Queiroz depositou, pelo menos, 21 cheques na conta de Michelle Bolsonaro

Reportagem teve acesso à quebra do sigilo bancário de Fabrício Queiroz e mostra que, entre as suas movimentações milionárias, há outros pagamentos para a primeira-dama. Desde 2011 ela recebia cheques do ex-assessor

Por Fábio Serapião, da Crusoé

Quando o relatório do Coaf revelando as transações suspeitas de Fabrício Queiroz veio à luz, em 6 de dezembro de 2018, descobriu-se que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro, filho 01 do então presidente eleito, havia depositado cheques no valor de 24 mil reais na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. No dia seguinte ao escândalo, Bolsonaro justificou em entrevista ao Antagonista que o dinheiro era parte de um acerto de contas: Queiroz estaria pagando um empréstimo de 40 mil reais que ele havia feito ao amigo de longa data e faz-tudo da família. “Emprestei dinheiro para ele (Queiroz) em outras oportunidades. Nessa última agora, ele estava com um problema financeiro e uma dívida que ele tinha comigo se acumulou. Não foram 24 mil, foram 40 mil. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais, vai chegar nos 40 mil”, afirmou.

Desde a publicação do documento, o Ministério Público do Rio avançou na investigação sobre as movimentações “atípicas” de Fabrício Queiroz que somavam 1,2 milhão reais. De lá para cá, Flávio Bolsonaro passou a ser investigado por peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro por supostamente liderar o esquema conhecido como “rachadinha” operado em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Segundo o MP, Queiroz seria o operador financeiro do esquema, a quem cabia recolher parte dos salários dos funcionários para depois, entre outras coisas, bancar despesas pessoais do primogênito de Jair Bolsonaro.

Ninguém tinha conseguido, no entanto, esmiuçar as movimentações suspeitas nas contas do amigo pessoal do presidente da República. Até agora. Crusoé teve acesso com exclusividade à quebra do sigilo bancário de Queiroz autorizada pela Justiça a pedido dos investigadores. Os extratos não só detalham todas as transações financeiras do ex-assessor entre os anos de 2007 e 2018 e mostram o intenso fluxo de valores creditados em conta como contrariam a primeira e única versão apresentada por Bolsonaro na tentativa de justificar os pagamentos a Michelle Bolsonaro. Os cheques que caíram na conta da primeira-dama não somam nem 24 mil nem 40 mil reais, como havia afirmado o então presidente eleito em dezembro de 2018, mas 72 mil reais.

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Os extratos mostram que a conta de Michelle começou a ser abastecida por Queiroz em 2011. Pelo menos 21 cheques foram depositados entre 2011 e 2018. Michelle recebeu do ex-assessor de Flávio Bolsonaro três cheques de 3 mil reais em 2011, outros seis do mesmo valor em 2012 e mais três de 3 mil reais em 2013. Em 2016, as movimentações bancárias registram nove depósitos, totalizando 36 mil reais. Os cheques foram compensados em 25 de abril, 19 e 23 de maio, 20 de junho, 13 de julho, 22 de setembro (dois), 14 de novembro e 22 de dezembro.

Em todos os extratos bancários de Queiroz, porém, não há um depósito sequer de Jair Bolsonaro na conta do ex-assessor — nem os 40 mil reais que seriam o montante do tal empréstimo nem qualquer outra quantia. Desse modo, tudo leva a crer que, se houve de fato um empréstimo, ele foi feito em espécie, o que o livrou de ser registrado pelo sistema financeiro nacional. Para além dos repasses efetuados para Michelle Bolsonaro, o escrutínio nos extratos de Queiroz reforça que os valores creditados nas contas do ex-assessor de Flávio Bolsonaro estão muito acima de seus rendimentos como policial militar e servidor da Alerj.

Entre 2007 e 2018, período da quebra de sigilo autorizada pela Justiça do Rio de Janeiro a pedido do MP, estão registrados como créditos na conta de Queiroz 6,2 milhões de reais. Do total, 1,6 milhão aparecem identificados como recebimentos de salários da PM e da Alerj. Outros 2 milhões de reais estão atrelados a 483 depósitos de servidores do gabinete de Flávio Bolsonaro – o valor pode ser ainda maior, já que foram contabilizadas apenas as transações nas quais Queiroz foi nominalmente identificado. Há ainda 900 mil reais em créditos em dinheiro em espécie sem identificação do depositante.

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Em 2011, ano em que Queiroz depositou o primeiro cheque para Michelle, por exemplo, o ex-assessor recebeu em suas contas 400 mil reais – uma média mensal de 33 mil reais. Desse montante, 158 mil reais foram depositados em dinheiro vivo. No ano seguinte, 2012, quando fez seis depósitos na conta da hoje primeira-dama, a renda de Queiroz foi turbinada ainda mais: o policial militar recebeu 597 mil reais, ou seja, uma média de 49,7 mil reais mensais. Em 2013, o ex-assessor do 01 amealhou 474 mil reais. Em 2014, mais 473 mil. Em 2015, 542 mil reais. Por fim, no ano de 2016, foram creditados a ele 696 mil reais, uma média mensal de 58 mil reais – 223 mil em espécie.

Como agora se sabe, a partir das investigações tocadas pelo Ministério Público do Rio, pelas contas de Queiroz também passaram recursos transferidos por familiares de Adriano da Nóbrega, o miliciano condecorado por Flávio Bolsonaro que foi morto em fevereiro deste ano. Os extratos registram repasses feitos a partir de contas da mãe, da ex-mulher e de restaurantes ligados a Nóbrega.

É por todas essas transações tão vultosas quanto suspeitas que os investigadores classificam Fabrício Queiroz como o arrecadador de valores desviados da Alerj e intermediador de remessas de recursos ilícitos para os demais integrantes da suposta organização, entre eles o filho 01 do presidente. Os novos cheques para Michelle Bolsonaro acrescentam mais um elemento ao enredo de potencial ainda altamente explosivo, o que talvez ajude a explicar a súbita mudança de comportamento do presidente a partir do instante em que foi anunciada a prisão do mais notório de seus amigos.

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