Por ainda estar em recuperação da Covid-19, a professora Glória Fátima Nascimento, de 58 anos, diretora do tradicional colégio Teresiano, na Gávea, Zona Sul do Rio, não pôde ir ao funeral do pai, Boanerges do Nascimento, de 88, que aconteceu nesta sexta-feira, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, também Zona Sul. Ele foi vítima da mesma doença, mas não conseguiu superá-la. Glória se despediu à distância, por meio de uma videoconferência, pela qual acompanhou o seultamento. Neste domingo, é sua mãe, Maria José do Nascimento, também de 88, que será enterrada, e Glória pretende acompanhar. Mais uma vítima do novo coronavírus. As duas gavetas funerárias ficarão juntas, uma em cima da outra.
A tristeza da família, no entanto, não acaba por aí. Conceição Aparecida, de 63 anos, irmã de Glória e filha do casal de idosos, ainda está internada, também por causa da Covid-19, ainda sem saber que perdeu os pais.
— Não tem racionalidade que dê conta. É um sentimento de pequenez, de percepção de como somos pequenos no universo e não dominamos nada. A vida é muito maior do que a gente imagina e dá muito mais dores do que imaginamos — afirma Glória.


O aposentado Boanerges, que era funcionário civil da Aeronáutica, e Maria José, dona de casa, estavam juntos há 64 anos. Eles moravam no Recreio e estavam respeitando o isolamento social. As compras de mercado eram feitas pelas filhas, que deixavam tudo na portaria para que funcionários do prédio ajudassem. O casal só saía de casa uma vez ao dia, para pegar sol, mas dentro do condomínio. Segundo Glória, no último dia 23, sua mãe teve diarreia e confusão mental, sintomas pouco comuns do novo coronavírus, mas dignos de atenção a quem integra o grupo de risco da doença. Maria José foi naquele mesmo dia para um hospital particular e ficou internada. Boanerges acordou no dia seguinte com falta de ar e foi levado para a mesma unidade de saúde. O diagnóstico dos dois não demorou a sair.
— Os médicos ligavam sempre, e um grupo de amigos médicos também nos ajudou. Eu faço parte de um grupo privilegiados que têm acesso ao um bom atendimento médico, não posso dizer que foi por falta de cuidado — elogia Glória.
Apesar do suporte, e além da idade avançada, o casal tinha outras complicações de saúde: ele era cardiopata; ela, diabética. Dias depois, Glória e Conceição começaram a sentir os sintomas e também foram internadas. Na madrugada de terça para quarta-feira, o primeiro baque: Boanerges não havia resistido. Cerca de 48 horas depois, na madrugada de quinta para sexta-feira, Maria José partiu, sem saber da morte do marido por causa dos medicamentos estava tomando.
— Foi tudo muito rápido. Ela estava no oxigênio e sedada. Ele foi se despedindo aos poucos. Meu pai era uma pessoa muito espiritualizada, foi a chama de uma vela se apagando aos poucos. Foram 64 anos casados. Eram muito amigos, não escondiam nada um outro. Tinha muita amizade envolvida — lembra a caçula.
Glória teve alta nesta sexta-feira, no início da manhã. Conceição deve voltar para casa na semana que vem.
— Neste momento, o isolamento é o mal necessário. Estamos falando de vida humanas e de um país que não levou a saúde pública a sério até hoje — lamenta Glória, que nos últimos dias se dividiu entre a própria recuperação e as brurocracias que a partida dos pais envolve: — É angustiante, porque a gente não sabe o que vai acontecer. Por mais informações que se tenha, não se pode fazer nada. É muito triste. Os profissionais que estão na frente estão em sofrimento muito grande. Uma enfermeira me dizia que, quando chegava em casa, chorava no chuveiro todo dia, por causa do medo de infectar os pais.

























