Crise coloca governo nas mãos da ‘velha política’

Josias de Souza

O curto-circuito provocado pelo vazamento de antigas mensagens trocadas pelo então juiz Sergio Moro com o procurador Deltan Dallagnol deixou o governo na posição que Jair Bolsonaro mais abomina no Congresso: nas mãos dos comandantes daquilo que o presidente chama de “velha política”. O governo depende do centrão para blindar a reforma da Previdência e obter o crédito extra de R$ 248 bilhões de que precisa desesperadamente.

Num instante em que a oposição acena com a obstrução das principais atividades do Legislativo, o centrão tornou-se ainda mais estratégico. Donos de algo como duas centenas de votos, os partidos do grupo podem oferecer ao Planalto estabilidade ou turbulência. Planejam fornecer um coquetel com os dois ingredientes.

Pelo bom andamento da reforma previdenciária, o centrão ensaia uma aliança com o PSL de Bolsonaro e o Partido Novo. Comprometeu-se com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a contribuir para que não se repita o que sucedeu sob Michel Temer, quando o grampo do Jaburu mandou para as calendas a mexida na Previdência.

Simultaneamente, para segurar o governo pelo colarinho, o centrão articula uma nova parceria com o bloco da oposição em torno de dois requerimentos. Num, convoca-se Sergio Moro para prestar esclarecimentos no Legislativo. Noutro, requisita-se a instalação de uma CPI da Lava Jato. A ideia é manter essas iniciativas engatilhadas à espera da divulgação de novos lotes do conteúdo surrupiado de celulares da turma da Lava Jato.

Liberando o caminho da Previdência, o centrão vacina-se contra a acusação de que atua para travar a recuperação da economia. Conservando Moro e a Lava Jato na alça de mira, o grupo, apinhado de congressistas enrolados, esclarece ao Planalto que não fechou o paiol. E se equipa para virar a página do combate à corrupção. Para trás.

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