimento acredita que o aumento é produto da demanda.
“Não fiquei parado durante a pandemia, porque, com o auxílio, muita gente resolveu ajeitar as casas e isso elevou os preços. Mas a verdade é que todo mundo se considera pedreiro, e, com a crise de agora, muita gente tenta fazer o serviço sozinho, sem a orientação de um profissional. O resultado é um serviço mal feito e que precisa ser reparado depois. Cobro mais caro para consertar”, analisa.
O crescimento na demanda não é a principal razão para elevar os custos no entendimento do professor de economia da Unifacs e membro do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Alex Gama. Segundo ele, os reajustes no preço dos combustíveis e no barril do petróleo e a inflação impactaram mais que o poder de compra do consumidor.
“É um somatório de fatores. Houve aumento na demanda, com o auxílio e o home office promovendo reformas em casa, mas, sobretudo, houve um aumento de custo na produção dos insumos. O preço do diesel que encarece o frete, da energia usada na produção, a guerra que fez disparar o barril do petróleo e a inflação que afeta todos os setores influenciaram nesse resultado”, afirma.
Ele está pouco otimista com uma recuperação ainda esse ano. “A economia brasileira não está crescendo. Talvez, no próximo ano, a gente tenha uma tendência de recuperação, mas isso também vai depender das decisões do próximo governo”, disse.
Impacto na indústria
A indústria também vem sentido o impacto do aumento de preços. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgado em julho, apontou um acumulado é de 11,66% nos últimos 12 meses. O presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon), Alexandre Landim, afirma que para levantar um prédio são usados cerca de 300 insumos e que a alta nos preços está forçando o setor a mudar o mercado.
“Alguns insumos subiram muito acima dos indicadores econômicos, como o vergalhão de aço, tubos e conexões em PVC e fios e cabos de cobre. A pandemia provocou um desequilíbrio na cadeia de suprimentos em 2020, mas a gente esperava que a situação estivesse melhor no segundo semestre e a partir de 2021, o que não ocorreu. O Brasil sempre teve uma cadeia de produção muito bem desenvolvida, mas, diante do cenário, vamos buscar fornecedores externos e importar os insumos”, explicou.
Ele acredita que a inflação é uma das responsáveis pelo cenário, e frisou que a alta nos preços prejudica a todos. “Perde o contratante, quem vai construir e também os fornecedores, porque todos precisam rever os contratos e os custos. E perde também o comprador final, que tem a capacidade de compra afetada por conta dessa disparada nos preços”, disse.
Procuradas, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) e a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) preferiram não comentar o assunto.
Economia
Quem trabalha com reforma conta que é possível fazer uma economia significativa com algumas dicas e substituições. A arquiteta Bamidele Fasoyln comanda o escritório Casa de Maria Arquitetura Popular, voltado para pessoas de média e baixa renda moradoras de Salvador e Região Metropolitana, e deu algumas sugestões para reduzir os custos. Uma opção é substituir as cerâmicas pela pintura, adesivos ou papel de parede.
“A gente pode explorar a pintura de diversas formas e o resultado fica muito bom. É possível encontrar adesivos e papel de parede por R$ 49,90, o rolo, ou R$ 29,90, na promoção. Nos últimos anos, a tecnologia melhorou bastante a qualidade desses materiais e eles conseguem imitar mármore, cerâmica e madeira com qualidade”, explica.
Nas áreas molhadas, como banheiro e cozinha, é possível abrir mão da cerâmica até o teto e também nas áreas que serão cobertas pelos armários. Outra sugestão é usar materiais reaproveitáveis, como portas, janelas e pisos. A arquiteta recomenda conversar com o pedreiro, já que ele está em contato constante com pessoas que fazem reforma e podem ter materiais sobrando, além de garimpar na internet. Mas é preciso ter prioridades.
“Um erro bastante comum é se preocupar mais com o acabamento do que com as áreas hidráulica e elétrica. Exemplo: cobrir infiltração com cerâmica. Isso não resolve o problema. Depois de um tempo a peça vai ficar oca e cair, e a despesa será muito maior porque terá que quebrar, fazer o reparo e depois refazer o acabamento. É preciso seguir a ordem certa do serviço e evitar o desperdício de material”, aconselha.
Confira dicas de como economizar na obra:
- Adesivos e papel de parede são opções mais baratas que a cerâmica para revestir os cômodos e existem modelos que imitam mármore, pastilhas e madeira com qualidade;
- A pintura é outra opção para as paredes. É possível explorar formas e cores para deixar o ambiente mais agradável e iluminado, e custa menos que cerâmica;
- Evite desperdícios e erros conversando com um profissional antes de ir às compras, e peça detalhes sobre o material que de fato será necessário para a obra e a quantidade exata;
- Pesquise preços e converse com o pedreiro. Como ele está em contato com outras pessoas que fazem construção e reforma, pode ajudar a encontrar materiais reaproveitáveis que sobraram de outras obras;
- Não atropele as etapas do processo. Alguns serviços, como reparos da rede hidráulica e elétrica, precisam ser feitos antes do acabamento ou podem causar infiltração e queima de aparelhos, o que vai causar prejuízo;
- Economize cerâmica na cozinha abrindo mão de usar o material atrás dos armários e cubra parte da parede com adesivos ou pintura;
- Não tente mascarar o problema usando, por exemplo, azulejos para encobrir infiltração. A situação não será resolvida e o reparo vai custar mais caro;
- Infiltração é um problema sério e que merece atenção. Geralmente, é resolvido com a impermeabilização do solo ou da laje. Converse com um profissional;
- Profissionais afirmam que fazer certo é mais barato do que consertar, então, procure informação e ajuda antes de começar o quebra-quebra;
*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro


























