Um duelo entre conservadores e progressistas na disputa presidencial

João Vitor Pascoal – Diario de Pernambuco

Os pré-candidatos à Presidência Eduardo Jorge, do PV, e pastor Everaldo, do PSC, vão disputar faixas específicas do eleitorado brasileiro. Foto: PV/ Divulgação e Lúcio Bernardo Júnior/Agência Câmara (PV/ Divulgação e Lúcio Bernardo Júnior/Agência Câmara)
Os pré-candidatos à Presidência Eduardo Jorge, do PV, e pastor Everaldo, do PSC, vão disputar faixas específicas do eleitorado brasileiro. Foto: PV/ Divulgação e Lúcio Bernardo Júnior/Agência Câmara

Para Eduardo Jorge, ambas as questões são muito maiores do que as discussões em campanhas eleitorais. Sobre o aborto, o pré-candidato destaca que ninguém pode impor suas convicções e pensamentos para julgar a opção realizada por outras pessoas que vivem em circunstâncias diferentes. “Muitas vezes, são mulheres pobres com quatro, cinco filhos. Quem é o Estado para julgar isso? Quem é o religioso para julgar isso?”, indaga. A legalização da maconha, segundo ele, seria um modo de por em prática o que chama de “política de enfrentamento à economia do crime”. “No Brasil, adotamos uma postura de enfrentamento às drogas, que é utilizada nos Estados Unidos baseada equivocadamente na repressão, o que só piorou o cenário e fortaleceu os criminosos, criando uma verdadeira economia do crime, onde o tráfico de drogas é um dos braços principais”, afirma.

Apesar de serem considerados “zebras” na corrida eleitoral, pastor Everaldo e Eduardo Jorge só têm em comum a confiança na vitória nas urnas. “Nunca vi candidato que concorre sabendo que não vai ganhar. A vitória é daqueles que acreditam nela”, destaca um confiante Everaldo. O discurso é corroborado pelo candidato verde. “Queremos fazer diferente, queremos ser uma alternativa que deve ser levada em conta pelo eleitor. Eu acredito na vitória”, destaca Eduardo.

Apesar do otimismo dos dois pré-candidatos, de acordo com Leonardo Barreto, a chance de um deles sair vencedor nas eleições é remota. Para ele, quem decide abordar temas que levantam polêmicas durante a corrida presidencial dificilmente obtém sucesso. “Quando você escolhe uma extremidade ideológica, você tem um limite de crescimento diante do eleitor. Tanto o pastor Everaldo quanto Eduardo Jorge devem ficar satisfeitos com algo em torno de cinco ou seis milhões de votos”, explica.

Apesar de ter apoiado Dilma em 2010, Everaldo Pereira diz que partido vai manter a candidatura dele à Presidência. Foto: Carlos Santos/DN/D.A Press (Carlos Santos/DN/D.A Press)
Apesar de ter apoiado Dilma em 2010, Everaldo Pereira diz que partido vai manter a candidatura dele à Presidência. Foto: Carlos Santos/DN/D.A Press

Evangélico
Na política desde 1982, pastor Everaldo tem em seu currículo participações em campanhas presidenciais de Lula e Brizola, e de Anthony Garotinho para o governo do Rio de Janeiro. Atual vice-presidente do PSC, foi anunciado pelo partido como candidato em maio de 2013. Desde então, tem viajado pelo país para divulgar, ainda pré-oficialmente, a sua candidatura. Nessas viagens ele diz perceber o “desejo generalizado de mudança”, e se mostra como alternativa ao governo “intervencionista e estatizante” da presidente Dilma Rousseff (PT), apoiada por ele nas eleições de 2010.

Everaldo é pastor da Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica em número de fiéis do país, com 12,3 milhões de seguidores. Apesar disso, ele parece querer dividir os dois papéis. Mesmo utilizando em sua candidatura o título de pastor, Everaldo afirma concordar 100% com a máxima que diz que política e religião não devem se misturar.

“Para mim, religião tem que estar separada de política. A primeira pessoa que fez isso foi Jesus quando disse: ‘Dá a César o que é de César, e dá a Deus o que é de Deus’. Religião fica dentro da minha igreja”, destaca. Isso não significa porém, que a fé não influencie no discurso. “Uma coisa é religião, outra coisa são os princípios cristãos. Jesus deixou princípios”.

Apesar de (ou justamente por) apostar em uma postura conservadora sobre temas polêmicos, Everaldo aparece com 3% das intenções de voto na primeira pesquisa de
intenções de voto realizada pelo Ibope com o cenário eleitoral desenhado até o momento para as eleições de outubro, percentual considerado bom para um candidato pouco conhecido. Questionado se “corre por fora” nas eleições, ele brinca. “Eu estou é correndo por dentro, claramente. Estou tecnicamente empatado com o governador Eduardo Campos (PSB).”

De acordo com Everaldo, a decisão de ter uma candidatura própria às eleições deste ano foi tomada em janeiro de 2011 quando o partido percebeu “os rumos que o governo atual iria tomar”. “O governo aparelhou o Estado, uma coisa descabida. São quase 40 ministérios e mais de 25 mil cargos de confiança”, destaca o pré-candidato.

Em 2010, Pastor Everaldo decidiu apoiar a candidatura de Dilma Rousseff cinco meses antes das eleições. Anteriormente, conversava com o então candidato do PSDB José Serra. Quando questionado se, neste ano, o PSC pode repetir o que aconteceu nas últimas eleições, e optar por apoiar um outro partido, ele foi enfático. “Nós temos convicção de que vamos seguir com uma candidatura própria. Inclusive, já temos uma convenção nacional marcada para o dia 14 de junho, em São Paulo. Não existe a possibilidade de voltar atrás dessa decisão”.

Eduardo Jorge vai defender a legalização da maconha e a discriminalização do aborto na campanha presidencial. Foto: Idevanir Arcanjo/ Divulgação (Idevanir Arcanjo/ Divulgação)
Eduardo Jorge vai defender a legalização da maconha e a discriminalização do aborto na campanha presidencial. Foto: Idevanir Arcanjo/ Divulgação

Novidade
Diferentemente do que ocorreu em 2010, neste ano, a candidatura do Partido Verde (PV) à Presidência da República chega sem restrições. Na última eleição presidencial, o PV teve que tirar da pauta bandeiras como a legalização da maconha e a discriminalização

do aborto para poder contar com a candidatura da ex-ministra Marina Silva, hoje no PSB. Dessa vez, esses temas fazem parte dos dez pontos programáticos lançados na semana passada durante o anúncio do nome de Eduardo Jorge como pré-candidato. Em 2010, segundo ele, o partido fez concessões devido ao perfil pessoal de Marina. “O PV não pode impor nada. Houve tolerância ao perfil religioso evangélico dela”, destaca.

Agora, sem amenizar o tom, o Partido Verde pode voltar a marcar a “posição de vanguarda” no cenário político nacional. Eduardo dá destaque em seu discurso aos temas deixados de lado por Marina, mas tirando o estigma do PV de promover o uso da maconha ou da realização do aborto. “O PV não estimula o aborto. Só queremos que as pessoas possam ter escolhas. Não acredito que o aborto seja uma solução para o problema de planejamento familiar do Brasil, mas sim, uma solução para a falta de políticas públicas de incentivo ao planejamento”, pondera.

Sobre a legalização da maconha, outro ponto destacado nas diretrizes de sua pré-candidatura, Eduardo destaca novamente que a postura do PV não é um estímulo. “Nós não estimulamos o uso da maconha ou de qualquer outra droga, seja ela legal ou ilegal”. Para ele, os usuários de drogas devem ser tratados com assistência social e psicológica e não com repressão policial. “As estatísticas mostram que entre 1,5% e 3% da população brasileira é usuária moderada, é muita gente. O problema são os que abusam do uso da maconha e que, por problemas diversos, partem para o uso de outras drogas. Em vez de gastar com repressão, devemos gastar com o SUS, já que hoje, 60% das famílias que têm que internar um parente com problemas com drogas tem que bancar do próprio bolso. O PV quer tirar essa fonte de recurso do ‘exército do crime’ e focar na pessoa que realmente precisa de ajuda”.

Com um discurso pouco usual nos debates eleitorais, Eduardo aposta que pode ser a novidade da eleição. Para ele, o cenário atual carece de candidatos diferentes. “Não estamos entre os favoritos até o momento. Mas quando olhamos as três candidaturas apontadas como favoritas (Dilma Rousseff, Eduardo Campos e Aécio Neves) percebemos que elas convergem, com mais ou menos intensidade, a uma mesma corrente política liberal-socialista”.

Em comum com a última candidatura segue a postura de colocar o desenvolvimento sustentável em pauta no debate político, mas sem restringir o eleitorado. “Nossa candidatura é para mostrar que existe uma corrente política no Brasil que coloca isso como paradigma central. “Estamos falando para todos, não queremos ficar só no verde, queremos atingir todo mundo”, acrescenta.

Sobre a chance, até o momento bastante alta, de não ir ao segundo turno, Eduardo afirma que, ao contrário de 2010, o PV vai escolher um dos lados. Naquela ocasião, Marina Silva obteve mais de 20 milhões de votos. “Em 2010, a maioria decidiu ficar neutro, o que eu considerei uma atitude egoísta, já que o eleitor do PV decidiu aquela eleição”, destaca o pré-candidato. O fato de Eduardo Jorge ter sido deputado por 20 anos pelo PT e um dos fundadores do partido, apoio da legenda à Dilma pode estar desenhado.

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