Tráfico do Jacarezinho atira com munição das Forças Armadas e de polícias

Traficantes do Jacarezinho usam munição das três Forças Armadas — Exército, Marinha e Aeronáutica — para atacar policiais. É o que mostra um rastreamento feito pelo EXTRA a partir de laudos de exames de cartuchos apreendidos na favela da Zona Norte do Rio em 6 de maio, durante a operação mais letal da história do estado, que terminou com 28 mortes — entre elas, a de um agente. Além disso, foram encontrados com criminosos, naquele dia, projéteis desviados das polícias Federal, Rodoviária Federal e Militar.
Ao todo, 81 cartuchos comprados por forças de segurança foram apreendidos durante a operação, realizada pela Polícia Civil. Todos estavam em carregadores ou dentro de armas encontradas com traficantes. A munição faz parte de 39 lotes vendidos pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) a forças de segurança.
O EXTRA conseguiu rastrear a origem de 24 cartuchos. Cinco pertencem a um lote que, apesar de ter sido vendido a militares, foi produzido de forma irregular. Projéteis marcados com a sequência AHW55, calibre 9mm, foram apreendidos ao final de um confronto que resultou na morte de seis suspeitos na Travessa Santa Laura. A munição integra um lote que, comprado pela Aeronáutica em 2010, totalizava 1.970.000 unidades, 200 vezes mais que o limite permitido no Brasil.
Desde 2004, uma portaria do Exército estabelece que lotes comprados por forças de segurança devem ter até 10 mil cartuchos — justamente para dificultar desvios. Um exemplo de violação da regra é o lote UZZ18 comprado pela Polícia Federal, do qual saíram os projéteis usados para assassinar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Tinha 1.859.000 cartuchos. Até hoje, três anos após o crime, não se sabe como as balas foram desviadas.
Em abril do ano passado, o Exército publicou uma portaria que tinha como objetivo diminuir ainda mais o número de cartuchos por lote, para facilitar o controle da munição. O texto determinava que, “a cada dez mil unidades comercializadas, deverá ser utilizado um único código de rastreabilidade, podendo ser marcadas frações menores até um mínimo de mil unidades”. O presidente Jair Bolsonaro determinou, horas após a publicação, a revogação da portaria.
Também foram recolhidos projéteis de outros dois lotes adquiridos pela Aeronáutica, o AKH68 e BEB90. Peritos receberam ainda balas que saíram do Exército, da série ZXX59, e da Marinha, que teve parte do lote BME39 desviado para o tráfico do Jacarezinho.
Entre outros lotes identificados, alguns são “velhos conhecidos” da polícia do Rio. Um deles é o BCL69, comprado pela PM em 2014. Um de seus projéteis, calibre .40, foi encontrado dentro de uma pistola apreendida com um homem morto por agentes no Beco da Síria. Antes, a série já havia aparecido na Rocinha, dominada pela mesma facção que controla a comunidade da Zona Norte — dois cartuchos desviados estavam com um motociclista que levava um saco cheio de balas para outra favela, em maio de 2019.
Cinco meses depois, munição do mesmo lote foi encontrada pela PM com um miliciano que fazia cobranças junto a moradores da favela Bateau Mouche, na Zona Oeste.
Ainda no Jacarezinho, cartuchos do lote ALO18, adquirido pela Polícia Federal em 2014, foram apreendidos numa casa da Rua do Areal, onde agentes mataram dois suspeitos. Projéteis da mesma série — que tiveram como destino as superintendências de São Paulo e do Rio Grande do Sul da corporação — também já haviam sido encontrados com criminosos do Rio em pelo menos duas oportunidades. Em fevereiro de 2020, faziam parte de um arsenal da milícia de Queimados descoberto numa operação. E, em dezembro de 2018, balas do lote foram achadas em Nova Friburgo, na casa de um PM acusado de integrar uma quadrilha especializada em roubo de cargas.
Respostas
Perguntada se vai investigar como a munição desviada foi parar nas mãos dos traficantes do Jacarezinho, a Polícia Civil do Rio alegou que, “em relação aos lotes teoricamente relacionados às Forças Armadas ou federais”, “a competência é da União; já em relação à PM, a competência é de auditoria militar”. A corporação informou que vai notificar as respectivas forças de segurança sobre as apreensões “no curso das investigações”.
O EXTRA também procurou as corporações que tiveram lotes apreendidos para saber se há alguma investigação sobre os desvios de munição. A Aeronáutica informou que já registrou o extravio de um total de 30 projéteis do lote AHW55. Há um inquérito em curso para apurar o desvio de cartuchos. A Polícia Rodoviária Federal alegou que “não recebeu qualquer comunicação sobre apreensões de munições pertencentes a lotes comprados pela instituição em mãos de criminosos”. Já a PM afirma que vem “aprimorando seus processos administrativos com vistas ao controle de armas e munições”, mas não respondeu se apura o desvio dos lotes achados no Jacarezinho. As demais corporações (Polícia Federal, Exército e Marinha) não se manifestaram.


























