MP recorre, e policial do Bope é condenado a 29 anos de prisão por ajudar traficantes

Um dos presos, o cabo Meleipe, trabalhava na escolta de um integrante do alto escalão da Secretaria de Segurança
Um dos presos, o cabo Meleipe, trabalhava na escolta de um integrante do alto escalão da Secretaria de Segurança Foto: Divulgação
Rafael Soares

O cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Rodrigo Mileipe Vermelho Reis foi condenado a 29 anos de prisão por repassar informações sobre operações da unidade em troca do pagamento de propina pelos criminosos. Mileipe foi um dos cinco PMs do Bope presos em dezembro de 2015, pela operação “Black Evil”, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP do Rio. No entanto, o cabo foi o único dos agentes a ser absolvido em primeira instância. A Promotoria recorreu, e a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio decidiu, por unanimidade, pela condenação.

O voto do desembargador Flávio Marcelo de Azevedo Horta Fernandes enumera uma série de provas colhidas durante a investigação que comprovam a participação de Mileipe na quadrilha de PMs. “Quando houve a prisão de Fabiano Amado Nicollelio, vulgo ‘Macarrão’, este confessou, informalmente, que Rodrigo seria o responsável por recolher o dinheiro na Favela do Juramentinho. Na oportunidade, o traficante descreveu as características físicas do Réu – homem branco, “careca” e com uma tatuagem de caveira em um dos braços”, escreveu o magistrado, na decisão. Uma busca feita na casa do agente levou ao encontro de R$ 66.900,00 em espécie embaixo de um colchão.

Por último, ainda segundo a decisão, Rodrigo ainda mantinha contato com o chefe do bando, o também PM Silvestre André da Silva Felizardo, que recebeu, ao final do processo, a maior pena: 80 anos. Os demais agentes — Maicon Ricardo, André Silva e Raphael Canthé — foram condenados a 48 anos de reclusão.

Os policiais foram condenados em primeira instância após vir à tona o depoimento de Leonardo Barbosa da Silva, o Léo do Aço, chefe do tráfico das favelas Antares e Rola, na Zona Oeste do Rio, revelado pelo EXTRA. O traficante foi convocado como testemunha de defesa pelos advogados de um dos policiais acusados. Para os promotores do caso, a estratégia tinha como objetivo que o bandido desmentisse a acusação, dizendo que nunca recebeu dinheiro dos agentes. No entanto, o criminoso, levado do Complexo de Gericinó direto para a sala de audiência da Auditoria Militar, não só admitiu que fazia pagamentos semanais de até R$ 70 mil a um policial do batalhão como também detalhou os bastidores de um esquema de propina no coração da tropa de elite da PM.

A promotora Angélica Glioche, do Gaeco, durante coletiva sobre a operação que prendeu os policiais do Bope
A promotora Angélica Glioche, do Gaeco, durante coletiva sobre a operação que prendeu os policiais do Bope Foto: Guilherme Pinto

“Ele (o PM) falava diariamente comigo. Eu que ordenei ele a dar bom dia e boa noite, pedir desculpa quando o comboio fosse para algum lugar que não fosse aquele local certo. Haveria o respeito de poder pedir desculpa. Tanto da nossa parte quanto da parte dele”, disse o bandido. Ao final do relato, Léo apontou o soldado Raphael Canthé dos Santos como o PM para quem ele entregava o dinheiro “na mão”.

A investigação feita pelo Gaeco, com a colaboração da Coordenadoria de Inteligência da PM, da Corregedoria da corporação e do próprio Bope, interceptou mensagens trocadas entre policiais e os traficantes. Numa delas, o cabo Felizardo avisa para seus colegas sobre a ordem de dar bom dia e boa noite aos bandidos: “Mn vc ten q dar o bom dia e boa noite pós amig para tranq uilisa os mn Vlw (sic)”.

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