O Brejo da Serra, em Pilão Arcado, está morrendo

Por: Dorgival Mangueira Bastos

Em setembro deste ano de 2016 visitei o Brejo da Serra acompanhado do Eng Agrônomo Dorgival Mangueira Bastos, meu tio, e ,  como um leigo que desejava conhecer melhor as razões que estão levando á extinção das espécies nativas nos brejos, inclusive dos preciosos buritizais, á levado á seca típica de vereda  que tem até á  espantosa desertificação do leito do riacho, e diante enfim de uma situação  dramática que nos assombra a todos, e não a compreendemos absolutamente, solicitei-lhe então  um relato técnico, ainda que breve, sobre as razões que tem sido decisivas pra essa realidade e tem levado milhares de pessoas do interior de Pilão Arcado  a sofrer os efeitos desse drama que compõe um quadro triste,  angustiante  tanto quanto igualmente incompreendido.
palmeiras2

Atendendo ao pedido, eis o relato o técnico que nos confronta com  a dura realidade e nos desafia o futuro chocante traduzido nas palavras:  “se nada for feito a morte dos brejos está anunciada e  o brejo tal qual um dia o tivemos e conhecemos, será apenas memórias  um retrato na parede “.

A situação que ora se passa com os brejos, em especial o Brejo da Serra, é dramática, de morte anunciada, de modo que, se algo não for feito rapidamente, o processo de degradação aumentará cada vez mais até a extinção inevitável, porque não se trata apenas de simples problema de escassez de chuvas como a maioria das pessoas supõe,  e que, com o retorno regular das chuvas, o problema estaria resolvido. Ledo engano.

plameiras1

O  processo de degradação ambiental é contínuo e lento e acontece ao longo do tempo, dificilmente perceptível para o leigo, fruto da prática descuidada de uma agricultura rudimentar e secular, conduzida por agricultores que infelizmente nunca foram orientados/fiscalizados para compreender ou respeitar  aspectos da natureza ambiental, que inexoravelmente de tanto ser maltratada mostrar-se-á um dia fragilizada de tal maneira que a própria natureza já não conseguirá mais se regenerar ou suportar, daí a necessidade da adoção de ações urgentes pelo próprio homem.

Assim, na maioria das vezes,só damos conta quando o problema nos atinge diretamente como acontece hoje com o Brejo da Serra em que boa parte encontra-se já seco, seguindo-se por conseguinte à morte do buritizal, árvore imprescindível para segurar o lençol freático, logo do próprio riacho corrente, que em última análise garante a sobrevivência do sistema como um todo.

Como medidas que podem minorar o problema ambiental ora em curso e que pode desencadear a extinção total dos brejos, poderíamos enumerar as seguintes:

  1. a)Reflorestar a cabeceira e/ou nascente principal com plantas típicas da localidade, a exemplo do buritizeiro, da imbaúba, do loredo, enfim de plantas típicas de área pantanosa; bem como, devem ser reflorestadas todas as nascentes (furnas) e/ou lagoas que ocorrem ao longo do riacho com o mesmo tipo de vegetação;
  1. b) Nas faixas laterais/longitudinais, isto é,ao longo da faixa molhada, para proteção desta  e para melhor aproveitamento econômico por parte dos agricultores podem ser plantadas frutíferas típicas tais como a mangueira, o cajueiro, a mangabeira, o pequizeiro, a goiabeira, o araçazeiro, citrus e essências florestais como o jatobá, o ipê-amarelo, o barbatimão, a sucupira, o Camaçari, etc.
  1. c)Rigorosamente não se deve construir qualquer tipo de estrada muito próxima ou dentro da faixa molhada;
  1. d)Para a área que vem secando no período seco e que já ocorre há mais de 04 (quatro) anos em boa parte do brejo, é preciso uma tomada de ação muito mais complexa e mais dispendiosa, como tal, a priori, requer um estudo mais aprofundado, de maneira a dimensionar que solução possível e viável pode ser adotada para restabelecer a perenidade do riacho antes da morte certa do buritizal, pois, se isso acontecer, dificilmente será possível a recuperação desse trecho  do brejo.

   Para essa parte do brejo, uma sugestão que pode ser discutida, quem sabe até ser considerada e viabilizada,inicia-se a partir do período chuvoso quando há abundância de água, de se verificar a possibilidade de reter boa parte dessa água ao longo do trecho seco, via pequenos barramentos(barragens) com controle de vazões através de comportas, com a finalidade de restabelecer o lençol freático, logo a perenidade do riacho, assim como o retorno do plantio da cana-de-açúcar nessa área, preferencialmente sob irrigação, adotando a de superfície, em que se aplica uma lâmina de água em compartimentos previamente formados no terreno,  os chamados tabuleiros ou quadros que são limitados ou contornados por pequenos diques semelhante ao sistema de irrigação adotado pelos arrozeiros do Rio Grande do Sul.

  Essa água assim represada no período chuvoso, gradualmente seria liberada no período sem chuvas, através das comportas, uma determinada lâmina de água, para perenizar o referido trecho.

Com o tempo e o reflorestamento nas situações necessárias, o brejo seria revitalizado,naturalmente ressurgiria da forma como a sábia natureza o concebeu e que deveríamos como beneficiários preservá-lo.

  1.    e)Para buscar o resultado esperado é necessário que haja parceria sem trégua entre os moradores do Brejo e os poderes públicos envolvidos e que isso ocorra o mais rapidamente possível. A pressa agora é fundamental para estancar o problema que se assemelha a um câncer assintomático. O buritizal não suportará a falta de água por mais tempo. É agora ou nunca.Certo mesmo é que algo precisa ser feito.

    De imediato, está ao alcance da Prefeitura, bancar a formação de um viveiro de mudas de plantas nativas para serem distribuídas junto aos moradores que devem plantá-las e cuidar, tendo a devida orientação e assistência técnica. Cabem aos órgãos de fiscalização corrigir, orientar e fiscalizar, promovendo ações para resguardo desse oásis de valor tão crucial para garantir a permanência das comunidades que vivem e dependem dos brejos.

Num primeiro momento enfatizar a importância da preservação ambiental – conscientizar a população usuária – dentre outras, expurgando definitivamente a caça e o fogo predatórios.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *